Dizer que Agatha Christie é um prato cheio para os fãs de romances policiais é chover no molhado. Melhor dizendo, seus livros funcionam como um prato de entrada: são histórias clássicas e essenciais, que introduzem o leitor no universo do "quem matou?". Trata-se, não à toa, de uma das autoras mais vendidas do mundo! Suas tramas já foram adaptadas para o cinema, teatro e televisão centenas de vezes; agora, observamos o movimento de retomada às telonas!

A primeira trama resgatada, em 2017, foi Assassinato no Expresso do Oriente. Agora, quatro anos e meio depois, temos o mesmo roteirista e diretor embarcando em Morte no Nilo. Diretor que, por sinal, arrisca pela segunda vez dar vida ao maior personagem de Agatha: o detetive belga Hércule Poirot.

Como de costume nas histórias da autora, estamos diante de figuras ricas, dúbias e mentirosas. O cenário, que no geral se resume a mansões no interior da Inglaterra, dá espaço ao Egito. A ocasião? Linette (Gal Gadot), uma milionária recém-casada e seus convidados, comemoram sua lua de mel, com direito a um hotel de luxo, um passeio no rio Nilo e uma visita às pirâmides locais. Tudo provavelmente terminaria em pizza, não fosse o fato de Linette ter se casado justamente com o ex da melhor amiga (Emma Mackey, de Sex Education).

Quando Jackie interrompe a festa da antiga melhor amiga, as tensões se estabelecem. De repente, Linette se vê cercada por todos os lados quando revela a Poirot (um dos convidados), que não confia em nenhuma das pessoas a bordo. O medo de ter sua fortuna cobiçada pelos amigos e família lhe tira o sono, e o único respingo de alívio parece mesmo o novo marido (Armie Hammer). 

O enredo segue interessante do início ao fim, e a solução (ainda que previsível para os detetives de plantão) segue condizente e inevitável. No entanto, há pedras no trajeto: a primeira morte (sim, haverá uma pilha de corpos) só ocorre após a primeira hora de filme. Isso não necessariamente seria uma questão, não fosse talvez a ausência de desenvolvimento dos coadjuvantes e de suas relações com os protagonistas. Até o momento do assassinato, todos soam vagos, estando ali com a única função de preencher a cota de suspeitos. E se a ideia era desenvolver o elenco após o crime, o vento tratou de carregá-la... Algo que, infelizmente, acaba por tornar a resolução do crime ainda mais óbvia.

Mas quando a chacina tem início, o roteiro dá uma bela guinada! A sensação de que todos podem ser culpados e vítimas assola o espectador até a revelação final, onde o detetive (como de praxe), desmascara o assassino. Este, por sinal, é o grande brilho do filme. Seu texto é sempre regado a humor, uma vestimenta que lhe cobre o vazio e a solidão. O jeito invasivo, essencial à sua personalidade detetivesca, está mais onipresente do que nunca! E pela primeira vez, conhecemos sua história, a origem do expressivo bigode, do primeiro amor, etc.

Já a personagem central da história, Linette, é interpretada com certa competência por Gal Gadot... Não fossem os diálogos vagos e certos momentos canastrões, sua personagem teria ganhado a tridimensionalidade da história original. Também é raro vê-la em interação com alguém que não seja o marido e a ex-amiga, o que prejudica e muito o desenrolar da primeira metade da trama. Já Emma Mackey transmite com carisma toda a fúria e solidão de Jackie, enquanto o cancelado Armie Hammer também entrega uma performance de qualidade - ainda que muito de seu tempo em tela tenha sido reduzido, pelos motivos que todos já sabem...

A maquiagem do filme, infelizmente, esboça mais um ponto negativo do longa. Se a intenção era que os tons terrosos no rosto dos atores remetessem ao calor do mediterrâneo, o resultado foi uma sujeira (literalmente) em grande parte do elenco. Mas, ainda falando de direção de arte, temos um incrível navio (construído e filmado em set), explorado com veêmencia pelas câmeras e pelos atores, que parecem sempre se divertir em tela. As paisagens do Nilo são minimamente atraentes; mesmo gravando em set, o elenco também viajou ao Nilo para filmar uma passagem nas pirâmides, na cidade de Gizé. No entanto, fica a estranha sensação de: "estamos diante de uma tela verde o tempo inteiro? É sério?"

Por fim, temos um filme melhor que seu antecessor em, possivelmente, todos os sentidos. O entretenimento como história policial é garantido, ainda que com muitos desgastes no caminho. Para quem quer consumir a trama em sua melhor versão, recomendo urgentemente o filme homônimo de 1978. Diferente do longa deste ano, ele está longe de ser mera diversão.