Existem muitas avaliações erradas sobre o papel do crítico e o que é a crítica em si. O primeiro passo para resolver isso, é entender que um filme pode ser blockbuster, pipoca, descompromissado, cult e não há nada de errado nisso. 

Temos que entender que o cinema é feito de diversidade de estilos, gêneros e de intenções. 

O papel do crítico é até superestimado, porque na verdade, avaliar um filme com uma nota seca, fria, parece errado. No entanto, o que acontece hoje em dia, e é algo que posso falar muito bem, por estar no meio dessa galera que faz o mundo da crítica girar (eu estudo Cinema); é uma ideia errada sobre o papel real de alguém que tem embasamento/estudo sobre a história do Cinema, quando vai falar, escrever ou debater sobre a obra. 

Por exemplo, eu, enquanto defensor dos filmes de super-heróis, e estudante de cinema, sei muito bem diferenciar um filme dos Vingadores, Joss Whedon (maravilhoso, rs) e um Roma, de Alfonso Quáron. 

A ideia aqui é enfatizar que filmes diferentes possuem intenções diferentes, e o cinema é isso. Sempre foi. O fato do cinema ser a sétima arte, cria uma atmosfera chata demais em contextos que as pessoas não conseguem entender que um filme de comédia besteirol, também é arte. Há muito estudo, fórmula, uma linguagem própria para o estilo. Ser descompromissado e leve é a sua essência, e não é simples conseguir isso. Se sua intenção não é ser complexo, reflexivo e um primor que evolui a linguagem cinematográfica, não temos motivos para avaliá-lo como se ele quisesse ser e fracassasse.

Para avaliar um filme é preciso antes de tudo, saber o que o filme quer. Isso demanda uma reflexão, e claro, nem todos os filmes sabem o que querem. Mais um exemplo. Vamos pegar um filme qualquer do Adam Sandler, que sofre muito com "críticos" que esperam um filme denso e complexo. Usei as aspas por puro sarcasmo

Em sua maioria, os filmes dele têm a pura intenção de serem divertidos, com momentos bonitinhos, momentos de duplo sentido e uma mensagem positiva no final. Dito isso, se formos fazer uma crítica sobre esse tal filme, qual fator usaremos para avaliá-lo? A resposta correta é muito simples. Antes de tudo, lembramos que o filme é uma comédia. Com isso, iremos começar pelo seu gênero. Ele cumpre o seu papel no gênero? Ele faz rir? E não digo literalmente, você enquanto cidadão crítico.

Outro fator que temos que usar, é a sua abrangência. Lembre-se que o seu senso de humor, não é o padrão. Algumas pessoas irão rir de coisas que você nem vai entender. Não é uma tarefa simples. Você tem que dar o braço a torcer, e pensar: "Ok, todo mundo deve ter gargalhado nessa parte. Realmente é algo engraçado, apesar de não funcionar comigo. Então eu diria que ele atingiu grande parte da sua meta. Eu entendo que é uma parte engraçada, apesar de não ser tão engraçado assim para mim" . Não pense que isso é fácil. Você pode até pensar que esse argumento pode servir de "desculpinha" para tudo., mas não. Algumas piadas realmente não funcionam e ponto final. 

A coesão também é algo determinante em uma crítica. Geralmente os filmes devem ter uma intenção do começo ao fim. Uma unidade muito bem desenhada do que ele quer. Muitos filmes se perdem no caminho. Alguns, de tanto quererem ser uma "obra de arte", acabam esquecendo de contar uma história. O filme vira apenas uma série de quebra-cabeças muito bem encaixados, mas que não formam desenho algum. A coesão é essa junção de história e forma. A forma (entenda como direção, fotografia, som, e qualquer outro detalhe técnico), deve estar atrelada a história (roteiro).

O roteiro também deve ser coeso. Unitário. Sólido. Um mapa das tramas. A jornada do protagonista, dos coadjuvantes, dos antagonistas e todas as outras peças devem se encaixar de forma orgânica. Deve ser crível mesmo diante de uma realidade surreal. O cinema faz isso desde 1902, quando Georges Méliès dava ao mundo o filme "Viagem à Lua".  

Entenda que um filme pode também ser muito bom em sua forma e em sua história, mas pecar em como esses dois pilares se conectam. Por exemplo, Edward Mãos de Tesoura (1990) é um clássico de Tim Burton, e o diretor por si só, tem uma marca muito própria e inconfundível. O filme funciona com esses dois pilares intimamente atrelados.

Agora pense se este mesmo roteiro, com os mesmos atores, logo, o mesmo filme, fosse dirigido por outro diretor, tão bom e marcante quanto Burton, mas diferente no estilo e em importância para a história do cinema, por exemplo, Hitchcock. A história seria a mesma, indiscutivelmente ótima, mas a forma teria mudado. Isso alteraria completamente a coesão entre História e Forma. E com certeza teríamos um filme que poderia até ser muito bom, mas não tanto quanto o de Tim Burton. Com isso, quero chegar a conclusão que essa coesão, quando muito bem unida, gera algo insubstituível. Ele vira uma unidade inseparável, da qual não conseguimos imaginá-lo de outra forma. 

Em breve, falarei sobre a crítica de séries. 

Escrever uma crítica é por si só uma autobiografia. Nela, colocamos a nossa visão de mundo e nossa bagagem. Toda a nossa vivência altera o rumo de uma análise, por isso, cada crítica, cada detalhe notado é algo intimamente revelador sobre nós mesmos. Em cada frase, colocamos e exaltamos os momentos em que fomos alimentados do que queríamos e das nossas frustrações quando não fomos correspondidos. Não há nada certo ou errado. Existe apenas o ser. O filme é uma obra viva que transmuta e nos invade e dialoga com a parte mais profunda do que somos. Por isso, quando uma análise é muito negativa sobre algo, podemos ter a certeza que algo dentro de nós não está bem resolvido, ou que ainda falta algo para compreendermos o outro. Uma realidade diferente da nossa. Os desejos alheios que não nos sacia. Por isso, cada crítica é um peso. Uma responsabilidade tamanha que só serve de consolo a nós mesmos.

 - Ramon Ferrary