Quando Pânico estreou em 1996, a cena de abertura já mostrou ao mundo que aquele não um terror comum. Afinal, após duas décadas de filmes slasher (matança), dezenas de sequências sofríveis e artifícios manjados, o que havia sobrado para o gênero? Eis que o roteirista Kevin Willianson surge com a metalinguagem. Um filme de terror onde os personagens zombam das próprias regras e imbecilidades do gênero? Só poderia ser bem-vindo! Se hoje você percebe a saturação do meta, ao menos sabe agora quem o originou.

  

E como todo produto original de sucesso, os derivados não tardam a surgir - como um vírus produzindo suas variantes (umas mais potentes, outras mais fracas). Tivemos Pânico 2, abordando as regras das sequências; Pânico 3, que finalizava a história enquantro trilogia e, por fim, Pânico 4, que zombava da era dos remakes e acabou pegando carona em Pânico 1.

Há praticamente um consenso entre fãs e crítica de que o terceiro longa é desnecessário, mas a verdade é que há controvérsias sobre todas as sequências. Ainda assim, independente da sua ordem de preferência, é possível extrair elementos incríveis de cada um deles. E com o quinto filme, para o meu alívio, não foi diferente!

Não temos mais a mão de Kevin Williamson no roteiro (responsável pelos roteiros do 1, 2 e 4) e nem a sagaz direção de Wes Craven (já falecido, após dirigir os quatro filmes). É claro: diante disso, é perfeitamente compreensível o medo dos fãs. Com um roteiro meia-boca e uma direção porca, tudo poderia ir por água abaixo - sem a menor necessidade, visto que o quarto finaliza bem a trama.

Mas graças ao novo roteiro, Pânico encontra palco para mais metalinguagem, apoiando-se nos filmes de terror atuais. O foco da vez são as críticas ao terror cult, às sequências slasher e à cultura tóxica dos fãs, que fez os estúdios virarem reféns de suas fanfics e ideias toscas. Um acerto em cheio, diga-se de passagem.

Já os personagens novatos também conseguem agregar: possuem carisma de sobra para conquistar o público. Os arquétipos estão todos aqui: a expert em terror, a final girl, o atleta, o garoto desajustado e a menina rebelde continuam presentes, sem cair na caricatura. Some isso às ótimas performances do elenco (sem o devido destaque para evitar spoilers) e a um texto mais afiado do que nunca, que remete aos filmes 1 e 4. É, inclusive, o que torna as mortes da vez tão pesadas: quase todo ataque do filme é sentidojá que a humanização do cast é bem construída. 

 

Outro motivo é justamente a sanguinolência do Ghostface: inspirado no Michael Myers de Halloween Kills, o vilão manuseia a faca com uma brutalidade inédita. Arrisco dizer que o quinto é mais brutal, sangrento e doloroso que todos os Pânicos juntos. Os diretores, responsáveis pelo ótimo O Casamento, trabalham bem o medo e a ânsia deste universo. Mesmo que as cenas de perseguição sejam poucas, a direção compensa no horror visceral das mortes. Talvez justamente por isso, o filme acabe ganhando um tom melancólico, visto poucas vezes anteriormente. Não estamos preparados para algumas despedidas.

Falando em ausências, é interessante notar como, pela primeira vez em 26 anos, a história se desenrola sem o trio principal. É claro que Sidney, Dewey e Gale eram - e ainda são - engrenagens fundamentais da trama, mas hoje o roteiro consegue deslanchar independente deles. Talvez seja algo que incomode parte do fandom mas, na minha visão, é o que reafirma o potencial do universo.

Está tudo bem que os novos assumam o protagonismo da vez, pois é assim que essas sequências que retomam o original funcionam (Halloween, Star Wars, Brinquedo Assassino). Todos vêm passando por essa retomada, onde personagens do passado e presente se influenciam mutuamente. Os outrora iniciantes agora incorporam o papel de tutor dos novatos.

Sendo assim, se antes Pânico utilizava outros filmes de terror como escada, agora as autorreferências servem de rampa. As auto-homenagens nunca estiveram tão presentes como agora, o que pode incomodar parte dos fãs. Possivelmente, a atuação da nova protagonista (Melissa Barrera) também não agrade a todos - de fato, é uma performance mediana. Mas nada que atrapalhe o desempenho da trama e, principalmente, a bagunça deliciosa que é o terceiro ato! Espero que, assim como eu, vocês gostem deste que foi, talvez, o melhor Pânico desde o original. Nada supera o original. E Pânico, como sempre, é consciente disso, utilizando as regras do terror a seu favor e subvertendo-as novamente. Você vai se surpreender!

ZONA DE SPOILERS:

Destaque para Jenna Ortega, a primeira primeira vítima de Ghostface a sobreviver! Pânico prova que ainda pode subverter clichês, dando mais tempo em tela para a garota (um acerto em cheio). Sua personagem, mesmo sendo o maior saco de pancadas da história do Cinema, se revela uma verdadeira lutadora, exalando mais carisma que a irmã protagonista/final girl Samantha. A cena de abertura, por sinal, é a melhor desde o primeiro filme, prestando uma homenagem moderna à icônica cena de Drew Barrymore.

Mindy, a nerd da vez, é uma personagem digna de Randy. Brinca com todos os clichês do terror e se diverte em todo seu tempo de tela, além de ser a primeira personagem assumidamente LGBTQIA+ da franquia - sem que isso a rotule.

Outro destaque vai para Jack Quaid (The Boys), em uma brilhante performance como o assassino óbvio/não tão óbvio assim. O filme faz as suspeitas circularem bem: mesmo quando mira no óbvio, consegue manter o espectador com a pulga atrás da orelha. 

"É uma pena que sou eu", diz o namorado da final girl, ao ser desmascarado. Mais uma vez, uma protagonista com dedo podre para relacionamentos. Para o espectador mais exigente, uma revelação um tanto óbvia e talvez sem intensidade alguma. Ao meu ver, mérito de uma franquia que sempre apontou os clichês do gênero mas nunca, nunca deixou de brincar com eles.

Pela primeira vez, temos adolescentes mais espertos e questionadores que os outros da franquia e mesmo assim, eles não deixam de cair nas armadilhas da morte. Nós, enquanto espectadores, já vimos o filme 580 vezes e continuamos nos enganando, pensando que o óbvio será obviamente evitado. Mas alguns clichês nunca morrem... e está tudo bem.

Essa é a graça. Isso é Pânico.