Desde o anúncio de que Turma da Mônica ganharia um live-action, muitas pessoas ficaram preocupadas com o que poderia ser feito, pois existia ali a difícil tarefa de adaptar e respeitar uma obra bastante conhecida e aclamada pelo público a mais de 60 anos. Meses depois, fomos apresentados as primeiras imagens do que seria a adaptação da graphic novel Turma da Mônica: Laços, e daí em diante, as expectativas foram aumentando e se mantiveram até o dia do lançamento do filme, onde todas essas expectativas foram atendidas com maestria.

Baseada na HQ homônima dos irmãos Vitor e Lu Cafaggi, o filme tem um ar de uma aventura dos anos 80, com influências de filmes como Os Goonies e Conta Comigo, mostrando a turminha do Bairro do Limoeiro em uma missão para resgatar Floquinho, o cachorro do Cebolinha, e a escolha dessa história para os cinemas nos entrega uma trama mais madura dos personagens e traz diversas homenagens ao universo de Maurício de Souza para as telas, conseguindo agradar todas as idades, sejam elas as crianças que estão no cinema como também o público mais adulto que acompanha os quadrinhos até hoje.

O roteiro de Laços busca adaptar a mesma história vista na graphic novel dos Cafaggi, mas também adiciona algumas cenas no meio do filme que mostram um pouco mais de personagens pouco explorados na história original (como o vilão e os pais dos personagens). Ao mesmo tempo em que o roteiro acrescenta esse tipo de informação na trama, ele também adiciona uma cena com o Louco (Rodrigo Santoro), que não aparece no quadrinho original, mas que é usado nessa versão para mostrar a um determinado personagem um pouco mais sobre a importância da amizade da turma em sua vida.

A direção de Daniel Rezende (Bingo: O Rei das Manhãs) é um dos pontos altos do longa, pois o diretor realmente se empenhou para fazer com que todos os personagens do filme fossem adaptados de forma que a audiência acreditasse que um universo tão cartunesco e com personagens tão icônicos fizesse parte do nosso mundo e fossem aceitos na telona, com um exagero de cores e com milhões referências tão interessantes como a do guarda-roupa da Mônica estar repleto de vestidos vermelhos como é visto nos quadrinhos ou até mesmo com o personagem Piteco que é visto logo no começo do filme. E toda essa crença de que aquilo mostrado no cinema é real é visto de forma fenomenal na caracterização do próprio Bairro do Limoeiro. 

O cenário nesse quesito se faz firme, mostrando um ambiente que remete um pouco dos anos 60 que foi criado pelo próprio Mauricio de Souza. Para recriar o bairro, o cuidado com cada uma das casas e com o figurino merece destaque, pois cada uma das paredes e das cores das roupas usadas pelos adultos e pelas crianças refletem o que os espectadores já se acostumaram nos gibis, trazendo os traços que identificam seus respectivos donos, e é justamente neste quesito que os personagens ganham vida e destaque.

E quando falamos dos personagens, não tem como ficar sem elogiar as performances dos protagonistas mirins. Dirigir crianças em um filme é uma tarefa complicada para muitos diretores, mas parece que a produção de elenco do filme junto a Daniel Rezende chegaram a perfeição ao trazer Giulia Benite (Mônica), Laura Rauseo (Magali), Kevin Vechiatto(Cebolinha) e Gabriel Moreira (Cascão)  para esse filme. Cada uma delas conseguem entregar performances encantadoras do começo ao fim, e todas conseguem trazer as personalidades de seus personagens pra tela da forma mais fiel possível. 

Conseguimos ver a força de Mônica, a fofura e a fome de Magali, a teimosia de Cebolinha e todo o deboche de Cascão em tela durante o filme inteiro, e é possível ver que esse elenco tem um futuro promissor pela frente.

Giulia Benite se destaca como uma dessas promessas imediatamente ao mostrar que sabe retratar não só a força sempre notável de Mônica, mas também outros sentimentos que a fazem tão querida pelo público, pois a menina mais forte da rua nem sempre é tão durona como aparenta, mas está sempre disposta a defender seus amigos. Em contrapartida, Kevin Vechiatto entrega um Cebolinha que rouba a cena diversas vezes - até porque o personagem é o que tem mais destaque na história - ao mostrar uma criança bastante entusiasmada com seus planos, mas que precisa saber lidar com seu ego que sempre o leva para o caminho errado. Laura Rauseo transmite toda uma doçura para sua performance como Magali, com o seu humor bem mais sarcástico do que o de seus colegas de cena, e a forma como a atriz se impõe ao retratar o seu vício por comida gera algumas das cenas mais engraçadas do longa. Já Gabriel Moreira apresenta um Cascão esperto e curioso, e acima de tudo, bastante leal aos amigos que tem, e mostra um humor físico que diverte ao mostrar seu medo por água em tela, servindo como um dos principais alívios cômicos na trama.

Turma da Mônica: Laços é uma clara homenagem a uma das maiores obras da cultura brasileira, conseguindo marcar o cinema nacional ao mostrar uma trama repleta de carisma e fidelidade ao seu material fonte e respeitando as personalidades de cada um de seus personagens, fazendo as crianças a se apaixonarem por esses personagens tão consagrados e levando os espectadores mais antigos de volta ao passado da maneira mais emocionante possível.