Talvez seja triste admitir que um dia a sociedade em que vivemos, foi palco de ideologias capazes de excluir, segregar e simplesmente matar pessoas devido as suas identidades e a crença veemente de que existem raças superiores a outras. Talvez também seja tão absurdo tentar compreender essa ideia e tentar encaixá-la no mundo em que vivemos, que sintamos lá no fundo a vontade de achar tudo isso uma pura comédia de horrores. Quase hilária de tão horripilante e ainda assim, o que há de mais triste nessa mesma sociedade.

Infiltrado na Klan, é uma comédia dramática policial, co-escrita e dirigida por Spike Lee e baseada no livro autobiográfico Black Klansman, de Ron Stallworth

É fundamental e não tão difícil compreender que a produção e tudo que está em volta dela, se trata de uma crítica aos Estados Unidos e a história de como foi construída a concepção de sociedade dentro desse país. Por ser uma comédia, à medida que o filme avança e combinado aos cortes de cena, trilha sonora e a própria pós-produção, o espectador pode se confundir um pouco ao imaginar que essa trata-se de uma crítica mais direta e até mesmo satírica de como o negro é encarado dentro de uma cultura racista e supremacista. Até mesmo a atuação do John David Washington, que vive o detetive infiltrado, Ron Stallworth, com seu sarcasmo e olhares expressivos, pode vir a contribuir com esse lado cômico da produção.

Adam Driver está bem como o detetive Philip Zimmerman, que na verdade, nunca foi exatamente judeu, mas essa foi uma das decisões dos roteiristas para tornar o roteiro mais dramático. Topher Grace é outro grande destaque como o líder da Ku Klux Klan, David Duke, e consegue a proeza de fazer o espectador franzir o rosto simplesmente pela forma como profere tão bem tudo o que diz.

A crítica principal se faz presente de uma forma muito mais profunda do que se parece. Toda essa construção espirituosa, é na verdade simplesmente uma maneira de contar um dos lados mais podres da história dos Estados Unidos. Não é como se a comédia presente, estivesse ali para tentar aliviar os horrores que são apresentados no filme, mas sim porque simplesmente essa foi a maneira escolhida para contar essa história. Esse poderia facilmente ser um drama forte recheado de momentos emocionantes e cenas aterradoras, no entanto, o gênero escolhido parece cumprir a missão de apresentar uma crítica inteligente, muito bem trabalhada e ao mesmo tempo passar um ar de despretensão, quando sabemos que na verdade boa parte do que foi apresentado, de fato aconteceu, direta ou indiretamente.

A montagem consegue dar uma identidade interessante na questão da crítica em forma de comédia, a forma como a tela se divide naquelas já memoráveis, conversas no telefone, cria uma relação mais próxima com o espectador, como se só ele tivesse sabendo daquilo, junto aos policiais. Cria-se também um ar de aventura, que apresenta Ron, como um carismático e interessante personagem que cumpre o papel de lidar com questões cruciais para o desenvolvimento do filme, que também o elevam como forte crítica social e o mais importante de tudo, não se torna maçante e desinteressante em nenhum momento.

Todo o contexto racista dos anos 70 é explicitado em detalhes, incluindo as cenas em que Ron e Patrice Dumas (Laura Darrier) – uma jovem negra e militante que defende a ideologia dos Black Panthers - estão em uma espécie de lanchonete de classe média, todos a sua volta são brancos, sem exceções. Em outro momento, durante uma reunião que trouxe o líder da Ku Klux Klan, David Duke a um hotel com os participantes do Colorado. Enquanto Duke explica o quanto os brancos são privilegiados por serem brancos, e por isso são guerreiros da América branca por respeito aos seus ancestrais que lutaram e morreram, a câmera foca nos serviçais, passando primeiro por duas mulheres brancas que sorriem enquanto escutam, até chegar nos quatro últimos homens negros com expressões que não precisam dizer mais nada, mas ainda assim um deles diz:

- Se eu soubesse que esse era um encontro da Klan eu não teria aceitado... P*ta m*rda!

Em um fim aparentemente realista mas ainda assim com alguns momentos que nos fazem acreditar em algum progresso, o corte final faz questão de nos trazer para a nossa realidade atual, com várias imagens chocantes lembrando que em 2017, marchas da supremacia branca expuseram o posicionamento extremista que ainda perdura nos Estados Unidos.

 Dessa forma, Infiltrado na Klan, apresenta uma obra que tem o objetivo de escancarar posicionamentos extremistas fazendo questão de alertar o quanto ainda são perigosos, por meio de uma narrativa que é cômica e crítica na mesma medida, com ótimas atuações e um roteiro que consegue se desenrolar e apresentar seu verdadeiro potencial nos momentos finais.