play_arrow
Assista ao trailer: ISLE OF DOGS Trailer Português LEGENDADO Filme (2018) Wes Anderson
videocam

Atari Kobayashi é um garoto japonês de 12 anos de idade. Ele mora na cidade de Megasaki, sob tutela do corrupto prefeito Kobayashi. O político aprova uma nova lei que proíbe os cachorros de morarem no local, fazendo com que todos os animais sejam enviados a uma ilha vizinha repleta de lixo. Mas o pequeno Atari não aceita se separar do cachorro Spots. Ele rouba um jato em miniatura e parte em busca de seu fiel amigo. A aventura vai transformar completamente a vida da cidade.

Wes Anderson volta para a animação e, mais do que nunca, mergulha na sentimentalidade repleta de analogias usando os animais para tal. Divertido, provocador, emotivo e crítico. Isle of Dogs é um dos filmes mas humanos dentro os filmes de animação, e destaca o melhor amigo do homem, o cão.

“Whatever happened to man’s best friend?” (O que aconteceu com o melhor amigo do homem?)

Para qualquer apaixonado pelos trabalhos de Wes Anderson, assim como eu, não é novidade saber que os animais são uma presença obrigatória. Lá em 2009, com o maravilhoso Fantástico Senhor Raposo, pudemos acompanhar a história de uma família de raposas em um filme também repleto de sentimentalidade a metáforas ao modo de agir, cada vez mais animalesco, dos humanos. Wes tem marcas próprias que estão presentes em seus Live-Action e suas animações, e por isso, não ache estranho se ao pronunciar Isle Of Dogs repetidamente em voz alta, começar a ouvir uma espécie de I love Dogs. É intencional. Esse é Wes Anderson.

Nos últimos anos, Wes tem tratado de temas leves muito próximos de sua estética, ou seja, por exemplo, ele abordou a vaidade o luxo de modo vaidoso e luxuoso em O Grande Hotel Budapeste (2013); a ingenuidade infantil de maneira ingênua em Moonrise Kingdom (2012). São escolhas coerentes e instigantes, e reforçam as características, os padrões do diretor, que tem em seu método de direção, recursos "obrigatórios". Sua mise en scène, ou seja, a composição do quadro, a disposição de como vemos na tela, segue uma mesma linha em todos os seus filmes. Temos sempre planos equilibrados, simétricos, com paletas de cores diferenciadas e coloridas, movimentos de planos que quebram a invisibilidade dos cortes, e muito mais. Agora, confrontando um tema pesado como a ditadura, os campos de concentração e a pseudociência a serviço dos tiranos, seus traços autorais encontram-se em um choque, uma fricção que parece elevar o interesse pelo filme.

Mas agora, vamos olhar para a história.

Estamos em um futuro indeterminado e distópico, onde uma praga de gripe canina afeta a cidade japonesa de Megasaki, levando a que o presidente Kobayashi exile toda a população canina da cidade para Trash Island (Ilha do Lixo). Literalmente, uma ilha cheia de lixo. Como gesto simbólico, o primeiro cão a ser exilado é Spots, que pertence a Atari, o tutelado de 12 anos do presidente.

Apesar da maioria da população de Megasaki se adaptar rapidamente a esta nova sociedade livre das companhias caninas, o jovem Atari se recusa a aceitar a perder seu fiel amigo. Assim, em um estilo típico do Wes, e desta vez inspirado em Antoine de Saint-Exupery, o pequeno piloto parte à procura de Spots.

Ao chegar na Trash Island, um grupo de cães-alfa ajudam Atari, e logo início, recebemos o aviso de diferentão sem sentimentos, Chief (Bryan Cranston): Eu mordo.

Logo se nota que assim como os outros filmes de Wes, Isle Of Dogs não foi feito para crianças. Na primeira briga de cães uma olheira já salta para longe de seu dono. É um filme apesar de tudo, violento. No entanto, o filme também tem a capacidade de brincar com essa violência. Todas as lutas são acompanhadas por uma poeira rodopiante que envolve os personagens enquanto ocasionalmente se destaca um braço ou uma pata, referenciando ao estilo clássico das animações de Tex Avery. Além disso, o humor negro envolvente transforma todos os momentos mais cruéis em sentimentais.

Claro, se Wes já é um ótimo realizador capaz de brincar com os planos com tudo o que lhe é direito, não é estranho pensar que em uma animação tudo o que seria impossível, se torna possível. A imaginação é algo forte e enriquecedor.

Outra característica típica de Wes é o uso de uma narrador, e este, muitas vezes conta a história quando o diálogo não permite. Uma decisão interessante foi a de deixar os personagens japoneses falarem em sua língua nativa, o japonês, claro. Com isso, compreendemos desses diálogos apenas as situações, dando uma outra sensação para nós, enquanto assistimos. Por outro lado, todos os “latidos” foram “traduzidos”. Ou seja, compreendemos o que os cães dizem, não os humanos. Estranho? Sim! Maravilhoso? Maravilhoso!

Wes investe em uma animação pouco usual atualmente, com códigos de linguagem fora de época, como as conversas com ambos os personagens olhando para a câmera, em profundidades diferentes, o que remete aos dramas clássicos de Hollywood entre 1940 e 1950. Ele explora também os gêneros subexplorados hoje, como o faroeste e a cultura japonesa - Saudades Ozu - e com isso, repensa feridas abertas da história mundial do século XX e suas consequências no século XXI, com um pouco de flores pelo caminho.

Aqui temos um filme que tenta humanizar os vilões e construir mulheres de atitude, além de incluir acenos à situação dos imigrantes e refugiados. Parece atual? Exatamente. É de aplaudir de pé como apesar de um delírio cômico, o filme não desgruda da sua principal referência, a realidade.

Este filme é a oitava colaboração de Wes Anderson com Bill Murray, e é o nono filme de Wes Anderson, sendo o segundo em stop-motion. O diretor fez uma competição para eleger um dublador que integrasse o elenco. A única exigência para participar era doar 10 dólares, ou mais, para a Film Foundation, uma organização sem fins lucrativos fundada por Martin Scorsese. Entre os dubladores estão: Bryan Cranston, Frances McDormand, Edward norton, Live Schreiber, Greta Gerwig, F. Murray Abrahan, Scarlett Johansson, Jeff Goldblum, Bill Murray, Tilda Swinton e mais.

O filme chega aos cinemas no dia 19 de julho.