Sessão da Tarde virou um sinônimo de títulos que podem facilmente ser assistidos por toda a família, na sala de casa, com a pipoca no meio e o controle longe das mãos, afinal, não há do que precaver as crianças. Lagoa Azul, Click e outras obras marcaram a programação das tardes na Globo. Confesso que fui nu assistir King Richard: despido de qualquer conhecimento sobre o personagem em questão e muito menos do mundo do tênis. E bom, isso foi o suficiente para me prender do começo ao fim e finalmente achar o próximo À Procura da Felicidade, Um Sonho Possível ou Intocáveis — tomou vida bem à minha frente um verdadeiro filme de Sessão da Tarde —; porém redefinido para as fórmulas atuais, trazendo aspectos e críticas sociais extremamente necessárias para a sala de casa. 

King Richard narra a biografia das supercampeãs Serena e Venus Williams, e tudo se passa pela visão de seu treinador e pai (repare bem na sequência) senhor Richard Williams, e aí que mora a linha tênue entre o charme da obra e seu grande defeito. Histórias de superação no esporte são sempre empolgantes e enchem nossos corações de esperança. O roteiro tem isso lado às questões raciais como principais temas a serem abordados, contudo como tudo vem a se desenvolver que não é ideal. A história anda nos primeiros minutos até o meio do filme se arrastando em um formato já conhecido, demonstrando momentos de brilho.

Os aspectos Sessão da Tarde começam com a família das irmãs, que na obra é mostrada como um alicerce perfeito e quase inabalável. A relação de todos decorre tão bem que inibe quem busca o drama familiar. É a plasticidade totalmente contestável. E isso também ocorre com a própria jornada de Richard como treinador e também como pai. Sim, ele treinou as duas maiores atletas de tênis de todos os tempos porém a obra por vezes coloca isso como um conhecimento místico ou sobrenatural de Williams. Sua fé e seus métodos não são colocados realmente em check em algum momento. Por isso, vemos Serena e Venus apagadas e neutralizadas, e isso faz muita falta no desenvolver da história e como criamos laços com ela. Não é preciso ser fã das tenistas para desejar ver mais delas, verdadeiramente, na obra.

Esse sentido opaco também é adotado em partes técnicas, pois apesar de ter uma montagem competente e takes que valorizam os movimentos reais do esporte, as cores e a direção de arte são secundárias (até demais). A trilha sonora da incrível Beyoncé só aparece em um momento do filme, mas já é o suficiente para emocionar. A direção de Reinaldo Marcus Green é realmente interessante, pois dá vida a um personagem carismático que é Richard Williams. Mérito vem igualmente de Will Smith que traz um dos papéis mais diferentes de sua carreira. Os pré-jeitos são ótimos e te passam um ar autêntico, que se choca com a camada fictícia das irmãs — está aí um dos grandes contrastes. 

Um dos pontos fortes do roteiro é o fator social. Richard enxerga toda a sua carreia muito além do dinheiro e da fama, tem-se ali um símbolo vivo dentro de um esporte extremamente elitista. Esse fervor, a chama da mudança, é leve até queimar muito bem no decorrer da trajetória. Essa abordagem em conjunto com a dose de esperança e fundamento de luta - superação - vitória traz um longa empolgante, emocionante e gostoso de assistir apesar de seu roteiro cansar a certo ponto. Como Sessão da Tarde traz novos aspectos, levando críticas sociais ao ambiente familiar de forma mais natural e isso é muito importante. Porém, como espécie de biografia de esportistas, apesar de seu conceito ser em Richard, deixa as estrelas mais brilhantes do céu sob uma nuvem densa na frente. 

Não há espaço para alguém além de Will Smith brilhar. Todas as partes verdadeiras da história são mais interessantes que as criadas pelo roteiro — e isso em conjunto com a atuação do pai treinador são os grandes trunfos. É impressionante ver que quase tudo aquilo foi real. Desde o planejamento de 78 páginas antes das filhas nascerem, até o afastamento delas de torneios de forma estratégica, como também o contrato de US$ 3 milhões da Nike negado, dá ao espectador aquele sentimento que carrega o cinema para frente, de que a vida é um grande filme. Nesse quesito, de abrir portas para Richard como um gênio do gueto, a película tem sucesso também. King Richard: Criando Campeões é uma boa obra para a Sessão da Tarde e introduzir a paixão do tênis no coração de quem assiste, mas peca em quesitos importantes. Porém definitivamente esse é a grande chance de Smith levar o tão sonhado Oscar para a sala de casa. 

Vocês gostariam de ver algo mais focado na trajetória pessoal das irmãs? E