Dentro de situações antigas, em interiores recheados de pré-julgamentos, costumamos encontrar em foco exposições de comportamentos degradantes. Ataque dos Cães é preciso em escancarar um machismo tóxico e uma autopromoção da força e superioridade do homem sobre histórias muito retratadas no meio do Velho Oeste. Esse tipo de filme sempre foi uma oportunidade de falar sobre a barbárie que era vivenciada nessa época, uma construção de identidade e imaginário muito presente no cenário americano, baseado em uma superioridade moral transfigurada em expansionismo.

A exposição das mulheres e a forma degradante aos quais são tratadas e impostas são desconcertantes na crítica do filme sobre o viés de quem pratica o ato e de quem as minimamente acolhe.

Um destaque interessante é que somente nos últimos minutos em tela é que começamos a tentar fazer uma relação da história com o nome do filme, que fica perdido de seu significado durante boa parte da narrativa.

A história fala sobre dois irmãos completamente diferentes: Phil (Benedict Cumberbatch) e George (Jesse Plemons), aos quais foi confiado cuidar do rancho dos pais. No entanto, suas visões sobre a vida e negócios são bem diferentes. Phil é aquele típico homem bruto, cheio de preconceitos e estereótipos que o fazem ser extremamente desagradável. Já George era o cara que deseja estudos, ser alguém mais importante e desenvolver outras atividades que não envolvam o esforço físico dos peões que cuidam dos serviços com os animais.

Em um jantar ele conhece Rose (Kirsten Dunst), uma viúva doce que cria um filho sozinha. Peter (Kodi Smit-McPhee), seu filho, é um garoto sensível, com alma de artista e grande habilidades para produção de artefatos com as mãos. Esse fato dá margem para que Phil seja grosso e ignorante com o menino, que começa a sentir uma perseguição vinda do peão.

Foi por conta dessa situação que George e Rose se aproximam e terminam casando, o que faz a mulher largar sua propriedade para ir morar com o novo marido, além de mandar seu filho para um internato para estudar medicina. Mas obviamente ela não é tratada bem por Phil, o que gera enormes embates.

A virada surge quando Peter retorna do internato para o rancho. Aparentemente bem adaptado à realidade da escola, ele sofre com as coisas ao qual ele é submetido no ambiente rural. Uma improvável aproximação entre ele e Phil começa a acontecer, o que deixa Rose preocupada e cada vez mais afundada nas bebidas, um problema que o pai de Peter sofria e que ela abominava até casar.

Também é importante frisar o quão o exterior de Peter não casava com seus pensamentos e força mental. Seu caráter é moldado por todos os acontecimentos de sua vida e seu jeito de se portar não condizia com sua capacidade fria de pensar e cometer alguns atos que vemos durante todo o filme.

Com uma fotografia belíssima e atuações impecáveis, dá para entender a quantidade de indicações ao Oscar, além do fato da atuação de Benedict Cumberbatch estar sendo apontado como a melhor de sua carreira. Ele combina com o papel em seu visual e trejeitos, mas principalmente na força que suas palavras odiosas transmitem, tão diferentes dos alívios cômicos que estamos acostumados a ver dele como herói na Marvel. Ainda assim é possível ver uma crueza em seus takes solos, possíveis principalmente por ele atuar além das palavras, já que o filme é carregado por muito silêncio.  Também é interessante ver o quão impecável está fulaninha, sendo possível ver seu desconforto em muitas cenas e entendendo suas dores em ser podada como a mulher de alguém importante.

A direção de Jane Campion nesse ponto acerta bastante em takes aéreos, focos nos rostos dos personagens e gestos que não passam despercebidos pelas câmeras, fazendo com que o espectador sejam introduzidos naquele universo. É interessante também ver como a montagem do filme é feita em atos, que nos ambienta na história como em capítulos de livros, sendo retomados de formas diferentes no auge de cada clímax.

Detalhe também para a trilha sonora toda instrumental que dá o tom de muitas cenas, principalmente as finais, envolvendo confrontos diretos. O roteiro inclui diálogos profundos que mostram exatamente o que são os personagens e como eles se encaixam na história. Mesmo assim, o desfecho do longa é previsível e pouco emocionante.

É interessante ver que o filme tem um proposito de exaltar as problemáticas das relações e comportamentos daquela época, sem de fato se preocupar com a história em si. A narrativa por muitos momentos é superficial, beirando um aprofundamento forçado que não atinge a complexidade necessária. Vale a pena dar uma chance, mas, em termos de conjuntura total da obra, é difícil achar que é uma das melhores produções do ano.