Estamos em uma ótima era para as animações instigadoras, inventivas e afrontosas, como é o caso de Rick e Morty, Gravity Falls e o nosso foco aqui, BoJack Horseman. Essas três animações carregam um senso de comunidade cada vez mais presente entre aqueles que as assistem, no entanto, BoJack faz uma espécie de imersão em uma dimensão que foge as loucuras e abstrações do tempo, espaço e/ou a ciência em geral. Em BoJack nossa imersão se dá pela sensibilidade do vazio de ser. 

Acompanhamos um personagem narcisista preenchido pela sua própria visão fechada de mundo. BoJack divide o universo com humanos e outros animais antropomorfizados e todas as relações de troca são pautadas por criticas sociais e noções fortes de filosofia, consumismo e o existencialismo. A história contada sabe do potencial que esses temas e conceitos carregam, e parece muito segura na escolha de utilizar animais para levar essa trama; como uma forma de jogar na nossa cara o quanto tudo pode ser uma grande metáfora, o que dá grande parte da substância da série. Outro fator interessante, é que todos os temas são inegavelmente humanos. Família, ansiedade, carinho, arrependimento, etc; Tudo isso nos aproxima daquele universo de uma forma muito mais pura, genuinamente simples. 

É incrivelmente cativante pensar que aqueles personagens, mesmo que indiretamente, amam contar histórias, e que essas histórias são como as histórias que contamos para nossos amigos, família, enfim, e que também são histórias que as pessoas por trás da história, da animação, querem contar. 

Na primeira temporada, BoJack quer emplacar um novo programa, e Daiane, outra personagem do núcleo principal, aparece querendo escrever a biografia de BoJack. A mesma Daiane que mais tarde, na quarta temporada, faz parte de um site de futilidades e se frusta por não conseguir contar as história que gostaria. Princesa Carolynn, gerente de BoJack, é outra personagem que vive procurando boas histórias para contar, e ela faz isso também como profissão. Boas histórias para virarem bons filmes ou não. Um dos episódios mais tocantes da primeira temporada é protagonizado pela Princesa, que se vê na dura briga com o destino na tentativa de engravidar e dar sequência a seu legado e a sua família. Durante toda a temporada, ele passou por esses problemas de não conseguir engravidar, e depois temos um episódio que começa com a tataraneta da Princesa Carolynn, no futuro, contando para a turma um dia na vida dos tataravós. Ao longo do episódio, percebemos que o dia de Carolynn não vai tão bem assim, e ela termina contando para Bojack que quando passa por dias difíceis, ela imagina sua tataraneta contando para a turma como tudo deu certo no final, e aquilo a tranquiliza. É só uma invenção, mas é uma forma dela se sentir melhor sobre uma projeção de futuro.

Percebeu quantas camadas de história já citei? São personagens inspirando outros personagens dentro de histórias que inspiram pessoas e isso nos faz refletir sobre o motivo de contarmos tantas histórias e qual a importância delas para nós. Inventadas ou não, todas as nossas histórias são muito reais, principalmente nossas ficções. Para essas histórias, nada de mirabolante ou sensacional. O sensorial é puro, é simples, é poético. É como olhar as estrelas e refletir sobre as fábulas que criamos, e ainda assim, acreditarmos em sua realidade. É genuíno, como o ato de olhar para o céu. 

Na contramão dessa pureza, um movimento na internet quebra com essa sensibilidade e irrita na sua tentativa de tentar encontrar uma razão, explicação e argumento quase que científico para cada escolha das ações dos personagens. Essa tendência de conteúdo tentando desvendar uma teoria e filosofia sobre tal coisa, nos tira dessa atmosfera leve do sonhar. Rick e Morty é a série que mais sofre com isso. O público fiel, "fãs" parecem querer se enaltecer como aqueles que são mais inteligentes do que os outros públicos, e que são inteligentes demais para gostarem dessa pureza, que é simples e bonita e está presente em diversos momentos na série, que particularmente, gosto muito. A questão não é que não se deve pensar em teorias ou filosofias sobre as animações, como é o caso de Rick e Morty. Pelo contrário, isso é um agregador de camadas para as tramas. O problema é quando essas reflexões se tornam mecânicas, técnicas demais, perdendo a capacidade de observar e entender a sensibilidade pura das coisas. 

Essa necessidade de reafirmar que essas séries - BoJack Horseman e Rick e Morty - dialogam sobre o quão vazia e insignificante a vida pode ser, acaba ofuscando o valor mais subjetivo e sentimental que elas carregam. Às vezes vale a pena ser um pouco mais sensível.

Em BoJack Horseman, os momentos mais climáticos são simples, carinhosos e humanos e essa centralização de teorias parece nociva e contraditória por tentar dar um grande sentido para tramas queque seguidamente reafirmam o quanto aquele episódio não teve um grande propósito ou algo do tipo. Isso acaba limitando essas obras que poderiam transcender as mídias ao retocar que a vida não tem exatamente um ponto final. BoJack chega a falar na primeira temporada que: fechamentos são coisas inventadas por Spielberg para vender ingressos; e vários episódios termina com uma ponta solta; assim como é a vida real. 

A ciência e filosofia nessas animações servem muito mais para construir o mundo inconfundível de cada série, do que para propriamente justificar realisticamente esse mundo, até porque ambas as séries abraçam o absurdo, que sempre foi o pilar fundamental das animações desde a parte física até a narrativa; Como Toddy fazer parte da vida de Bojack por ter dormido no sofá dele e nunca mais ter saído de lá, até o Rick se transformando em um picles. Ser lógico demais é até uma espécie de limitação, já que o limite por trás de cada uma dessas pessoas por trás das animações sempre vai ser a imaginação.Todos são, no final das contas, apaixonados por contar histórias.

Os desenhos antigos não eram menos inteligentes, e imagine só a quantidade de vídeos desvendando as teorias e filosofias de Coragem - O cão covarde, se a animação tivesse saído por agora.  

Um outro ponto em comum de BoJack e Rick e Morty, é o fato dos protagonistas serem viciados em álcool e drogas, acentuando ainda mais o contraste que esse caos constante dos personagens cria com os poucos - mas importantes -, momentos de serenidade que permeia as obras. Para boa parte do público, isso serve como prova do quanto essas obras são adultas e maduras, e por esse motivo não precisam se envergonhar de assistí-las. Esse é contraponto com os super-heróis. Diversos autores criticam esse senso de realismo para os heróis. Sendo que o absurdo e o puro sempre fez parte de suas origens. O foco dos super-heróis não é exatidão científica de seus poderes e afins, o foco é a pureza e a mensagem. Heróis sempre existiram para inspirar com suas histórias. O realismo sempre irá trazer uma imensidão de questionamentos e filosofias sobre o absurdo que sempre foi o coração do gênero.

Contamos histórias porque elas nos inspiram simplesmente por serem divertidas e bonitas demais para deixar passar. O realismo e todo o teor adulto agrega algumas camadas para essas histórias, mas no fim, o que realmente nos toca está na sutileza e no coração desses personagens. Somos por essência, contadores natos de histórias, e sejam elas reais, ficcionais ou devaneios, são puras, genuínas, belas. São histórias do nosso tempo, do nosso mundo. É um fragmento do que somos e do que podemos ser. 

Inspire!