Andy Serkis já é um nome de peso em Hollywood no quesito atuação, no entanto, quando se trata de captura de movimentos, Andy é uma entidade amada e merecidamente vem conquistando espaço no meio cinematográfico. O eterno Gollum, Cesar, Smaug, - entre outros personagens - é o protagonista de uma revolução no cinema. Ano após ano a nossa tecnologia se aprimora, e lá está Serkis para usá-la em prol de um renascimento da sétima arte. Está claro que o CGI já está entranhado nas artérias do cinema, e uma das previsões mais assertivas, mostram que o Motion Capture, a captura de movimentos, será - se já não é - a maior tendência para os próximos anos.

É importante contextualizar a missão de vida de Andy para que possamos entender o que ele pretende com o cinema. O ator e diretor está desde o início alinhado e por dentro dessa construção de meios para tornar a captura de movimentos uma experiência mais acessível, fácil e enriquecedora para as produções. A construção de Gollum, de Senhor dos Anéis, teve seus dedos ali no meio, e uma de suas ambições é tornar esse método tão realista a ponto de se confundir 100% com o live action. Ainda não chegamos nesse ponto, mas não deve demorar 10 anos para que estejamos lá. 

Agora vamos falar de Mogli.

Antes de mais nada, é muito claro que o longa não pretende ser infantil em nenhum momento. Como o próprio diretor, Andy, diz em diversas entrevistas, a abordagem aqui é mais sombria, dramática e realista; pés no chão, onde cada ato tem uma consequência cruel e bruta, como é o mundo, e principalmente a natureza. Apesar dos primeiros trinta minutos serem mais leves, durante a jornada de Mogli, a trama começa a abordar temas mais densos e maduros, como a caça predatória do homem contra a natureza e como disse ali em cima, as brutalidades do sistema da selva. 

Andy tem uma visão muito sincera sobre o mundo, e mergulha por completo nas histórias em que dirige. Por não ser uma trama infantil, o filme explora a ação violenta entre os animais, e trata esse regime natural das leis da selva, como uma analogia a própria humanidade, claro, e com isso, revela as falhas de uma visão fechada sobre como viver em comunidade. Além disso, em toda decisão drástica tomada no longa, há sempre um teor sentimental simples, puro e tão forte, que rompe uma barreira sensorial de memória que temos por conhecer a história de Mogli. Andy consegue passar dessas lembranças, e envolve o espectador em sua atmosfera surreal. 

Para ajudar a enriquecer a trama e o trabalho de direção, o elenco tem grande responsabilidade nessa conquista. Benedict Cumberbatch, Cate Blanchett, Christian Bale, Matthew Rhys, Naomi Harris, Freida Pinto e Jack Reynor tomam posse de seus personagens e com a ajuda e orientação de Andy, entregam um conjunto de dublagem e atuação corporal de impor um grande respeito. Diferente da maioria de Motion Capture, onde os atores emprestam apenas suas vozes, aqui tivemos uma atuação real e era possível ver no resultado final o quanto dos atores havia em cada personagem animal na tela. Seus traços humanos foram transportados para os animais, num misto de realidade e fantasia incrivelmente balanceado. 

Ainda tratando sobre a carga sombria do filme, temos os animais que carregam em si as marcas de uma vida de lutas diárias pela sobrevivência. Aqui, não é um "musical da Disney", é a vida real de animais que sofreram para chegar no estágio de liberdade onde estavam. O próprio Shere Kan, vilão do filme, carrega vestígios psicológicos e físicos de uma vida inteira marcada por uma guerra natural contra a humanidade. No fundo, é isso que torna esse longa uma versão diferente da que conhecemos. O final então, emblemático e surpreendente, evidencia a rigidez das leis da natureza, que apesar de tudo, parecem imutáveis. E no meio daqueles conflitos, daqueles dois mundos, Mogli, uma criança em conflito consigo mesmo, pode ser a ponte para o equilíbrio que a selva sempre procurou. 

O longa já está disponível na Netflix. Bora Assistir?