A iniciativa da Disney  em fazer o reboot de seus filmes clássicos tem gerado grande controvérsia entre fãs e a crítica. Pois, trazer de volta os grandes sucessos do passado é mais uma maneira do estúdio ganhar muito dinheiro, ao mesmo tempo que tem a possibilidade de marcar outra nova geração com esses longas.

Considerado por muitos o melhor filme do estúdio, quando foi anunciado que O Rei Leão (à propósito, meu filme favorito no mundo) iria ganhar sua própria versão "live action", todo mundo enlouqueceu. Mesmo quem não gosta da animação ficou no mínimo curioso para saber como os animais seriam adaptados sem parecer um documentário do Animal Planet.

A responsabilidade para levar uma versão mais real dos personagens às telonas foi de Jon Favreau (Mogli). Sua missão impossível caso ele decidisse aceitar seria pegar personagens icônicos da Cultura Pop para fazer deles seres com vida, que falem, atuem e sintam das formas mais verocímias  possíveis. Além de conseguir encaixar novos elementos que justificassem rebootar um filme que tem pouco mais de 25 anos de existência. Infelizmente, não foi dessa vez!

Não leve a mal; o filme é bom! Não obstante, seu grande problema é a falta de novidades. Um de seus vários defeitos é que ele possui o esqueleto da animação, ou seja é igual, só que numa versão mais realista e menos impactante.

Claro que querer que seja tão bom quanto o original é muita audácia. No entanto, é triste que eles não tenham aproveitado os livros e desenhos oriundos da trama principal para compor elementos originais e que explicassem brechas deixadas pela própria animação. Portanto, o roteiro de  Jeff Nathanson é pobre, previsível e não acrescenta em nada no universo do rei da savana.

Outro ponto negativo é a montagem e ritmo do longa. Demasiadamente precipitado e veloz, faz com que os momentos onde é necessário um pouco mais de cautela para vivenciarmos as cenas, simplesmente passem, sem que consigamos nos conectar verdadeiramente com as situações exibidas. Isso ocorre também em virtude da direção! Ora, sabendo do tamanho do projeto, Jon Favreau tentou ser comedido. Mas para mim foi cauteloso. Arriscar seria uma boa opção para tirar a cara de documentário que o longa possui. Especialmente quando ele aplica slow motion nas cenas que os animais estão correndo. Parecia até um filme paralelo de tão desnecessário e massante.

Sobre os personagens, posso dizer que houve uma boa adaptação. O Scar deixou de ser carismático para ser mal e egoísta. Seu número musical é surpreendentemente impecável. "Se preparem" ganhou uma roupagem de discurso de poder, substituindo o tom narcisista e legal que antes possuía.

Rafiki passou a ser um primata inteligente, frente aos demais, que utiliza dialeto africano para se comunicar com os seus "espíritos". É um tom mais adulto, porém ideal para construção do personagem na trama.

Timão e Pumba estão perfeitos! Tão carismáticos e engraçados quanto antes, eles roubam a cena todas as vezes que aparecem. Confesso que esperei a cena clássica da dança ula. Fora isso, impecáveis!

O ponto negativo dos personagens é a absurda falta de expressão. Não sei o motivo, mas Favreau não conseguiu repetir a performance que fez deixou Mogli tão maravilhoso de assistir. Aqui, Simba por exemplo, não me comunicou nada. Se ele está triste, feliz ou com medo, minha impressão foi a mesma face gélida e tímida, algo que me incomodou profundamente. Falta alma nesses animais. Com exceção do Scar, Timão e Pumba, os demais realmente parecem ser apenas computação gráfica.

Sobre a trilha sonora, continuo admirando o trabalho de Hans Zimmer e Elton John. Ainda estão tão lindas e inspiradoras como antes. As novas roupagens formaram um casamento perfeito com o tom do filme, algo que acrescentou muito na minha experiência. A música original cantada por Beyoncé, combina com a cena a qual foi inserida no corte final mesmo não tendo me conquistado tanto assim.

Sem dúvidas, a melhor coisa do longa é a fotografia. Nossa! Realmente parecia que estávamos na savana, na pedra do reino e no cemitério de elefantes. As cores em tons terrosos construíram uma áurea de realidade e beleza únicas, dando o charme que os personagens não conseguiram transmitir. Os efeitos visuais são impecáveis! 

A infância é a fase mais importante das nossas vidas. E, segundo os profissionais de saúde infantil, o caráter e gostos, além da personalidade, são uma construção social iniciada e quase que completa quando somos crianças.

Por isso, ao crescermos e nos depararmos com elementos que estiveram presentes nessa primeira parte da nossa vida nesse planeta azul, sentimos nostalgia e apego com mais facilidade.

O mercado se utiliza dessa nossa pequena "fraqueza" para arrecadar capital. E no cinema não é diferente, bem como em O Rei Leão. Talvez o calcanhar de Aquiles desse filme seja pensar que apenas apelar para a nostalgia seria suficiente para sustentar a trama chata e sonolenta. Obviamente, eles não entenderam o que os fãs gostariam de ver, prometeram muito e mais uma vez entregaram algo abaixo da média, arrasando as expectativas de muitos. Eu inclusa!

No mais, O Rei Leão decepciona por ter tanto potencial e ser tão pouco aproveitado. Para mim, que sou fã, é frustrante duas vezes. Ainda bem que tenho a animação, e que foi ela quem deu o tom da minha infância. Sinto por essa nova geração, cujo leão que lembrarão será esse de 2019. Sendo assim, digo que voltem para 1994 e resgatem a obra prima, inicialmente desacreditada e deixada como plano B, que se transformou no melhor e maior filme da Disney. Sobre essa versão live action ou animação 3D? Certamente esquecerei!