Desapegar não é uma tarefa nada fácil. Abrir mão dos bens materiais pode ser uma verdadeira tormenta. Já para outros, o difícil é dizer adeus àqueles que tanto marcaram em nossas vidas. E quanto a renunciar à própria casa? Algo mais impensável ainda, certo? Imagine, então, abrir mão de tudo isso ao mesmo tempo?

   Após a Grande Recessão de 2008, Fern, uma mulher na faixa dos 60 anos, se vê completamente desamparada. Mas é a morte do marido o pontapé decisivo para que ela mude radicalmente seu estilo de vida. A protagonista decide investir as economias numa van e faz dela um novo lar. Seu sustento - anteriormente vindo da escola onde trabalhava - agora depende de empregos sazonais como, por exemplo, nas equipes adicionais em campanhas de Natal da Amazon

   Como Fern é uma nômade novata, é inevitável que nos preocupemos com ela. Sabemos de toda sua insegurança, não só financeira, mas diante de um lar tão discrepante do anterior. A van compacta, poucos objetos no geral, o colchão pequeno para acomodar seu corpo. Como agravante, não são todos os locais que permitem com que ela estacione o veículo durante a noite (tampouco o fariam sem cobrar taxa). Tudo isso em meio ao inverno do oeste estadunidense...

   Para completar, a solidão: a sensação de que só pode contar consigo mesma. Frances McDormand traduz perfeitamente uma personagem que, mesmo tímida e no começo da experiência nomadista, se mostra eclética para os trabalhos que lhe são exigidos. Também não lhe falta disposição para socializar, além do gosto por aventura, do prazer pelo desconhecido.

Chloé Zhao, cinegrafista e Frances McDormand

   O roteiro, contudo, não busca romantizar os nômades; não há glorificação dos trabalhos braçais e temporários que são aqui praticados. Mas tampouco há vitimização do grupo, como se os idosos ali precisassem ser salvos. Ainda que cada qual tenha seu motivo para estar ali, uns financeiros e outros puramente aventureiros, há também um prazer naquele estilo de vida. Encontraram ali um senso de comunidade e um palco de auto-conhecimento.

   A fotografia realça esse ponto de vista, optando sempre por uma câmera em movimento e com profundidade de campo, flertando com uma estética documental.

   A carga dramática da premissa também cede o lugar a vários momentos de união e confraternização entre os nômades (o que não faltam são diálogos cômicos e cenas divertidíssimas). São amigos passageiros, de fato; todos pegarão a estrada novamente em algum momento. E é justamente por não haver nada a perder que essas relações atingem tanta profundidade.

   É importante ressaltar, ainda, que a maioria das figuras aqui são idosos recém-aposentados, os quais decepcionaram-se com o sonho americano. Viver de aposentadoria, economizar e ainda sustentar uma casa se torna cada vez mais inviável.

 

   Por sinal, a escolha de nômades reais no elenco foi um grande acerto da diretora e roteirista, a chinesa Chloé Zhao! Alguns interpretam a si mesmos, ainda que estejam re-contando tragédias pessoais - o que faz Nomandland beber mais uma vez na fonte do documentário e realçar seu hibridismo enquanto narrativa. A direção é cirúrgica em não desperdiçar um minuto sequer, movimentando o roteiro nas cenas mais introspectivas. Outro acerto foi a bela trilha instrumental, um piano que serve a cereja do bolo de vários momentos da trama e emociona ao máximo.

   Mas quando se trata de emoção, é importante ater os pés ao chão. O roteiro sempre relembra ao seu espectador que todos os personagens partirão, com exceção de Fern. Todos os amigos da novata são passageiros, visto que circulam com suas vans por todo o centro-oeste em busca de novos trabalhos. Mas a nômade sabe que os laços de sangue, por exemplo, estarão sempre ao seu dispôr.

   A irmã, com quem não possui lá tanta afinidade, lhe ajuda financeiramente em determinado momento, chegando até mesmo a oferecer um quarto em sua casa para Fern morar. Mas ela não quer. Por mais que a irmão, o cunhado e até mesmo uma ex-aluna a chamem de sem-teto, ela bate o pé e não abre mão da liberdade recém-conquistada. Como a ex-professora mesma afirma, sem-teto e sem casa definitivamente não são a mesma coisa.

   Não fosse pela Grande Recessão, talvez Fern adotasse o nomadismo em outro momento da vida. A personagem claramente não se identifica com os moldes de vida que lhe foram impostos. O fim do sonho americano significou, para ela, o começo de outro. Sua busca por liberdade e dinamismo a movimenta desde a juventude, como bem lembra sua irmã. E é neste momento da vida em que ela traça o auto-conhecimento como nunca, assim como fizeram vários de seus amigos de estrada. E que sorte a nossa poder acompanhar a trajetória desta mulher.

   Como disse um nômade real de Nomadland: "Eu nunca digo adeus aos meus amigos, pois sei que os encontrarei na estrada de novo. Podem se passar meses ou anos, mas eu de fato encontro." E para o filme, mesmo tendo acabado de reassistir, eu só consigo dizer um "até logo!". Espero que você também!

   Se algumas das seis estatuetas do Oscar (Melhor Filme, Diretor, Atriz, Roteiro Adaptado, Edição e Fotografia) cruzar o caminho de Fern, com certeza será mais do que merecido. 

   Curiosidade: o longa-metragem é baseado no livro Nomadland: Surviving America in the Twenty-First Century.