Liga da Justiça é - sem sombra de dúvidas - a maior equipe de heróis dos quadrinhos que por 60 anos conseguiu reunir os maiores personagens da DC Comics em uma série de histórias épicas, e por muito tempo os fãs aguardavam por uma adaptação que honrasse a trajetória dos grandes heróis. Foi então que, em 2010, a DC e a Warner decidiram entregar o desenvolvimento de seu universo cinematográfico nas mãos de Zack Snyder, que naquele tempo parecia ser a escolha perfeita na visão dos executivos pelo seu histórico positivo com algumas adaptações de quadrinhos (300 Watchmen) e por idealizar uma trama que desenvolvesse a grandeza que aqueles personagens tinham em sua essência.


O pontapé inicial para os planos de Snyder começaram em O Homem de Aço, de 2013, onde o diretor trouxe as telas uma versão que explorava de maneira mais densa o último filho de Krypton como um deus entre os homens, e mesmo que tenha fugido de muitas virtudes do herói e dividido a opinião do grande público, o longa conseguiu faturar bem e deu sinal verde para que o resto desse universo fosse desenvolvido o mais rápido possível (levando em conta que o gênero de heróis já estava fazendo sucesso na concorrência), e foi então que Snyder e os executivos da Warner Bros. decidiram chutar o pau da barraca e decidiu anunciar Batman V Superman: A Origem da Justiça como o segundo filme do seu universo cinematográfico, e o desfecho desse longa levaria para o tão aguardado longa da Liga da Justiça. Mas ao chegar nos cinemas, o filme que reuniria os dois maiores ícones do seu universo junto a todos os outros heróis acabou sendo um divisor ainda maior de opiniões entre público e crítica (principalmente pelo tom sombrio abordado no longa e pelos diversos erros no roteiro em desenvolver seus personagens), e após o fracasso crítico de Esquadrão Suicida, do sucesso de Mulher-Maravilha e com medo de receber uma maior rejeição no longa, os executivos tentaram a todo custo mudar a versão do diretor Zack Snyder para que seu filme fosse mais leve, curto e aceitável para o grande público, mas o diretor não obedeceu essas ordens, e lutou para concluir a sua visão sobre os ícones da liberdade.

E durante a pós-produção, Snyder passou por uma tragédia familiar que fez com que o mesmo se afastasse dos afazeres do longa para cuidar de sua família, e foi com nesse momento de fraqueza que os executivos decidiram que era a hora de ajeitar o projeto que estava na sala de edição.

Com auxílio de Geoff Johns (Stargirl) Joss Wheadon (Os Vingadores), houve um caos na produção para que fosse passada uma bucha na produção de 4 horas de duração feita pelo antigo diretor, até que, em 2017, fomos apresentados a 120 minutos de uma versão da Liga da Justiça que não conseguiu agradar o público ou a crítica, não só por ser uma história razoável dos nossos grandes heróis, mas também porque o estúdio tirou grande parte do tom que Snyder teria planejado para uma suposta trilogia, e foi a partir dai que a hashtag #ReleaseTheSnyderCut saiu, e em 18 de março de 2021, o fãs se sentiram vitoriosos por ter a oportunidade de conhecer de uma vez por todas qual era a verdadeira visão que Zack Snyder queria tanto mostrar nas telas. E é a partir dessa LONGA INTRODUÇÃO (Digna do diretor) que a analise de Zack Snyder's Justice League começa.

[ATENÇÃO: Essa análise será feita APENAS pelo ponto de vista do FILME. É notável que o filme é uma vitória para o diretor que pode encerrar seu arco e para muitos dos fãs que apoiaram o movimento (me incluo nessa), mas as questões que serão abordadas aqui serão em relação a condução do enredo do longa em roteiro, direção, etc.. Aproveite!]

Liga da Justiça de Zack Snyder | Horário de lançamento no Brasil pode ter  sido confirmado

Quando anunciado que seria lançado em streaming, muita gente se perguntou sobre o quanto do longa de 2017 era a verdadeira direção de Zack Snyder, e posso falar com tranquilidade que além do tom sombrio, da retirada das cenas de Wheadon e do acréscimo de um epílogo, os 240 minutos de Zack Snyder's Justice League são apenas uma versão estendida do que já vimos no longa anterior.


Muitas das cenas e dos dilemas apresentados na versão do cinemas se fazem presente aqui, mas com a fotografia e a estética padrão de Snyder. E a jornada dos personagens em se unirem para enfrentar um bem maior também está aqui, mas com uma extensão INMENSA que pretende desenvolver a trama, mas que muitas vezes não nos leva a lugar algum, pois muitas das ideias presentes nessa versão (como a do passado e a personalidade do Aquaman de Jason Momoa, o arco do Flash de Ezra Miller e a "tragédia grega" do Ciborgue de Ray Fisher) foram descartadas para as futuras produções dos personagens.
E todo esse desenvolvimento não é descartado só porque o estúdio não quis, mas também porque muitas dessas ideias são descritas e atuadas de maneira ruim no longa, tendo diálogos mal escritos e cenas que beiram o constrangedor (como o Ciborgue mostrando seu "uniforme" ou o Flash flertando). 


E todo mundo sabe que um roteiro é a base para que uma história seja bem desenvolvida, mas no caso dessa Liga da Justiça, o roteiro não parece ser o foco, mas sim o visual, pois eu não me lembro de ver um trabalho tão estilizado de Zack Snyder em seus filmes a muito tempo, pois o diretor procurou trazer o melhor de seu trabalho como diretor do que como um contador de histórias.


O longa tem um excesso de câmeras lentas (marca registrada do diretor) que parecem vir se um comercial de perfume da Paco Rabanne, e por mais que a ideia do diretor seja a de deixar o espectador contemplando uma bela cena, o uso exacerbado desse efeito acaba cansando (principalmente quando o filme tem boa parte de suas 4 horas recheado disso). Algumas das belas cenas que já foram vistas na versão de 2017 continuam com sua boa estética nessa nova versão, mas existem algumas construções de momentos que podem surpreender (principalmente na parte final do longa).

Somado ao roteiro complicado, outro ponto que afeta muito o filme é na edição da história e em como a narrativa é arrastada na primeira metade do longa. É aceitável quando lembramos que é um longa de 4 horas de duração e divididas em 6 partes (mais um epílogo), mas também é cansativo quando sabemos que o desenrolar de momentos chave da trama serão arrastados em 4 horas de duração e divididas em 6 partes (Complicado? Eu te ajudo!).


As duas primeiras partes do longa cansam por entregarem uma grande quantidade de contextos que não avançam na trama até a chegada da quarta parte (e nisso já se passaram mais ou menos duas horas). Existem sim momentos interessantes ao longo do caminho, mas demora muito pra que o filme cative com algo construído até ali (e quando chega, esse momento dura pouco).


A ideia de construir o principal antagonista (Darkseid) nessas seis partes é um ponto bastante positivo, conduzindo a ameaça tanto na visão dos heróis como também na versão de seu "cão arrependido" Lobo da Estepe, mas a conclusão para o inimigo junto ao gancho deixado é algo que desaponta muito.

Mas não tem como não falar de decepção sem falar do tão aguardado EPÍLOGO, que tanto prometeu mas nada entregou. Essa que era a cena inédita que Snyder pensou tanto em gravar e que nos mostraria mais do pesadelo do Batman não passou de um sonho (literalmente), e isso foi uma quebra de clima no filme completamente desnecessária tanto pela cena anterior a esse momento, como também a cena seguinte que, mesmo sendo confusa, poderia dar um ponto final no longa de maneira otimista, mas acabou sendo uma decepção para o todo que foi construído até ali.

Em suma, o Zack Snyder's Justice League consegue encerrar o grande arco de Zack Snyder com ele dando o melhor de si na direção, e mesmo tendo as melhores intenções, o longa consegue ser fraco em diversos momentos no roteiro e vacila demais no desenrolar de uma trama tão longa, fazendo de um filme que tinha tudo para ser uma trama épica na visão do diretor em mais uma obra OK dos maiores heróis da DC Comics.