Um estilo de enredo conhecido por ser estimulante, às vezes, pode ser o caminho mais fácil de seguir na construção de uma trama. Ao mesmo tempo, se apoiar nessa prerrogativa é também correr o risco de repetir padrões já conhecidos e fugir do que pode ser novo, entretanto, isso não significa que o resultado provindo dessa ideia é necessariamente ruim ou sequer algo perto disso.

The Northman (O Homem do Norte) é o novo filme de Robert Eggers e que traz a história do filho que deseja vingar o assassinato de seu pai, embarcando em uma jornada sangrenta e cheia de reviravoltas, ainda que talvez não tão chocantes assim. Envolvente, a produção consegue construir o seu próprio poder de instigar e fazer o espectador realmente se importar para onde os acontecimentos estão se encaminhando.

Já de cara, é possível dizer que em termos de enredo e trama, essa não é uma produção que surpreende e choca de alguma maneira. Apesar disso, continua sendo um produto que deixa claro o seu valor desde o início, apresentando um trabalho que chama atenção pela conjuntura.

A autoinfluência como o segredo técnico de um bom trabalho

Dá para sentir claras influências trazidas pelo The Witch (2015) que é do mesmo diretor e também possui cinematografia de Jarin Blaschke. Isso fica claro pela trilha sonora que combinada aos cortes de cena, indicam o tempo todo que algo está para acontecer. A diferença do suspense construído neste para o filme de 2015 é que, desta vez, existe uma dinamicidade maior porque há sempre algo acontecendo. O personagem principal não é alheio aos acontecimentos, ainda que não sempre. Outra coisa é que a construção do medo sobre o que estamos prestes a ver, que em A Bruxa é tão intimidadora e sufocante, é substituída por um sentimento que muito mais estimula e instiga quem está assistindo.

As produções anteriores do diretor já possuem uma característica forte e imprimem muito bem uma identidade artística, todavia dessa vez, fica evidente que Eggers buscou uma grandiosidade mais elevada em todos os aspectos. Isso realmente funciona, porém não esconde as frestas e espaços vazios que a produção apresenta, além de que não deixa de representar um novo passo em sua carreira.

As atuações de Alexander Skarsgård e Claes Bang são os grandes destaques, principalmente o segundo. Com todo o impacto do desenrolar no terceiro ato, sua atuação alcança um nível ainda mais palpável e se destaca do restante, que já está muito bem. Já a entrega de Skarsgård fica evidente desde o seu primeiro momento em tela. Ambos, na verdade, incrementam e trazem frescor e um peso, no bom sentido, a história apresentada. Anya Taylor-Joy e os momentos de Bjork e Willem Dafoe são bastante agregadores e elevam a produção, ainda que Anya tenha sido mais espirituosa em outros trabalhos. Nicole Kidman é bastante teatral, às vezes, o que gera um levíssimo incômodo, mas ainda assim apresenta um trabalho muito bem feito e que a destaca e a caracteriza muito bem no filme.

Não há como não mencionar todo o setor artístico, maquiagem e design de produção porque essa é uma das partes que mais se destacam e mesmo assim não tomam todo o protagonismo do roteiro, o que não seria tão difícil assim… 

Afinal de contas, como dito antes, essa não é uma trama que traz algo realmente não visto antes no cinema. Esse provavelmente não é o filme no qual você vai sair impactado pelo desenrolar dos acontecimentos.

A vingança como motivação de um herói e mote de uma história é, geralmente, excitante de se acompanhar, mas também é uma escolha narrativa que já foi explorada inúmeras vezes - ainda que com outras roupagens e até em um contexto parecido como em The Revenant (2015) de Iñárritu, com Leonardo Dicaprio. No entanto, The Northman chama atenção pela execução final bem feita de um produto que parece saber o potencial que tem e não possui tanto medo da forma como chega em sua conclusão.

A alegoria como composição de mundo é um recurso seguro em uma história?

O lado mais artístico do filme também é bastante explorado, o tempo todo. As metáforas e alegorias aparecem e tomam uma boa parte da narrativa, até o fim. De início essa proposta é um pouco destoante e não parece se conectar com o que estamos realmente interessados em ver. Revendo o trailer fica ainda mais claro que, ao menos ali, o filme não foi vendido apresentando todos os lados mais pertinentes de sua construção final. À medida que a trama avança essa sensação permanece, entretanto não se torna algo que destrói a experiência. Em sua conclusão é possível aceitar o lado alegórico com mais facilidade, ainda que particularmente  tenha as minhas dúvidas se essa era uma parte do filme que realmente gostaria de ter visto.

Filmes que puxam mais para o “lado alegórico” da coisa, geralmente encontram polêmicas opiniões daqueles que assistem, isso considerando todos os lados da moeda: Aqueles que amam, outros que odeiam e aqueles que simplesmente não entenderam nada. Tanto Eggers como Blaschke já foram fundo em uma produção em que a metáfora era a principal identidade do roteiro. Isso aconteceu em The Lighthouse (2019) e dessa forma, dá para inferir as influências que vemos em The Northman, mesmo sendo duas produções bastante diferentes em suas propostas. No filme mais atual, as metáforas funcionam muito mais como composição de personagem e de construção de mundo do que, de fato, um ponto realmente impactante. Com exceção do lado visual, que realmente chama atenção por sua execução.

Como uma obra completa, The Northman é sim um trabalho bem feito. Ainda que sua narrativa não evolua o suficiente para dar um passo além do que conhecemos sobre a história apresentada, a produção consegue se apoiar em sua identidade bem construída e que parece ter sido preparada de forma minuciosa e com paixão, em vários aspectos. Se vimos uma repetição de padrão aqui ou, no mínimo, o apoio em uma proposta não tão inovadora, o que importa ao final é como o filme consegue fazer o espectador se importar em como ele finaliza.