Tudo o que nos acontece quando somos jovens acaba moldando quem seremos no futuro. Coisas boas e ruins, nos marcam de maneiras diferentes e ajudam a construir a nossa personalidade. Isso resulta em vários efeitos diferentes no que seremos com as outras pessoas ao nosso redor e também, com nós mesmos.

Jonas (Boys) é um filme francês de 2018, escrito e dirigido por Christophe Charrier e conta a história de Jonas (Nicolas Bauwens/Félix Maritaud) em duas linhas de tempo diferentes: em 1997 quando conhece Natan (Tommy-Lee Baik), um novo garoto misterioso que chega em sua escola e rapidamente cria uma relação forte com ele. Em 2015, toda a inocência e o brilho nos olhos que conhecemos antes, dá lugar a um homem frio, que parece ter uma vida triste e vazia, traindo o namorado constantemente, e detido porque arruma confusão em uma boate gay e vive carregando uma gameboy antigo para todos os lugares. 

Jonas parece completamente perdido em sua vida adulta. Algo deu muito errado e destruiu o que conhecemos do menino inofensivo e virtuoso na primeira linha do tempo. Isso acaba funcionando como o grande mote da produção, pois a forma que a história é contada no passado, nos dá a entender que tudo vai acabar bem, mesmo que os cortes constantes  entre o passado e o futuro, vão aos poucos deixando bem claro que algo muito ruim de fato destruiu tudo aquilo.

A relação entre os dois jovens vai florescendo aos poucos de forma natural e cheia de delicadeza, o que entrega mais um ponto ao filme, que se destaca por ter uma ótima construção de personagens, onde não só os protagonistas possuem complexidade, os coadjuvantes estão ali para realmente compor a história e todo mundo acaba sendo muito importante. Não temos pontas soltas aqui. Tudo que acontece possui uma finalidade e isso é entregue ao público. 

O roteiro parece flertar com uma tentativa de plot twist mais próximo ao final, o que funciona bem, porém isso é levado muito mais para o lado emocional e não do choque em si, pois é meio óbvio o que acaba acontecendo. Ainda que seja um pouco forçado, não parece algo irreal devido às circunstâncias do lugar onde se passa o filme e também as aparentes motivações pessoais do personagem principal. 

Com uma fotografia muito focada em um tom vermelho, vivo e ainda assim triste, apresenta-se uma grande diferença entre o que estamos vendo, no passado as cores são mais vivas e ao mesmo tempo tudo parece bem levemente borrado criando uma atmosfera mais nostálgica como se estivéssemos vendo uma lembrança ou sonho. No presente a cor ainda permanece, porém a sensação de devaneio desaparece e a atmosfera torna-se mais real.

A escalação de elenco é interessante, temos boas atuações, com destaque para ambos atores que fazem o personagem principal em sua fase adolescente/adulto e também para Aure Atika, a mãe de Nathan, que apesar do pouco tempo de tela, entrega muito bem o papel de uma mãe com uma filosofia de vida que pode parecer incomum para a época.

Ao final, entendemos que o filme fala sobre como lembranças fortes que carregamos do passado, sejam elas boas ou ruins ou um misto dessas, podem influenciar fortemente nosso futuro e que temos de deixá-las para trás em algum momento, não tentando fingir que nada aconteceu e sim, enfrentando-as e seguindo em frente.

Jonas, apresenta uma história delicada e muito humana, que infelizmente não foge do clichê do filme com temática LGBT que possui uma história triste, contudo, o final consegue subverter um pouco esse estigma, entregando um belo fechamento de roteiro nos fazendo  entender que o personagem principal finalmente passou por uma transformação.