A mentalidade do jovem é muito provavelmente a mais autocentrada entre todas as outras épocas da vida, mas, da maneira errada. Isso significa que, nessa fase, nos vemos como um sol recheado de coadjuvantes, menos poderosos e nocivos do que nós mesmos, girando ao nosso redor. Esse modo de pensar pode dar origem a uma visão única sobre a vida e principalmente sobre as possibilidades dentro dela, que dentro dessa lógica, só podem seguir apenas o caminho que imaginamos existir e mais nenhum outro.

Cassie Howard foi apresentada em Euphoria como uma personagem com traumas familiares relacionados ao seu pai e a maneira como ele a fez se sentir abandonada desde sua infância. A partir deste ponto de origem conseguimos acompanhar todo o desenrolar da personagem até o que estamos vendo agora: uma adolescente ainda traumatizada e que acaba se envolvendo em um relacionamento psicologicamente abusivo.

Donniela davi, a makeup designer da série contou que ela vê a maquiagem como algo que não define exatamente quem somos e sim como estamos nos sentindo naquele momento. Ao explicar sobre a maquiagem da Cassie, ela disse que esse seria o tipo de maquiagem usada/pensada para atrair homens. Neste caso, isso talvez explique um pouco mais do alicerce onde é construída parte da autoestima da personagem.

No último episódio: “You Who Cannot See, Think of Those who Can”, na cena em que discute com Nate, o personagem a acusa de ser manipuladora e chantagista, e aqui temos um ponto em que explica muito sobre o que a série sempre falou e que talvez esteja ainda mais explícito e maior neste segundo ano. Todas essas cenas grandiosas e a forma como a narrativa de cada um é apresentada, mesmo quando se trata de coisas aparentemente triviais, parece ter o propósito de nos mostrar em qual nível todos nós podemos nos preocupar ao extremo com o nosso ego.

Isso fica ainda mais explícito quando em montagens diferentes da mesma cena, momentos que tiveram grandes impactos minutos antes no episódio (quando a série estava contando a história daquele personagem) são mostrados como meros acontecimentos corriqueiros. Isso, além de ser um recurso de narrativa, pode ser também porque o outro personagem provavelmente não dá a mínima ou simplesmente não sabe o que está acontecendo com o primeiro personagem porque ele está centrado demais em suas próprias ações.

Isso nada mais é do que a própria realidade dessa fase da vida. Onde, ao que parece, todos os outros problemas e acontecimentos que não nos envolvem diretamente ou aquilo com o que nos importamos, simplesmente não importam e não possuem peso. Quantas vezes você já viu cenas de velório de familiares/amigos adultos ou mais velhos em que os mais jovens estavam fazendo algo completamente aleatório como se não dessem a mínima para o peso daquela situação? A dramaturgia está cheia disso e aqui em Euphoria isso não parece diferente.

Em um episódio de Friends chamado: "Aquele onde Nana morre duas vezes", temos toda uma trama onde a avó materna de Ross e Mônica (ambos irmãos e um dos seis protagonistas do show) morre. No entanto, ainda que seja uma série cômica onde as situações engraçadas no roteiro são feitas para se sobressaírem, a morte da avó funciona na verdade não só como um plano de fundo como também um gatilho de várias piadas sobre a sua morte não ser tão importante assim dentro daquela realidade de amigos. Mesmo que não sejam mais adolescentes, ainda são jovens e possuem outras preocupações  mais triviais porém não menos importantes porque são de suas próprias vidas.
 

Cassie é uma personagem claramente inserida nessa lógica do egocentrismo adolescente - assim como absolutamente todos os outros personagens adolescentes da trama da série da HBO. A lente de aumento aqui nos explica que em sua construção também está uma garota traumatizada e que parece possuir vários problemas em relação a sua autoestima, mas não deixa de ser autocentrada em algum grau. Nunca.

A resposta disso está, mais uma vez, na fase da sua vida que está sendo apresentada na série. Ao mesmo tempo, sua própria personalidade e construção pessoal mistura os seus sentimentos e a faz começar a entrar em colapso em torno desse turbilhão de acontecimentos e sensações.

A cena do vômito na banheira parece um simples aviso de como todas essas coisas mexem com ela, tornando-a um ser autodestrutivo e que também possui o poder de afetar aqueles que ama, mesmo aparentemente sem ter a intenção disso.
 

Aqui, o roteiro parece querer nos mostrar como essa manipulação adolescente parece ser algo quase inconsciente. O egocentrismo nessa época da vida seria tão forte que simplesmente não notamos em quais níveis chegamos nas nossas ações e pensamentos para atingir aquilo que queremos. A manipulação seria um dos artifícios usados para tal fim.

Cassie nem de longe parece ser alguém manipulador e calculista, e sim o exato oposto disso e é exatamente por esse motivo que a vemos degringolar, decorrente de suas próprias ações, e não somente nesse episódio em si, assim como em todos os outros desde que começou a ter esse relacionamento. É importante lembrar que no último episódio do primeiro ano da série, “And Salt the Earth Behind You”, acompanhamos a personagem indo fazer um aborto e isso com certeza teve algum significado dentro de sua construção emocional e ao fato dela parecer completamente perdida lá no primeiro episódio da segunda temporada, na cena exata em que Nate a encontra, completamente vulnerável.

Ela já estava, possivelmente, perdida emocionalmente. O contexto de sua relação com Nate apenas trouxe todos os sentimentos à tona, não que isso diminua os efeitos dos abusos psicológicos do personagem em relação a ela. Sem contar, os efeitos e consequências que esse relacionamento poderá ter em sua relação com a sua melhor amiga, Maddie

Em relação a mentir para sua própria amiga, acredito que esse não é o grande ponto do roteiro aqui, mesmo isso tendo um grande impacto nas ações da personagem no episódio. A questão que mais parece ganhar vida aqui é como alguém que está destruído por dentro pode piorar ainda mais ao se colocar em uma situação abusiva, simplesmente por estar em um momento de vulnerabilidade emocional.

Chego a conclusão, ao menos até o episódio apresentado, que o egocentrismo adolescente de Cassie existe. Mais uma vez, assim como todos os outros, ela também pode ser egoísta e não se preocupar em afetar fortemente os sentimentos daqueles que ama, mas isso talvez só mostre que ela mesma não se preocupa tanto assim consigo e sim com o que provavelmente acha que a vai fazer se sentir bem, mesmo que seja um sentimento efêmero.