O maniqueísmo existe em nossas cabeças, e sempre tendemos a nos ver como pessoas de boas intenções nas situações da vida. Na realidade, no entanto, sabemos que ele não é real e que nós e as pessoas, somos uma conjunção de boas e más intenções e o ponto em comum seria colocarmos nós mesmos como o centro de nossas vidas, sempre, ainda que umas pessoas façam isso mais do que outras.

Em uma boa parte de sua vida, Lexi Howard viveu às sombras da irmã, não porque era uma pessoa menos importante ou interessante, mas porque de acordo com o meio em que estava inserida, sempre entendeu que suas características pessoais, principalmente as físicas, não eram tão importantes quanto as daquela pessoa com quem sempre viveu junto mas de quem era/se achava muito diferente.

A tendência a ser uma observadora do mundo aparece como um traço de sua personalidade que, na verdade, foi levado a ser assim pela circunstância da sua vida e que talvez não seja exatamente assim por natureza. A prova disso é o seu amor pelo teatro em si, que fica claro nesse episódio. 

Geralmente o teatro é usado como um artifício para que pessoas tímidas se soltem em suas vidas sociais, no caso de Lexi, aparentemente ela realmente ama isso. 

 

O palco é uma das únicas formas, até então, que ela encontrou para ser ouvida pelas pessoas. Quando ela tem a chance de fazer isso, o que ela faz? Uma peça sobre sua vida e suas amigas.

Isso parece uma evidente forma de mostrar que, assim como todos os outros de sua idade, ela também é uma jovem autocentrada e que entende a sua própria vida como o núcleo do seu universo pessoal. Não é porque, talvez ela não seja tão autoconfiante assim como alguma de suas amigas, que ela não é autoconfiante. Ela apenas é, só que do seu jeito próprio jeito.

Na verdade, não é que a peça seja uma reencenação de sua própria vida de uma forma completamente narcisista e sim, assim como a personagem diz ao tentar explicar sobre a produção ao Fez, “é sobre amizade”. Dessa maneira, ao se questionar e se preocupar se aquela sua ação muito provavelmente magoaria a sua própria irmã e talvez suas outras amigas, Lexi é apresentada mais uma vez como alguém que não deixa de ter as suas características joviais mas que também possui um senso próprio do que pode ou não pode fazer com as pessoas ao seu redor e isso claramente é algo aguçado justamente por ela ter crescido no ambiente em que cresceu.

Dentre as outras personagens, Lexi parece ser a mais madura, ainda que não perca o que a faz ser quem é. Não é porque ela tem mais consciência do que as outras sobre o que é e o que gostaria de ser, que ela seja menos adolescente por isso. As vontades estão ali, o instinto - ainda não tão desenvolvido pelo pouco tempo de vida -  para evitar possíveis erros é o mesmo, a diferença é que ela sabe lidar com isso mais do que o normal do que uma pessoa de sua idade costumaria lidar.

Colocar Lexi como a diretora da peça foi um ótimo artifício para uma analogia de como ela conseguiu aprender a se desenvolver no campo da observação, ao mesmo tempo que isso não significa que ela não possa agir e tomar atitudes, que ela não tenha o poder de mudar as coisas na sua própria vida. Pelo contrário, o seu controle excessivo e quase tirânico nos bastidores da peça parece justamente uma maneira de mostrar que ela também sabe encontrar o seu destaque dentro de sua própria realidade, ela também sabe agir de forma tenaz assim como todos os outros. Sua tenacidade não é obviamente adolescente mas não deixa de existir, tanto é que se canaliza por meio de uma pessoa que deixa de ser contida para explodir em alguém que grita pelo que quer e não parece ter medo disso, mesmo que tenha em alguns momentos. 

É por isso que a todo momento vemos suas expressões mudarem à medida que os atos da peça vão ficando cada vez mais polêmicos. Isso porque, mesmo sendo tão corajosa por ser tão confessional e expositiva sobre todos à sua volta ela teme as consequências disso, ainda que não deixe que isso a impeça.
 

Isso tudo significa que Lexi é superior e melhor que todas as suas amigas ou que a sua própria irmã? Definitivamente, a questão aqui não seria exatamente essa e sim, na verdade, como alguém conseguiu se desenvolver da sua própria maneira dentro de um ambiente nem sempre favorável ao seu próprio bem. Isso se confunde, porém, com a história de todos os outros personagens. Todos eles também cresceram em realidades que nem sempre foram favoráveis ou que os fizeram bem e foi exatamente por isso, também, que cresceram das suas próprias maneiras. 

Apesar de ter o seu próprio universo particular exagerado, de forma literal, no formato de uma peça de teatro que conta momentos de sua própria vida, Lexi é tão vulnerável e suscetível como toda a plateia assistindo ao seu show. Em sua boa parte os próprios adolescentes do colégio, incluindo aqueles que estavam sendo retratados no recorte de sua perspectiva. Ela é o exemplo que o maniqueísmo sobre as pessoas existe e não existe em nossas cabeças, pois ao mesmo tempo que condenamos alguém porque nos fez sentir mal, em outros momentos entendemos de onde aquilo veio e automaticamente nos compadecemos (ainda que nem sempre).