Thanos roubou a cena nos Vingadores. O Coringa está prestes a voltar para o cinema e Venom vem aí. Você já deve ter se perguntado o motivo dos vilões estarem ganhando tanto espaço ultimamente.

Talvez em um movimento orgânico, o próprio gênero - dos super-heróis - esteja se renovando, uma vez que já se desenvolveu dezenas de 'mocinhos", é necessário um respiro para que voltemos a nos surpreender. No caso de Thanos, há uma resposta muito técnica a respeito de seu carisma. O personagem é muito bem construído e foge das camadas rasas e clichês que representavam o que era ser um vilão.

Ainda falando sobre o titã, ele nos apresenta uma dubiedade característica de todos nós, enquanto humanos. Ele tem suas convicções e acha que está fazendo o que é necessário, e talvez esse seja o diferencial. Ele não é um vilão apenas por querer destruir o mundo e etc, pelo contrário, não há sentimento ou vontade em ser um portador da morte, há apenas a vontade de fazer o que manda a sua razão. Sua construção se preocupa em trazer à tona o que está por trás de cada um de seus movimentos e motivações. E veja bem, não é apenas uma tentativa de justificar os crimes dos vilões, é uma tentativa de dar para o personagem uma personalidade tão bem trabalhada quanto é dada aos heróis. 

Tentar entender o que faz um vilão é construir para o personagem uma convicção e presença tão forte, que o mesmo nem sabe que está fazendo uma maldade. Thanos, por exemplo, não pensa que está fazendo uma crueldade com todo o universo, ele pensa estar sendo benevolente, até mesmo por estar se sacrificando para salvar trilhões de vidas. Para ele, isso é algo que precisa ser feito, e não há julgamento se é bom ou ruim, é difícil mas necessário, e ele vai até o fim por isso porque é a única chance do universo continuar existindo. 

Já no caso do Coringa, a situação é um pouco mais complexa. O filme que terá Martin Scorsese na produção pode apresentar muitas coisas novas para a construção de um vilão. O Coringa em si é um personagem muito interessante, e é muito bem trabalhado nas HQs, e por isso carrega consigo um certo mistério e se divide em diversas versões que podem ser exploradas. Para a DC esse é um momento de testes e eles querem tentar descobrir novas fórmulas com um personagem muito conhecido pelo grande público e dando certo, é fácil afirmar que mais filmes como esse, virão. 

Nem todo mundo conhece a origem do personagem e isso faz parte do imaginário do Coringa, criando uma situação totalmente nebulosa que ajuda na tensão e curiosidade em entender mais desse palhaço. No entanto, se essa origem for bem trabalhada, há uma grande chance disso enriquecer ainda mais o universo do vilão. Mas nesse caso é preciso que mantenham o Coringa como um vilão de verdade, convicto, que não tente se justificar para o público a ponto de acharem que ele está correto em algo, afinal, mesmo com todas as suas convicções, no fundo ele é um psicopata e pronto. Um exemplo de como isso pode estragar um filme e seus personagens é "Esquadrão Suicida" que dizia o tempo todo que os personagens eram vilões, mas que iam salvar o mundo. Isso desvirtua o conceito e os personagens ficam perdidos em suas motivações e isso não ajuda o filme em nada. 

É possível trabalhar com um protagonista vilão sem tentar provar que ele é uma espécie de herói. Os filmes de máfia fazem isso muito bem. Eles usam a ótica da própria máfia e dos próprios personagens, vilões em si, para construir cada um deles como vilões e nada além disso. É muito bom narrativamente explorar o universo a partir da ótica de um vilão e mesmo que se justifique os caminhos que o levaram até aqueles crimes ou atos maldosos, etc, não se tente provar que há um desejo de mudança em largar esse mundo vilanesco. O personagem pode gostar e querer ser para sempre um vilão e é isso que é bacana. Thanos é o exemplo disso. Por mais que ele não se veja como um vilão, ele está disposto a continuar tentando cumprir sua missão que é destruir metade do universo para salvar o próprio universo. Em nenhum momento, ele balança ou se sente tentando a repensar sobre isso. 

Falar sobre Venom é complexo no momento. O filme é arriscado pois tentará justificar todas as ações do simbionte para tratá-lo como um anti-herói. A Sony está perdida no que fazer e agora criou o SUMC - Sony's Universe Of Marvel Characters (Universo da Sony com personagens da Marvel) - para aproveitar os outros personagens que ela tem, além do Homem-Aranha e Venom, que conta com a Gata-Negra e a Sabre de Prata que já têm seus filmes programados, além de outros. 

A Sony está investindo na premissa de que todos nós temos nossos próprios demônios - como disse Tony Stark em Homem de Ferro 3 -, e essa ideia já tem algum tempo. Antes de fazer o acordo com a Marvel para dividir os direitos do Homem-Aranha, a Sony já tinha a ideia de fazer um filme do sexteto sinistro e isso foi um grande elemento de mudança dentro da empresa. No final de O espetacular Homem-Aranha 2 - A ameaça de Electro há vários ganchos que indicavam a formação do grupo de vilões, e como a franquia não seguiu, tudo foi deixado de lado. Agora e empresa pensa em fazer filmes individuais dos vilões e depois juntá-los, o que deu certo com a Marvel. 

Falando em números, em dols, 4 dos 5 filmes mais vistos em 2018 até agora são de franquias de super-heróis. A gente tem Pantera-Negra, Vingadores: Guerra Infinita, Deadpool 2Os incríveis 2. Jurassic World 2 fecha a lista sendo o único que não é do gênero. Isso é a prova de que as empresas estão cada vez mais querendo investir nos personagens dos quadrinhos e que há uma constante busca por novos rumos a explorar - apesar de todos estes filmes serem de franquias -, talvez a moda de agora seja os vilões. 

Claro, o problema não é em investir em filmes de vilões. Todos os filmes são bem-vindos desde que seus personagens, heróis ou não, sejam bem construídos e apresentem camadas profundas de personalidade. Para isso é preciso entender o seu protagonista, principalmente se ele for um vilão, e conhecer as suas justificativas e motivações, tal como sua visão de mundo para saber para onde seu personagem irá. Isso é complexo porque você não pode tratar seu vilão protagonista como um vilão raiz, pois a vilania precisa de oposição. E é nesse quesito que o filme do Coringa pode se dar muito bem, uma vez que Scorsese sabe lidar com esse tipo de situação. O filme "Os bons Companheiros (1990)" não tem um herói. Ele apresenta o mundo através da ótica de um rapaz que desde sempre quis ser um gangster e com isso, o filme entrega uma visão que as pessoas normalmente não tem em suas vidas, pois você vê o mundo por uma pessoa que é ruim. É uma ótica distorcida que eleva o filme de patamar, e se o filme do Coringa seguir essa abordagem ele pode ser incrível.