Criada pelo mesmo estúdio responsável por Bojack Horseman, Tuca e Bertie traz o mesmo humor ácido para satirizar as situações do mundo adulto de uma forma divertida e que faz pensar. Tratando também dos traumas mais escondidos da nossa essência, o programa usa o método de animação para se libertar de possíveis amarras na trama. É só olhar para o traço da animação para perceber que ela mantém o mesmo estilo de Bojack, no entanto, mantendo ainda mais o perfil cômico que vem das dubladoras principais, Tiffany Haddish e Ali Wong.

A série é sobre a amizade entre duas mulheres-pássaro por volta dos 30 anos de idade que moram no mesmo prédio. Enquanto Tuca é uma tucano convencida e despreocupada no geral, Bertie é uma ave canora bastante ansiosa e sonhadora. Para completar, Bertie decide morar com o namorado Spercle, e parece não estar cem por cento decidida sobre a mudança em sua vida.

Assim como Bojack, o humor é bem ácido e crítico, e explora a sexualidade, o trabalho, a vida em sociedade, as responsabilidades de ser um adulto e principalmente a depressão. Os sentimentos ou a falta deles é o alicerce para os acontecimentos da trama e a cada episódio vai se construindo uma trajetória muito divertida e interessante que chega no ápice da seriedade emocional da qual trata. O mais legal de notar é como o estúdio trabalha bem essas tramas super dramáticas e cômicas ao mesmo tempo. E como é possível criar tantas analogias aos humanos e apresentar o nosso lado mais cruel enquanto espécie.

Tuca e Bertie não tem nenhuma intenção de manter os pés no chão, e ao contrário de Bojack, abandona completamente o senso de realidade criando um universo totalmente insano, digno de elogios do Rick, de Rick and Morty.

A quebra da continuidade, o desprezo de regras físicas deixa a série muito rica enquanto construção de universo. Uma prova disso é como os episódios se ligam sem se ligarem completamente. A história anda, o arco evolui, mas os episódios são desgarrados de uma obrigatoriedade de continuar exatamente de onde o anterior parou. 

A simplicidade do cenário - comparado ao de Bojack - é muito coerente com a ideia da série de se desligar dessa realidade do nosso mundo, e sua intenção de falar de coisas mais corriqueiras, fora de Hollywood. As personagens principais são uma auxiliar de administração aspirante a confeiteira e uma total desempregada que só gosta de curtir o mundo sem preocupações. Esse retrato de um mundo mais "normal" ajuda na história quando tenta fazer um recorte da humanidade e os seus erros, o que faz com maestria.

O surrealismo despretensioso é o coração da série que abraça em alguns episódios, diversos estilos de animação e doideiras cada vez mais doidas, com muito sexo, nudez, e gargalhadas. Sem deixar de fora, é claro, uma boa dose de sentimentalismo forte e assuntos polêmicos, como o estupro. É forte como a série se sustenta com duas mulheres totalmente diferentes que não têm que seguir o esteriótipo de mulher forte o tempo inteiro. São mulheres. São comuns. Acertam e erram. 

Para quem curte o gênero, é uma boa pedida. Garanto que é diferente do que estão acostumados a ver, e dá uma sensação bem libertadora de conforto com uma pintada de estranheza ao vislumbrar esse universo maluco e libidinoso dos pássaros.

Alerta: Sua imagem fofa dos pássaros pode ser corrompida.