Part 1: Marco

Há uma unanimidade sobre a Liga de Snyder que há na boca de quem gosta e quem não gosta: a versão de Joss é uma verdadeira sacanagem — fato. O que a Warner junto ao diretor de Vingadores foi de um repúdio total para todo e qualquer artista da indústria que se preze e tenha amor à sua arte. Houve uma total desconstrução das ideias, mensagens e, principalmente, de teor do filme em todos os âmbitos possíveis. O longa aqui trata-se de algo épico e que tem ligação com o resto do universo. 

Após essa bomba chamada SnyderCut finalmente sair, o próprio Zack começou a abrir o bico sobre diversas coisas, e só pelo fato da WB não se posicionar quanto as palavras do diretor, já cria uma visão de que alguém está muito certo nesta historia. Batman vs Superman foi a primeira bomba que colocaram nas costa de Zack, com a versão de diretor bem mais digerível que a do cinema.  Porém, quando soube que Snyder tinha o desejo de nomear BvS como Liga da Justiça: A Ascensão e eles negaram, assim como outros títulos, comecei a notar o boicote e a perseguição imensa que Snyder veio a sofrer dentro das produções com o selo DC.

É importante salientar isso, pois deverá haver uma real atenção nas produções para que esse tipo de limitação artística e humana não torne-se algo meramente comum. Imagine só quantas obras incríveis deixariam de existir no mundo cinematográfico se as produtoras fossem tão violentas e desrespeitosas quanto caça niqueis. Ou talvez, fique aqui o questionamento: quantas obras tinham potencial para serem incríveis e foram estragadas e desmerecidas pelo corpo corporativo de alguma companhia de Hollywood? Zack Snyder realmente significa um marco para o cinema, não por fazer cinema de forma espetacular, nem por direções surpreendentes, muito menos roteiros magníficos (seus plots são horríveis), contudo, sim, por mostrar a força e a virtude de fazer cinema com intuitos e vontades maiores, movimentando grupos, causando barulho e dando dor de cabeça em executivos nos escritórios por aí.

Part 2: Épico

Quando vimos a versão Snyder de Justice League, foi algo como ver as verdadeiras figuras por trás das sombras refletidas na caverna a qual nos encontrávamos — fazendo uma analogia a Platão. As cenas que pareciam toscas, agora seria visível e principalmente respeitável com suas grandezas, sendo no corte de Joss apenas (e unicamente) recortes. Na primeira e até então única vez que Darkseid veio a Terra, ocasionou em uma batalha simplesmente épica entre povos terrenos e alienígenas. Deuses, semideuses, reis, rainhas, amazonas, laternas, atlantis, tropas e exércitos em um campo de batalha insano, com cenas dignas de uma saga de Senhor dos Anéis (como já comparado), diferentemente da Marvel, que custou um fiasco em Civil War para acertar apenas em EndGame no quesito epic battle.

Para quem apareceu lá, por aqui dá as caras de forma épica. Darkseid é gigante. O filme faz sentido com ele. E sem ele, Lobo da Estepe é uma sombra sem forma. Darkseid é o que precisamos para dar sentido a Liga. E na obra de Snyder, ele é pensado desde de BvS, com os sonhos de Bruce. Planejado para sua existência, sem o grande vilão, não há forma em Liga da Justiça. Para quê reunir os maiores heróis do mundo? Para Snyder, combater o destruidores de mundos. Para Joss, para sua conta bancária ficar mais gorda.

Os furos e as questões sem sentido são explicadas aqui. Lois Lane, Silas Stone, Alfred, Mera e outros tem tempo de tela o bastante para justificar suas existências no longa. O enredo faz mais sentido quando conhecemos de perto a trama de cada personagem, além do contexto que o planeta se encontra. Na versão anterior, tudo parecia corrido e sem ligar pontas. Podemos usar de exemplo a cena que Superman é revivido. Em Joss Cut, a reunião dura pouquíssimo tempo, sem grandes debates nem discussões e logo decidem fazer aquilo. Na versão (que deveria ser a) original eles tem uma longa conversa — e merecida, visto a importância da ação que deveriam tomar — com integrantes questionando a situação toda, criando desta maneira um relacionamento de confiança entre eles.

Flash de Erza Miller se mostrou um ótimo Flash, cheio de elegância nas cenas de ação e carisma nas de humor, diferentemente do corte de 2017, que ele só aparecia para soltar piadas sem noção e fora de clima. Ciborgue ganha uma atenção extra que realmente chega a comover com peso, dando dignidade ao herói interpretado por Ray Fisher, colocando de escanteio o melodramático ex-jogador de futebol americano exibido três anos atrás. Todos os personagens fazem sentido naquele universo e proporcionam episódios como os da batalha do esgoto de Gotham ainda com o Lobo da Estepe que simplesmente é um show de erros na versão Joss e que aqui, há uma batalha que expõe as características e pontos fracos de cada membro.

Falando nele, suas aparições são grandiosas a ponto de você querer ver mais daquilo (pelo amor de Deus alguém financia essa sequência com Ray). Darkseid interpretado Ray Porter é diferente do vilão conquistador que vimos em Infinity War e EndGame. Thanos é um antagonista, de fato. Darkseid se mostra mais como um vilão que almeja poder e conquistas do que alguém que tenha metas reais e palpáveis como o roxão da Marvel. E...tudo bem, entende? Ele funciona como tal vilão e com certeza queremos mais!

Em outro momento lá pra frente, a batalha final na usina não tem moradores locais e nem show falho de VFX. O que há realmente é um espetáculo de Superman que, com toda certeza que guardo no coração, se fosse exibido nas salas de cinema — a cena de sua aparição — seria recebida com muito entusiasmo com direito a gritos e palmas. Como também seria assim Barry Allen assumindo a velocidade do tempo e conseguindo regressar a um suposto fim trágico após a sincronização. Aquilo foi perfeito, cara! Sério, todos ali estavam dando o máximo de si. Até o desfecho do Lobo foi simplesmente necessário para aliviar nossos corações: destruído e humilhado por Clark, trindentado por James e decapitado por Diana. Seu fim, porém veio aos pés de seu líder supremo.

Liga da Justiça se mostra épica em sua proposta e em sua entrega. Vindo primeiro com o filme de equipe, Snyder se torna o verdadeiro padrinho desses heróis que podem ganhar suas aventuras solos, já que eles nos eletrizam com belas slow motions já com certa familiaridade a filmografia do diretor. Apesar de ser uma aventura que não envolva o mundo inteiro, ela se torna grande, ao mesmo tempo que necessária e é aí que a Liga de Zack Snyder mostra-se astuta para convencer que aquilo é algo fabuloso — que a Liga da Justiça é fabulosa.

Epílogo: Defeitos

Meu epílogo será falar sobre os defeitos de Liga. E vamos logo por ele. O que me parece é que o epílogo aqui em Liga serve para não só bater as quatro horas de longa, como também para saciar literalmente todas as fantasias que Snyder gostaria de cumprir com aqueles personagens que tanto carrega carinho.  A cena de sonho de Bruce de um futuro vibe Injustice parece sem sentido no final do filme e muito longo para ser uma espécie de pós-credito. Ao mesmo tempo, parecia que os sonhos de Bruce tinham ligação com os acontecidos de Superman e Lex Luthor em Batman vs Superman, com Lois Lane em Justice League terminaria esse enredo de freaky hero, contudo o Morcego mostra-se novamente desconfiado com o kriptoniano

Além disso, escancara a vontade do Caçador de fazer da Liga, vendo que sua participação surpresa no meio do longa já se fazia suficiente. Mas o que agradou muitos e me desagradou muito foi o Coringa no sonho de Bruce. Snyder falou que era sua vontade ver os dois atuando juntos, e como deve ser sua última chance de colocar isso em prática, assim foi. Contudo, creio que houvesse melhores possibilidades de ter esse encontro, até de forma mais épica (que um sonho) para combinar com todo o andar do filme. Ao parecer de Lex Luthor, admito também que não me empolgou, pois vejo naquilo mais decepções visto que não haverá continuidade do que propriamente algo animador e excitante. Em resumo, foi bom sentir o gostinho do amor de Zack por aqueles personagens, contudo deixou um quero mais muito amargo em nossas bocas. 

O que torna a Liga de Snyder difícil de engolir, principalmente para o público fermentado na fórmula Marvel, é o seu logo tempo de duração. Temos 240 minutos de muito slow motion, alto contraste, pouca saturação e megalomania. Isso é justamente o contrário do que é visto nos filmes dos estúdios Disney. Nas obras ao comando de Feige, se é visto formatos mais fáceis de descerem ao grande público. Mais tranquilo comer uma pipoquinha com Coca assistindo Avengers com duas horinhas do que um épico de fucking quatro horas snyderiano. Isso torna inevitável o atrito entre o grande público e as  diversas horas de exibição.

Já dito isso, o que há de fato é uma longa arrastada certas vezes. Cenas prolongadas cansam até os fãs assíduos da estética de Snyder, como as do B esbanjando seu shape anabolizado com muita água escorrendo sob seus músculos, ou as Amazonas pra lá e pra cá na ilha até serem atacadas por Lobo da Estepe. É sério, tem hora que Snyder vai no limite do cara querer dormir no meio do filme. Parece ter exagerado para compôr quatro horas de filme. Facilmente poderia ser retirado meia hora de filme dali sem tirar o épico da obra.

Conclusão

Snyder Cut cumpriu com o que precisávamos. Como primeira Liga nos cinemas, temos algo grandioso e diferente. Talvez, no futuro breve, Liga de torne um cult subestimado à sua época — algo como Clube de Luta. Hoje, está no boca a boca nerd. Hoje, Snyder Cut é pop. Hoje, a versão de Liga de seu progenitor mostra ao mundo que só quem idealizou sem pensar unicamente em lucros tem o preparo para fazer algo com sentido e minimamente respeitoso.

Liga da Justiça é bom. Sim, é bom. Pela primeira vez Snyder fez uma obra boa de verdade. Não há o que falar, ela está lá, existe, faz sentido naquele universo e tem coerência técnica. Podem-se dizer que é um repelente perfeito para marvestes. A DC pode dar certo do jeito dela. E com certeza iria está melhor das pernas agora se tivesse continuado com a mínima decência e honra (a não ser por Coringa e o futuro Batman que coloco muita fé), enfim de sacanear o cara que deu vida àquele universo. E é esse o ponto: Liga de 2017 é uma p#*a sacanagem com Snyder e toda sua produção. 

Com certeza serve de aprendizado para toda a indústria que não se coloca o dedo (ou toda a mão) assim no fazer arte de alguém. Snyder teve sua redenção e provavelmente não foi o primeiro e nem será o último a passar por isso. Entrou com o pé direito e saiu com ele também. Houve honra. Agora, nos resta o futuro. Aguardar o que o nós do futuro entenderá disso tudo e qual será, na realidade, o legado. Quem sabe posteriormente, depois da fase Marvel das coisas, Snyder tenha a chance de continuar sua epopeia heróica tão grandiosa como ele queria nos entregar. Tudo há seu tempo. Nos resta aguardar. O Tempo de Heróis virá novamente.