Personalidades se desenvolvem o tempo todo e se transformam ao longo da vida. Todos os acontecimentos, que nos envolvem de alguma maneira, afetam essa construção contínua para sempre, sejam eles triviais ou grandiosos representam um peso que é somado ao longo da vida. O que realmente importa é a forma como os encaramos. 

Assim como todos os outros personagens adolescentes de Euphoria, Rue também é uma adolescente traumatizada. No caso dela, descobrimos especificamente sobre sua história e sua principal motivação para o vício, a morte de seu pai. O fato da série ser narrada pela personagem torna isso tudo ainda maior. A sensação de imersão nesse mundo onde as drogas parecem ser o único escapismo mais óbvio, ainda que aparentemente a personagem tenha consciência disso, é sempre presente e quase uma característica intrínseca à narrativa. 

O uso excessivo de drogas é sim um ponto que forma a identidade do show e está ligado ao desenvolvimento da personagem principal. É importante lembrar, no entanto, sobre o que a narrativa está contando e principalmente quem está contando. Ainda que seja bastante evidente, o que poderia se transformar em glamourização pura (o que de certa forma acontece por consequência de se tratar de uma obra de entretenimento) a trama está sendo contada por uma adolescente que está se afundando cada vez mais em seus próprios traumas e quando não está fazendo isso, provavelmente está criando outros novos.

Rue é a personagem perfeita para contar essa história porque, dentre todos os outros, parece estar num nível ainda mais sofrível de sentimentos e atitudes de alguém que não está nada bem psicologicamente e isso significa que ela não tem mais muito a perder (o que, de fora, sabemos que não é verdade). Logo, o seu jeito super sincero de descrever não só as coisas sobre sua própria vida como a dos outros é o que torna a sua narração indispensável. 

Esse ponto, de primeira, já a tira do clichê inicial de ser uma protagonista intocável (com algumas ressalvas). Rue é uma dependente química e suas ações mais loucas ou não, são possíveis consequências disso. Sua dependência também se estende para o lado emocional e quando observamos sua relação com Jules já entendemos sobre isso. 

Por mais que sejamos inclinados a amar a personagem e entender a sua boa índole, também é possível enxergar o quanto as suas ações podem ser fortemente negativas para todos aqueles ao seu redor. Jules é uma dessas pessoas. É realmente muito triste tudo o que aconteceu a personagem e também as suas próprias características de personalidade que a ajudaram a se tornar uma viciada, mas isso não significa que todos aqueles ao seu redor precisem carregar o mesmo peso. 

 

 

Um contraponto bem construído

 

Jules é uma personagem muito bem aprofundada e com bastante camadas, ou seja, isso significa que ela também possui suas particularidades e que, definitivamente, não é um simples acessório para Rue.

Isso é mostrado lá na primeira temporada, nas vezes em que a personagem vai embora para uma outra cidade e claro, quando conhecemos o seu próprio background. É por isso que a identidade de Euphoria como um show completo é tão importante aqui. A apresentação de cada personagem não é minuciosamente feita, à toa. Através de todos os detalhes possíveis que conhecemos, parecemos sermos levados a entender que ela é uma pessoa com bastante ímpeto de correr atrás daquilo que deseja, não importa o que aconteça ou o que as pessoas pensem. 

Isso também significa que ela também vai cometer vários erros pelo meio do caminho, assim como vai querer o melhor para si e para aqueles que ama. Fazendo isso da forma correta ou não.

Não é porque Rue é a nossa protagonista e narradora que sempre vamos entender a sua versão da história e principalmente estando inserida no contexto em que está. É exatamente neste ponto, dentre os vários que já são óbvios desde a primeira temporada do show, que Euphoria é uma série adulta. Sendo assim, a verossimilhança (dentre várias ressalvas) deve ser respeitada. Rue é uma viciada e que está cada vez mais perdendo o controle, isso é um fato dentro da trama e merece ter o peso que tem. Não somente no ambiente ao seu redor (o que vemos de forma literal no episódio, “Stand Still Like Hummingbird”), como também em sua família e amigos. 

Está bastante evidente que nesse segundo ano, a série resolveu ir muito mais fundo ao falar sobre o vício. 

Na apresentação do show, lá no primeiro ano, a narração e a trama explicavam sobre os efeitos que as drogas causavam e deixava claro que era algo ruim, mas ainda assim toda a construção imagética deixava tudo aquilo muito mais glamouroso.
Essa segunda temporada apresenta tudo isso de um jeito mais cru e próximo do que realmente acontece, não que a primeira seja irrealista mas o segundo ano é muito mais forte e sem a parte do glamour presente nas drogas, apesar da série como um todo não perdê-lo.
 

Quando Jules se envolve com Elliot, muitos comentários dos fãs da série praticamente transformaram a personagem em uma espécie de vilã. Neste caso o que mais uma vez é necessário entender é que não é porque ela é uma pessoa compreensiva e que ama a Rue, que todas as suas ações serão favoráveis a esse relacionamento. É sempre importante lembrar que o vício de Rue, assim como todas as suas recaídas não são culpa de Jules, independente de suas ações. 

O que faz, ambas as personagens, serem um ótimo fruto para uma trama tão bem produzida e conectada é justamente todos esses paradoxos. Elas aparentemente se amam e querem ser felizes, mas seus mundos pessoais são tão complexos e individuais que torna tudo isso muito mais difícil de ser vivido. Além de tudo, são adolescentes e assim como a série faz questão de mostrar em absolutamente todos os episódios, esses são os seres mais mergulhados em seus mundos particulares que existem, mais do que qualquer outra fase da vida.

Se Jules e Rue lidarão uma com o peso que a outra carrega, provavelmente não saberemos tão cedo. Na verdade, não acho que esse seja o ponto principal do show e sim a maneira como cada um dos personagens por si só vai conseguir resolver o seu próprio universo particular, tão vasto ao ser apresentado e tão imenso e pesado para ser resolvido.