Muitas vezes nos confundimos com os conceitos de entretenimento e diversão, quando nem sempre um, necessariamente, significa o outro. Fazer alguém se entreter é quase simples em muitos casos, mas chegar ao ponto da diversão é outra história. Na realidade, dependendo do contexto, ambas as sensações podem ser fáceis ou difíceis de serem geradas, principalmente quando tenta-se buscar um sentido para explicá-las.

Sorte de Quem? (2022) é uma maneira de exemplificar que um filme consegue ter um poder promissor de entreter, seja baseado em sua premissa ou no desenrolar da trama, mas isso não significa que possa divertir o espectador, ao menos não da forma que parecia que iria.

Neste caso, o enredo chama atenção de primeira por apresentar uma situação se desenrolando já de início e sem rodeios. As coisas acontecem rápido e são dinâmicas. Rápido até demais, diria… Mas é exatamente esse, um dos motivos, que torna o filme uma produção não tão ambiciosa em seu conjunto geral.

Estamos falando de uma trama em que Jason Segel (How I Met Your Mother) invade uma casa de um casal vivido por Lily Collins (Emily in Paris) e Jesse Plemons (The Power of the Dog e marido de Kirsten Dunst), ou seja, não faltam nomes interessantes e que ajudam a transformar o filme em algo mais, mas é isso e talvez não passe disso. 

A trama existe, mas sua evolução parece apenas um fantasma de algo que poderia realmente ser intrigante e novo.

Isso não significa que um filme, e claro, esse filme, precise ser revolucionário e chocante. Isso, em específico, nunca foi um pré-requisito para a diversão. Aqui, no entanto, ela fica um pouco difícil de ser encontrada.

Fale mal sobre algo importante sempre que puder

Toda aquela coisa sobre incitar a troca de possíveis torcidas, de nós como espectadores, entre quem parecia ou deveria ser o anti-herói e herói é levantada quase que diretamente durante todo o filme, mas também é algo que fica explícito e não gera um impacto quando se solidifica. Jason Segel é carismático o tempo todo e seu personagem é um pouco cativante, não muito mais que isso.

A evidente crítica personificada em Plemons e seu bilionário odiosamente estúpido são coisas que somam. Toda a sua construção e o texto de “perseguição aos homens brancos nos últimos anos” é pertinente, mas nunca chega a ser impactante como talvez pretendia ser. A nível de comparação, outras recentes produções fizeram essa crítica de uma forma mais concisa e interessante, como a série “White Lotus”, por exemplo, que de certa maneira até se assemelha ao suspense com esse tom de cinismo, mas definitivamente faz isso muito melhor do que vemos aqui.

Mesmo assim, a maneira como o personagem é apresentado consegue trazer uma faísca da diversão que faz falta no geral. 

Não fica claro se isso é apenas pelo talento evidente do ator ou pela proposta do personagem. O fato é que, definitivamente, não é ruim ver a construção de alguém para ser representado como um idiota, sendo um idiota.

Tenha um desfecho promissor mas corra o risco de torná-lo descartável

Que esse é um filme que está dentro de um espectro noir não há muitas dúvidas. O niilismo dos personagens combinado a uma situação atípica onde um crime está envolvido, além de parte da construção estética e sonora, também levantam essa atmosfera até que muito bem. O filme consegue fazer isso se tornar atual e contemporâneo, mas isso não significa que esse estilo de cinema precisa ser seguido em outros aspectos específicos.

O final da personagem da Lily Collins talvez seja um desses. Digo isso, pois suas ações apenas podem parecer surpreendentes para um espectador que dormiu na maior parte do filme porque achou monótono, acordou na cena final com um barulho de tiro ou de um grito, viu o que se seguiu depois disso e de repente pensou que viu um final até que inesperado e por isso, um filme divertido.

Sabe aquela tática clássica de um filme que se perdeu em seu desenrolar tornando-se tedioso e aí no final acontece algo aparentemente chocante ou destoante e quando os créditos sobem começa uma música agitada? Pois é…Não que esse seja exatamente o caso, mas é meio que por aí.

A forma como as ações finais da personagem se encaixam em um possível arquétipo da “femme fatale”, outro componente do estilo noir, é interessante mas não cativa. Isso porque o maior elemento cativante que a trama foi capaz de construir, de fato, é eliminado de uma maneira quase imbecil. Isso fica ainda mais frustrante quando o próprio enredo coloca a personagem, cenas antes, em um contexto onde tudo se resolveria mais facilmente mas sem um grande acontecimento. O resultado é que um grande evento se dá na cena final, mas o impacto dele é completamente diminuído pelas outras possibilidades do que poderia realmente ter sido.

A sensação que fica sobre a personagem é, na verdade, uma dúvida que praticamente vira uma constatação sobre este seu último ato. Algo como: "Precisava realmente disso? Dessa maneira?". Dá pra entender que talvez essa tenha sido a forma de mostrar a sua libertação do mundo em que estava vivendo, mas isso não significa que precisava ser feito de uma maneira tão óbvia e inconsequente, pois as chances dela se dar mal são muito maiores do que se ela tivesse tomado outra decisão minutos antes do final.

Tudo bem que mais uma vez voltamos a questão do gênero do filme trazer toda essa coisa do: "Algo que pode dar errado, vai dar errado", mas nesse caso aqui em específico, uma verdadeira reviravolta instigante talvez fosse outra.

Ao que parece, o conceito da femme fatale foi um mero conceito ou melhor, ideia, feita para se solidificar ao final do filme, mas isso não significa que isso foi realizado com uma profundidade ou lógica pertinente.

O filme de Charlie McDowell tecnicamente consegue unir características suficientes para se encaixar em um gênero, mas não é por esse motivo que se torna tão espirituoso como parecia ser. Apesar disso, não representa exatamente uma perda de tempo completa ou algo parecido e consegue ter um certo frescor em sua proposta, ainda que o seu desfecho não contribua com isso completamente.