Adaptar qualquer história que envolva o maior detetive do planeta requer um enorme planejamento e atenção aos detalhes. Esse fardo, no melhor significado da palavra, não se ausenta quando se decide tirar os holofotes de Sherlock Holmes e iluminar qualquer outro personagem do seu entorno. É preciso manter aquela sensação de mistérios e reviravoltas, ao mesmo tempo em que se precisa manter um ritmo constante e acelerado, mas que não tropece em si mesmo e acabe se enrolando em um bêco sem saída. 

A Netflix conseguiu trazer uma nova roupagem desse mundo delicioso que circunda Sherlock, paralelamente ao fato de manter essa mística já famosa e que sempre dá certo. 

"Enola Holmes" acerta principalmente pela simplicidade e carisma em que constrói o enredo. Não se engane ao pensar que estamos livres do suspense e toda a confecção de um delicioso caso a ser desvendado. Muito pelo contrário, inclusive. Enquanto se utiliza de uma linguagem simplista ou até mesmo minimalista, o longa consegue honrar o legado de Sherlock, enquanto traz à tona um novo pilar dessa família complexa.

A irmã mais nova, mas não menos intrigante que Sherlock, preenche a tela com maestria e rouba para si, - como é a proposta do filme -, os holofotes que naturalmente tendem a brilhar sobre o maxilar perfeito - e todo o resto -, deste Henry Cavill detetivesco. 

Como já era esperado, a atuação contagiante de Millie Bobby Brown, que também produziu o filme, nos conecta ainda mais rapidamente com a personagem e a história. As escolhas da direção de atores, juntamente com o roteiro e a direção que investem na quebra da quarta parede, acertam em cheio na conexão imediata e com a vontade de descobrir esse mundo e desvendar esse tal mistério. Chaves fundamentais para uma compreensão mais saborosa dessa história de família. 

O que fica evidente com o decorrer do filme e com a presença de Sherlock, é que a química entre Henry Cavill e Millie, rendem os melhores momentos na tela e abrem espaço para uma franquia que pode conquistar um espaço muito grande na Netflix, principalmente neste momento onde cada empresa está construindo seu próprio serviço e pegando de volta os direitos de exibição para si. 

Cá entre nós, apostar em Cavill é uma excelente ideia, não só pelo seu carisma e domínio das cenas onde aparece, mas pela entrega e capacidade de atuação. Isso serve para Millie também, que assim como Henry, se junta para protagonizar outra grande produção do serviço. (Stranger Things e The Witcher).

Como essa é uma crítica rápida e sem spoiler, vou me ater aos detalhes gerais do filme, onde o saldo é positivo. A escolha de ser menos denso que as outras obras de Sherlock Holmes, favoreceu muito à trama, que manteve um tom e ritmo constante e equilibrado. O humor mais leve e "inocente" também chama um novo público, seja ele mais jovem ou sem paciência para mergulhar em um filme super complexo de Holmes. Há poucos momentos em que há uma simplificação demais e o uso de algumas elipses clichês acaba tornando a história e suas derivações um pouco rasas, mas isso condiz com a proposta do filme em ser mais simples.

(As elipses se referem à omissão intencional de códigos e/ou informações facilmente identificáveis pelo contexto, por elementos, códigos ou significados construídos por sucessões de imagens sequenciadas, permitindo que o espectador preencha essas lacunas. Por exemplo, se um personagem está ligando para outro, eu não preciso mostrar a cena onde o outro personagem está ouvindo o telefone tocar, e se dirige até ele, e finalmente atende. Eu posso simplesmente cortar para o diálogo dos dois, e a gente entende que toda essa ação ocorreu, mas não vimos)Toda essa explicação serve para indicar que o filme faz sim, um uso excessivo de elipses, que não são ruins de nenhuma forma, mas que tendem a ter um tom mais de deux ex machina, que é quando aparece uma solução do problema de repente, do nada, sem indicação anterior. Isso é fruto dessa linguagem nova, e o fato de eu ser repetitivo nisto, é prova de que o filme também é.

Mas deixando claro, condiz com a proposta e o tom. No entanto, caso tenhamos uma franquia estrelada por Enola Holmes com algumas aparições de Sherlock, seria de grande valor se em algum momento tivéssemos um mergulho mais profundo nesse universo tão rico e cheio de oportunidades e mistérios.