CONTÉM SPOILER DE LOKI 

Loki é uma grata surpresa no Universo Marvel. Diante do bom mas não tão envolvente Viúva Negra, a Marvel trazia no Disney Plus até agora suas minisséries que mostraram promissoras. De um lado, Falcão e o Soldado Invernal com uma ótima ação e enredo pé no chão parecendo muito com o segundo longa do Capitão América; do outro, WandaVision com bem menos sacadas misteriosas do que aparenta, contudo oferecendo uma experiência única e emocional da personagem de Olsen e Bettany.

Em Loki, diferente das anteriores, sobrava hype. As pessoas realmente estavam empolgadas em ver uma série do vilão favorito da produtora. Ela veio e não só trouxe um Loki, mas vários. Realmente, não teria jeito mais perfeito de apresentar os conceitos de multiverso e variantes se não com o Deus da Mentira. 

O título que dei minhas ponderações sobre WV era a Marvel prepara a lasanha e entrega o feijão com arroz — de fato, a série promete algo que não cumpre. Meu medo em Loki era isso se repetir. Porém, o que há é uma grata surpresa: temos uma incrível lasanha! Cheia de camadas, com um belo cheiro e que agrada os mais variados gostos. Isso era o que esperávamos da Marvel: ela sair da própria fórmula. Ela vinha mostrando que tem potencial para isso, até Loki vim e concretizar de vez. A Marvel é uma produtora que sabe se reinventar. 

Os episódios se desenvolvem de formas diferentes e quando parecem está apenas no processo de encher linguiça, na verdade percebemos futuramente que os personagens ali estão por motivos e que isso importa no enredo proposto. O linear da série pode chegar perto de beirar o monótono nos primeiros passos, porém logo o carisma do personagem de Tom Hiddleston casado com o novo modo de enxergá-lo toma conta e muda direciona nossos olhares. O que de fato tem de incrível nesses novos espectros de apresentação, é a Marvel mostrando as novas configurações atribuídas à personagens que antes tinham uma estrutura regular a um único método. Isso significa que a essência era quase a mesma (girando em torno de Vingadores de 2012) sendo distribuída para todas os gêneros e formatos que a produtora fazia desde então.

Como nanquim caindo em água potável, as cores, formas e preceitos se tornam outros — a entropia faz seu papel. Certo de está em um novo nível, não é mais possível ver tão claramente o antigo método, talvez apenas o esqueleto. Após um período longo assim (mais de dez anos) e diante de diversas cobranças, fãs e públicos em geral viram a famosa fórmula Marvel mudar de elemento básico.

O grosso ainda está ali, contudo o que flui em volta, as partículas que formam tempestades, já não são mais as mesmas. E isso é realmente o que há de entusiasmante, pois não foi preciso crise ou tribulação institucional para gerar essa mobilidade. Se antes tínhamos o amedrontamento de uma possível acinesia do conjunto fisiológico Marvel, hoje, podemos respirar aliviados. A Marvel entende que melhora se vem com modificação

Loki é a prova viva — ou não — disso. Das não mortes ou quase isso do Deus da Mentira, a mais brutal de todas foi nas mãos de Thanos. Ao seu eu do passado que viu isso e se horrorizou na sala da AVT, vai descobrir mais tarde que não passou de manipulação. Um Kang manteve nos eixos (dele) o universo da Marvel até agora. Quando que imaginávamos isso — eu digo isso — na Marvel? Pois é, acompanhar para sabermos o que nos espera com essa nova amálgama criativa.

Esquadrão DC


James Gunn indo para DC foi algo bem impensável. Um baque na indústria. Mas ao sabermos que Gunn ia assumir o até então desastroso projeto do Esquadrão Suicida foi um baque ainda maior. Que roubada Gunn foi se meter — pensei. Mais ou menos cinco anos depois, após uma pandemia viral, a versão do diretor americano vem aos cinemas. Quebrou todas as expectativas possíveis e com nada mais nada menos que 96% de aprovação no Rotten estreiou nos cinemas americanos em conjunto com a HBO Max no dia 5 de agosto. 


Esquadrão Suicida é o maior símbolo dessa novo formato especializado em não ter formato fixo da DC nos cinemas. Eles admitiram que o SnyderVerse não é e nem será o único foco das produções do seu universo. Acolheram então a ideia de haver, sim, ligações mas que essas não limitem os diretores e nem as histórias que eles querem contar. Com isso, fundou-se algumas linhas de um mesmo universo, com alguns traços coligados e outros nem tanto. 


Justiça seja feita: Logan foi o primeiro (grande) sucesso a vim com essa lógica de aproveitar uma história particular em um universo já conhecido. O longa primogênito dessa nova geração a se mostrar promissor nesse formato foi Coringa de Todd Phillips que usou de um roteiro repleto de camadas ligadas à criticas sociais, politicas e filosóficas. O filme do vilão disse tchau ao SnyderVerse, mas, ainda sim, sem esquecer o contexto que o compõe. Ele continua um filme do universo do Batman, está em Gotham, ele só não precisa justificar fatos e acontecimentos os ligando com outras obras.


A partir disso também ficou claro que os gêneros e outras características do filme não deveriam ser casadas entre si. O clima deveria ser cada um com seu cada qual. O sombrio pode sim funcionar, porém o alegre aventureiro também pode. Shazam tem traços assim. Apesar de ser do SnyderVerse, ele tem características mais próprias de roteiro e execução. Mulher-Maravilha foi bem executado com os moldes criados por Snyder, todavia não se manteve atrativo e nem soube inovar com sua sequência, se tornando um longa sofrido e confuso (WW84).


O primeiro Esquadrão Suicida (2016) estava nesse limbo de tentar fazer parte de um contexto e de uma fórmula, ao mesmo tempo que tinha que executar uma personalidade inerente a ele. O resultado já é conhecido. Penso que a forma mais nítida de nós enxergamos esse tipo de mistura que raramente fica homogênea é o acontecido vivido em 2018: Liga da Justiça de Zack Whedon foi uma blasfêmia. Já comentei quando saiu o SnyderCut em um texto por aqui. Mas na ocasião, é marcante as duas formas mais que explicitas de desenvolver linhas narrativas e suas características quase que antagonistas.


A obra de James Gunn é um mix uniforme que traz tensão, amores, heroísmo, egoísmo e um desenvolvimento de personagem sem forçar o tempo de tela e nem a trama. Talvez não esperávamos exatamente isso da DC nos cinemas. Na época, com nossas limitações,  gostaríamos de algo interconectado como a Marvel fazia desde então. Hoje, vemos que na realidade o que nos aguardava era uma pluralidade de estilos, gêneros e propriedades.  

Heróis (e vilões) nesse século 


A série dos X-Men foi o pontapé para isso que vemos hoje no cinema e no streaming. Todas as reviravoltas nas obras produzidas pela Fox foram, de certo ponto, necessárias para termos esse deslumbre de variedades de propostas. O jeito Fox de fazer cinema de quadrinhos foi engolido pela Disney em março de 2019, e isso se tornou um ato simbólico, algo como uma antropofagia. A potência continua lá e em breve podemos vê-la de outras maneiras.


Antropofagia também é a palavra para o processo que está acontecendo na WB. The Batman (2022) de Matt Reeves que está com estreia prevista para março de 2022 é um exemplo disso. Depois de alguns grandes fracassos, a Warner parece ter entendido que deveriam somar visões para as suas figuras, uma vez que não surgiu um Kevin Feige nos escritórios do estúdio. As primeiras impressões para o público fechado mostram um longa com aspectos de terror, incrivelmente sombrio e com um protagonista cheio de camadas.


 Os dois próximos longas da Marvel também refletem bem essas mudanças. Shang Chi é a aposta oriental da produtora nos cinemas de herói. E podemos comparar com o último longa de origem, Capitã Marvel, que ainda estava nessa bolha de criação. Shang Chi tem sua própria engrenagem de funcionamento, reciclando pouco dos outros filmes lançados; diferentemente da história da Capitã que se apropria de vários conceitos, mixando de forma pouco original, da forma que não traz nada novo para aquele universo. Eternos promete ser o primeiro longa épico do MCU. Apesar de Vingadores terem o aparato para oferecer isso, nunca foi sua proposta. A Marvel admite brincar com conceitos mais sérios e de um nível de poder divino, por assim dizer — inédito até então.


Fato que estamos no início de uma nova era. Se antes buscávamos algo específico nos cinemas e, após um período, levávamos para casa em formato de DVD, hoje esperamos que cheguem até nossas residências, concorrendo entre si quem vai oferecer mais por um preço menor. Os executivos da Marvel Studios parecem ter entendido bem o que os levaram até ali e que para chegar mais longe, precisavam arriscar e construir novos horizontes; a mais um exemplo com What If? — que incrível esse formato, poderia assistir dez temporadas fácil. A DC/WB vem cumprindo esse papel, apesar da maneira mais lenta; o exemplo foi o primeiro fruto promissor nas séries da CW: Superman & Louis


Apesar de agradar um amplo público, uma parte achava incompatível como alguns personagens e suas respectivas histórias foram resumidas a episódios simples e até bobos no MCU. O modo Marvel de fazer cinema de herói deixava tudo homogêneo e opaco, fazendo brilhar menos alguns conceitos que deveriam ter uma atenção especial. Por outro lado, a desorganização da DC fez a produtora não criar conceito algum — só ir na onda de um único diretor. Ao que parece, estamos deixando de lado esses paradigmas. Tudo isso nos leva ao que podemos chamar de uma nova era dos heróis no cinema. Só não podemos afirmar que a era de ouro já passou ou ainda estar por vir.