Quando um produto midiático é vendido como uma espécie de “Reflexão sobre assuntos sérios no espectro adolescente e adulto" tentamos esperar no mínimo o respeito do roteiro para tratar de assuntos tão pesados para à sociedade. Pois bem. Isso foi exatamente o que a continuação de 13 Reasons Why não fez.

Antes de tudo, sei que a série tem uma fã base gigantesca pelo mundo inteiro e que de certa forma ela ajuda quando fala de temas como suicídio que, na premissa da história, é o mote principal. Além disso, concordo que a primeira temporada realmente fez um bem ao trazer um tema tão delicado ao público mainstream e de uma maneira tão massiva. Apesar de mesmo na primeira temporada a série ter sido negativamente criticada por mostrar de forma explícita um suicídio, repito que sua importância, tanto como levantamento de um tema social, como uma simples dramaturgia, foi pontuada.

E então chegamos ao segundo ano.

Sendo bem direto, é importante adiantar que de todos os sub-enredos elaborados para a segunda temporada, apenas um funcionou e manteve a característica da série e o seu papel de “conscientização” que no caso seria a desculpa para apresentar temas tão pesados em uma produção teoricamente para adolescentes (e adultos).

A história de Jéssica Davis nos trouxe um tema atual e importante e que sinceramente eu não esperava ser tão bem trabalhado. Todo o processo de aceitação do acontecimento misturado à convivência com o próprio agressor em um ambiente escolar, foi uma situação bastante real que a série de fato conseguiu passar sobre o tema. A questão de Jessica não conseguir se relacionar ou ao menos ter uma grande dificuldade em se tornar “normal” outra vez para se relacionar com outro garoto, foi um retrato muito sincero, mesmo que um pouco ingênuo, do que acontece com essas meninas.

Principalmente a conclusão, quando chega-se ao veredito da acusação de seu agressor, Bryce Walker – um rapaz rico, atleta da escola e protegido pelos pais – vimos que toda essa situação é passada para a sociedade como se o agressor fosse apenas um jovem que cometeu um pequeno delito, enquanto quem sofreu a agressão, principalmente se for uma mulher - não pode ver a justiça sendo feita.

O juiz alegou que Bryce já fora prejudicado demais, perdeu as bolsas de estudos nas universidades e vai ter que mudar de escola... E a Jéssica? O que ela perdeu?

Com uma cena emocionante a série apresentou o discurso de Jéssica para o seu agressor, junto ao de grande (e grande mesmo) parte do elenco feminino da série, em que cada mulher se dirigia ou falava sobre seu próprio agressor. Um final real, para uma storyline bem construída e mais uma vez, a única.

Fora isso, todo o roteiro de 13 Reasons Why só foi ladeira abaixo.

A única palavra que me vêm à cabeça é: Irresponsabilidade. É claro que a série não tem obrigação de doutrinar ninguém, trata-se de uma produção que querendo ou não leva em conta o entretenimento. Contudo, todo o discurso que a produção trouxe como justificativa para a criação e continuação da série foi por água abaixo.

Eu não vou nem levar em conta todas as falhas sérias e toscas de roteiro que envolveram o protagonista da série e suas motivações, só falar rapidão que repetir a temática de suicídio e auto agressão para forçar um par romântico foi bem feio.

Durante toda a temporada fomos introduzidos a um plot que claramente, sem nenhum pudor ou um olhar cuidadoso que a série tanto diz ter, fazia referência a um possível massacre no Liberty High School. O plot foi conduzido por Tyler, que seria o personagem perfeitamente estereotipado para a temática ser trabalhada.

Ao longo dos episódios a série foi dando referências ao possível acontecimento no final da temporada e se isso fosse feito de maneira realmente pensada, talvez o final tivesse sido realmente diferente. Deixando tantas pegadas pelo caminho, muitas delas de maneira cômica e sem importância a respeito de um assunto tão sério e extremamente atual, a segunda temporada provou que a necessidade de continuar a série foi maior do que a coragem de trazer esses assuntos à tona.

A situação chega a ser bem encaminhada no último episódio, dá pra acreditar que mesmo depois daquela péssima construção de personagem, os roteiristas acertariam a mão para uma possível terceira temporada. Tyler retorna a escola e é brutalmente agredido pelos seus colegas, gerando uma das cenas mais pesadas da série. Eu até diria corajosa se não tivesse visto o resultado daquilo tudo.

Que foi. Exatamente. Nada. Aliás. Sim. O Velho conhecido, sensacionalismo barato.

Clay, o personagem principal da série fica sabendo que Tyler está chegando ao baile da escola para atirar em todos e com um ato heroico corre até a porta da escola e consegue parar o amigo, fazendo ele voltar atrás mesmo montado de uma metralhadora automática apontada para si.

13 Reasons Why dá assim, um tiro no próprio pé no único plot que poderia ser sinônimo de salvação para a visão da obra como um produto importante e relevante socialmente falando. Não é a primeira vez que o assunto é abordado na tv norte-americana, mas nunca tinha visto ser apresentado com tamanha estupidez e irresponsabilidade. Fica claro assim que a importância do debate desses assuntos perde seu espaço para a caracterização do original netflix como um simples produto midiático. Na verdade não podemos dizer que vai servir apenas para o entretenimento, pois quando um assunto tão pertinente é tratado de maneira tão romantizada, é perigoso pensar no que podemos esperar.

O Tiroteio não acontece e sei que se acontecesse teríamos que dar adeus a vários personagens amados e sim isso seria bastante triste, mas se a série obteve sua importância e seu holofote no intuito de DISCUTIR assuntos tabus, porquê de repente a manutenção de seus personagens se tornou mais importante que a discussão em si?

Esse é um porquê que eu não preciso dizer a resposta.