O já consolidado universo cinematográfico da Marvel Studios abriu os projetos para 2018 com o pé direito. Pantera negra não é só mais um herói, ele é um símbolo de uma nação escondida, de uma raça subjugada, e de um futuro ainda mais promissor para o estúdio. Sim, é um filme de origem. E como tal, tem a fórmula bem conhecida por nós que acompanhamos a franquia desde 2008. No entanto, ele consegue ser diferente de tudo que a empresa já fez, e são suas peculiaridades que certamente o tornará tão ímpar nesse novo ciclo da Marvel.

O roteiro é bem simples! Não há nenhuma reviravolta mirabolante, nem planos estrambólicos. Na verdade, por se tratar de um longa criado não só para expandir o universo da saga de heróis, mas também para explicar a origem/passado/futuro do protagonista, não era essa a intenção de seus roteiristas. Por vezes conseguimos saber exatamente o que vai acontecer na cena seguinte. Isso pode ser frustrante para os amantes do plot twist, mas não foi algo que me incomodou tanto justamente por se tratar de um filme de apresentação. Se fosse uma sequencia ou algo nesse sentido certamente minha reação seria um tanto diferente.

A direção de Ryan Coogler é bem minuciosa, basicamente não chama atenção para si em boa parte do filme. No entanto, confesso que tenho uma certa dificuldade de entender a disparidade das cenas de ação dos filmes da Marvel. Ora é muito bom, ora é regular, ora é meio caído. Quando se fala em tribos africanas naturalmente se pensa em excelentes duelos, eu mesma faço essa analogia sempre. As primeiras cenas de luta corpo a corpo são maravilhosas, dá pra sentir o quanto aquele ritual é importante. A cena do cassino é sensacional; agora a cena do duelo final... vou deixar vocês comentarem quando assistir, porque eu já desisti de tentar entender.

Wakanda é inacreditavelmente linda. A fotografia do filme é belíssima, graças ao diálogo que a equipe de efeitos visuais conseguiu fazer entre a grande tecnologia que há na cidade e a singularidade visual das tribos africanas. Porém, em certos momentos o CGI cuspido me deixou assustada. Não achei uma maravilha de efeitos especiais, o que em certa medida me entristeceu. Talvez se tivesse figurantes ao invés de pessoas adicionadas digitalmente na hora do ritual do pantera negra eu certamente teria me envolvido mais.

A trilha sonora é uma das coisas mais perfeitas do universo de filmes da Marvel. Uma mistura de hip hop moderno com a trilha mais tradicional do estúdio formou um casamento perfeito. Por vezes minha emoção só foi real graças a trilha. Para mim a melhor parte é quando o antagonista aparece e começa a tocar uma mistura de música típica do gueto estadunidense com as canções em zulu que eu vi no rei leão quando criança. Sensacional!

Finalmente, sobre o elenco. Na minha nada humilde opinião, esse é o elenco mais bem selecionado da franquia de filmes de heróis do estúdio. As personagens secundárias têm personalidade e “vida própria”, e se estão ao lado do pantera negra é porquê escolheram assim. Danai Gurira é a general da guarda real, que não por acaso é composta só por mulheres, e Lupita Nyongo é a ex namorada de TChalla que tem uma vida de propósito totalmente diferente das pessoas que estão na sua condição. Duas mulheres de garra! O alívio cômico ficou com a irmã do rei de Wakanda que é um gênio da ciência e tecnologia. Martin Freeman faz o papel do típico branco norte americano preconceituoso que acha que sabe de tudo no mundo por ser norte americano, mas que acaba se surpreendendo ao ser confrontado pele seu “nível de conhecimento mundial”.

Os antagonistas são um show a parte. Andy Serkins se deleitou ao fazer um ladrão/assassino que faz o que faz porquê é bom pra ele. E Michael B. Jordan é o melhor vilão da Marvel. Ele é intenso, sem piedade, tem sangue nos olhos, uma trilha que o completa enquanto personagem, e ainda se inspirou no Zé Pequeno de Cidade de Deus para compor seu vilão. Como não amar esse cara?! Mas, o mais importante, seu personagem tem MOTIVAÇÃO, o que falta na maioria dos vilões que Hollywood tem nos dado. Motivação esta que por vezes nos faz entender e até concordar com seus pensamentos/planos. E quanto ao protagonista, Chadwick Boseman entrega um herói muito promissor. Ele é engraçado na medida certa, é sério quando é necessário, é esperto, sabe da responsabilidade que tem como novo rei de seu país e tem consciência de que a inércia de seus antepassados para com o cenário mundial precisa chegar ao fim. Além de ser mais rico que o Tony Stark, ele é mais atraente também. Enfim, é um personagem em construção, e que bom que teremos bastante tempo para entendemos o pantera negra assim como ele está se autodescobrindo.

No mais, pantera negra é um filme singular desse universo que tanto amamos. E será uma honra para mim, ver o futuro de Wakanda e seu povo no cinema. Eu adorei!