Em meio à turbulência do “novo normal” da nossa vida, em um combate direto contra um vírus mortal, a sociedade moderna em todo seu isolamento obrigatório se viu de frente a algo que todos fogem, a questão primordial que todos os filósofos tentam esclarecer: “Qual o sentido da minha vida?”

E é nessa realidade de questionamento e incertezas que formos agraciados com o lançamento de Soul da Pixar, filme este que iria ao cinema, mas graças ao mal que ainda estamos enfrentando, acabou indo diretamente para o serviço de streaming da Disney +.

Soul é justamente uma mistura de uma refinada animação e vários conceitos muito complexo. Ao contrario do que muitos achavam, não é um filme sobre música jazz ou soul (o gênero musical), nem se debruça em questões raciais, levantando uma das bandeiras da luta anti-racista: a voz negra não serve apenas para falar de questões raciais.

Soul (que literalmente significa “alma”) também se desapega de algumas das versões religiosas sobre o além-mundo e nos oferece uma obra livre de certos pré-conceitos que tomamos como verdades no nosso cotidiano.

A História

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Somos logo apresentados a Joe, um pianista de jazz que, apesar de seu talento, não tinha conseguido engatar na carreira musical, algo que era seu grande sonho, e com isso acaba trabalhando como professor em meio horário para obter algum dinheiro. Chegamos aqui ao primeiro impasse, seguir o sonho ou se manter?

Nas cenas iniciais, vemos Joe relutante em aceitar uma oferta de trabalho integral e acabar desistindo de seu sonho, pois não teria tempo para tocar. É perceptível que o personagem não é assim tão jovem e daí conseguimos entender toda a cobrança da mãe, quando ela relata que ele não a terá para sempre e por isso deve prezar por um emprego que proporcione estabilidade.

Obviamente a relutância do personagem acaba fazendo ele tomar medidas “drásticas”, recusando o emprego estável e indo para o clube de jazz mais próximo para tocar, e olha a grata surpresa, ele acaba sendo contratado por uma cantora famosa do meio.

Tudo parecia estar em perfeita sintonia, ele alcançou seu objetivo, sua função na terra, alcançado seu sonho... na realidade, não! Ele acaba morrendo e indo para o pós vida.

Um Sonho irreal

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Joe, ao chegar no pós vida, simplesmente se recusa a estar lá, oras ele tinha a tão sonhada chance em suas mãos e de repente ela escapa por entre dedos, não mesmo, ele não aceitaria!

Assim Joe tenta arrumar uma forma de voltar para a terra e acaba se deparando como um berçário de Alminhas, seres que ainda não desceram a terra e que são “treinadas” para descobrirem seus talentos, com a mentoria das maiores personalidades que já viveram.

No meio dessas alminhas conhecemos a numero 22 (são muitas almas, é difícil dar nome, então eles põem números). Essa pequenina é um retrato claro das nossas inseguranças. Na trama, ela se recusa a descobri um talento, pois ela não quer descer a terra. Ela se sente bem e confortável no local em que está.

Nesse aspecto nos lembra de nossas covardias em meio ao desconhecido e nos faz questionar em quantas experiências perdemos de viver por medo ou mesmo por um pré-conceito estabelecido em nossas mentes.

O caminho de Joe e 22 se cruzam no momento que ele percebe que ambos têm algo em comum, ela não que vir a terra e ele quer muito, então ente viu uma oportunidade, treina-la até que ela pudesse conseguir o passe para descer a terra. Mas se tem uma coisa que esse filme não em é a obviedade!

 Por uma sorte (ou azar) ambos acaba caindo na terra, porem em corpos trocados, 22 ocupa o corpo vazio de Joe que estava em coma e Joe o corpo de um gato de terapia.

Nem tudo que queremos é o que realmente precisamos

Como já dizia Rolling Stones: That you can't always get what you want, honey, descobrimos, assim como Joe, que nem sempre o que queremos é o que precisamos.

Joe sempre quis ser musico e sempre achou que seu dom na terra era esse, porem em sua jornada com a 22 na terra, descobrimos que na realidade, sua jornada na terra é aquilo que ele sempre se recusou, por um pré-conceito estabelecido em uma mente.

Ele é um Mentor, não só para 22, mas também para todos seus alunos. Através da música ele conseguiu ajudar e a desenvolver jovens almas em suas jornadas e isso novamente nos faz pensar: “Será que não estou ignorando meu verdadeiro papel aqui na terra por puro pré-conceito?”

De fato, o filme por diversas vezes nos traz esses questionamentos de extrema relevância.

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Animação, Fotografia e Roteiro

Impossível não identificarmos o padrão Pixar de qualidade nesta obra, animações com excelência gráfica extrema, podemos notar isso ao observarmos os pelos do gato, a textura das roupas, as expressões dos personagens e até na gota de suor de Joe no auge na emoção ao tocar jazz.

O roteiro também mostra sua excelência ao pontuar questionamentos e criar arcos bem fechados de tramas, que até um primeiro momento, eram paralelas. Mas que no final conseguiu encaixar com eximia maestria.

A arte dessa animação nos traz um prazer de assistir, de conferir os detalhes, de emergir naquele mundo, quer seja ele o real na terra ou o pós-venda no além.

Veredito


O barato de Soul é que sua mensagem é clara, mas também faz com que cada pessoa se conecte de forma diferente, uma história bonita que traz para o espectador um pedido singelo: “preste atenção em mim por um momento e pense na sua vida”.

Enquanto a animação segue o padrão técnico de excelência da Pixar, sua trama acompanha o padrão programado de animações que fazem pensar e que tendem a emocionar. Seguir esse padrão não é demérito, mas reforça uma fórmula previsível de mais um desenho lindo que em algum momento vai te pegar pelo coração.