Filmes indicados ao Oscar têm ritmos e estruturas próprios que nos fazem identificar, muitas vezes, somente pela sinopse de que se encaixa nesse padrão. Por isso quando uma indicação foge desse encaixe, nós começamos a ter outro olhar para a premiação. Desde que A Forma da Água faturou a estatueta, esse tipo de indicação começou a surgir, dando oportunidades a bons títulos que antes eram esnobados pela premiação.

Mas claramente sua temática também interfere nessas indicações, como é o caso de Coda: No Ritmo do Coração. Não é algo inédito nem inovador, mas a premissa simples de uma história de reflexão nos soa muito bem (e é uma aposta boa, como foi com Meu Pai no ano passado).

Essa é claramente uma história de superação. O filme traz a narrativa de Ruby Rossi (Emilia Jones), a única ouvinte de uma família de surdos, denominada pela sigla CODA (Children of Deaf Adults ou filha de adultos surdos em português) o que dá o nome ao filme. Por conta disso ela sofreu bastante com adaptação na escola, já que levou um tempo para aprender a falar como um ouvinte, fazendo com que fosse excluída da socialização escolar. Pensamos que o bullyng seria a problemática principal do longa, mas percebemos uma série de camadas e complexidades que vão se desenvolvendo ao longo do filme.

E não entenda complexidade como algo difícil de compreender, até porque volto a dizer é uma premissa muito simples, mas os sentimentos envoltos do que o filme se propõe a discutir é emocionante, principalmente no tocante a comunicação. E olhe que por muito tempo ele tem uma vibe de filmes de Sessão da Tarde.

Apesar de trazer convenções extremamente previsíveis, a clássica trama de amadurecimento encontra a adolescente que se vê em uma situação entre permanecer junto a sua família, sendo o elo principal deles com a sociedade, ou seguir seus sonhos longe daquele lugar. Situando melhor o contexto: toda a família vive da pesca, onde Ruby acorda todas as madrugadas para ajudar antes da escola, sendo ela a intérprete dos pais e do irmão nas negociações de venda e outras situações.

Entender que esses clichês juntos se transformam em uma narrativa inovadora é o principal ponto do filme, altamente acertado pela diretora e roteirista Sian Heder. Trazer pontos pouco convencionais, mas extremamente realistas, como uma família surda bem humorada e pouco conservadora, além de um espaço envolvendo uma protagonista que realiza um trabalho braçal de pesca também é interessante para desenvolver os traços já um pouco mais batidos. Além, claro, de fugir da situação de pena, adaptação e depreciação de si mesmo que filmes com a temática de deficiência costuma trazer.

O filme conquista justamente por trazer uma dose de emoção nesse dilema profundo entre ser altruísta e egoísta, e qual a linha tênue que separa os dois. Afinal, Ruby precisa pensar nela ou na família? Enquanto busca respostas abraçando o mundo, Ruby se encontra em um lugar específico de solidão e medo, principalmente por nunca saber o seu lugar no mundo ou onde se encaixar. E o local ao qual ela tenta ter essa sensação é no Coral da escola, incentivada por um crush do colégio que também fazia parte da atividade.

Ainda que seja uma adolescente sendo levada por seus instintos de viver seus sonhos ou fazer algo próprio da idade, Ruby adota uma postura de lealdade por sua família, como se ela fosse responsável por eles, o que leva a um dos diálogos mais interessantes da trama. Durante uma briga com seu irmão Leo (Daniel Durant), ele deixa claro para ela que eles não são indefesos por serem surdos e que também não devem se adaptar ao mundo dos ouvintes, mas sim eles que devem aprender a lidar com pessoas surdas.

É interessante trazer essa afirmação por entendermos que não conseguimos sempre catalogar ou encaixar as situações. E também não devemos taxar ninguém por suas limitações, já que as dificuldades existem para todo mundo, o que muda é o tipo delas.

As atuações são muito boas, transitando do drama para a comédia de forma leve e natural, se tornando ainda mais real. As cenas de Ruby cantando com seu pai Frank (Troy Kotsur) são extremamente tocantes e toda a linha corporal e facial que Jackie, interpretada pela vencedora do Oscar Marlee Matlin, adota dizem muito mais que palavras faladas, deixando muito claro o quanto podemos sentir e expressar por outros meios.

Vale ainda ressaltar que boa parte dos diálogos do filme são feitos na língua de sinais americana, dando espaço para uma expressividade física e facial ainda maior no roteiro, que brinca com os sons muito presentes e característicos de cada momento como buzinas e sons de pássaros, como também um momento de total silêncio durante um concerto, fazendo que nos sintamos como a família de Ruby, imersa no grande nada enquanto as pessoas desfrutam emoções através da música.

A parte musical do filme também é muito boa, com vocais potentes de Emilia Jones e Ferdia Walsh-Peelo, que trazem uma interação interessante. O ponto negativo, no entanto, é o romance pouco desenvolvido e sem graça que os dois possuem no filme, que logicamente passa longe de ser a trama principal.

Mesmo com temas batidos, o longa consegue ser revolucionário em trazer o dia a dia dessas famílias tão particulares de uma forma pouco forçada e muito respeitosa. Apesar de sim, No Ritmo do Coração ser um drama açucarado que nos faz rir e chorar e que possui um gostinho de filme simples, sua genuína emoção vale cada traço que a narrativa percorre. É uma belíssima história que busca mostrar e visualizar o aprender a se expressar.