Desde sua primeira aparição em 2011, os filmes do Thor são divisores de água dentro do Universo Cinematográfico Marvel.

A introdução do personagem nos cinemas buscava trazer características de obras shakespearianas junto a fantasia dos grandes heróis Marvel, mas os roteiros de suas produções sempre falharam em desenvolver uma história que fizesse esse conceito valer a pena. Entretanto, durante suas aventuras ao lado dos Vingadores, o personagem ganhava pontos devido sua colocação como alívio cômico em alguns momentos da história, e a excelente interpretação de Chris Hemsworth nesses momentos permitiam que os fãs dessem mais uma chance ao personagem nesse universo.

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Foi então que o diretor e roteirista Taika Waititi foi contratado para assumir Thor: Ragnarok, um filme que pretendia trazer todo o drama do apocalipse nôrdico somado a grande Saga do Infinito que estava sendo construída. Contudo, Taika Waititi era conhecido por seu grande talento para comédia, e ele conseguiu implantar sua visão cinematográfica junto a estética dos quadrinhos com tamanha perfeição que nos entregou um dos melhores filmes do personagem, tanto para o público quanto para a crítica (o que não era uma tarefa difícil).

E após estabelecer de vez uma personalidade para Thor nesse universo e com o fechamento da Saga do Infinito em Vingadores: Ultimato, em 2019 tivemos o anúncio de Thor: Amor e Trovão, um filme que prometia trazer uma nova faceta para o deus do trovão em uma história recheada de bom humor, ação, amor e muito Guns N’ Roses, mas seu resultado final foi uma série de questionamentos de como uma boa ideia conseguiu ser tão mal entregue no final das contas.

Nova imagem relaxante de Thor: Amor e Trovão

Começamos a sessão de Amor e Trovão conhecendo um Thor que questiona qual o seu papel num mundo com tantas divindades e heróis, e o que o futuro reserva para um ser tão poderoso quanto ele, e esse primeiro momento da trama é divertido e cria uma expectativa de que teremos uma aventura muito gostosinha de se ver nas telonas. Contudo, toda essa sensação gostosa e divertida muda da água para o tang em frações de segundos, e o gosto que ele deixa ao longo do caminho é esquisito.

É esquisito falar que não curti o humor do filme pois admiro o trabalho de Taika Waititi e o considero um excelente contador de histórias e sabe conduzir o humor muito bem em seus filmes, principalmente quando ele busca pela sátira (aqueles que viram Jojo Rabbit ou qualquer outra obra dele sabem muito bem do que estou falando), mas as decisões tomadas para esse filme são tão esquisitas que transformam não apenas Thor, mas muitos outros personagens do longa em seres destrambelhados até demais, e seu humor elogiável as vezes dá super certo, mas existem momentos em que ele passou do ponto, e me trouxe mais constrangimento quando ele claramente buscava trazer humor na história.

Enquanto o núcleo do deus do trovão traz camadas e mais camadas de um humor pastelão, o filme nos apresenta dois personagens que pretendem carregar o tom dramático dessa história, e eles são respectivamente Gorr e Jane Foster.

Gorr é um dos vilões mais complexos da Marvel nos quadrinhos. Sua história com Thor e os demais deuses traz diversos questionamentos sobre fé e a função das divindades no universo, contudo, a forma como o vilão foi introduzido na história apenas pincela o conceito do que ele realmente é nos quadrinhos, mas a pressa que o filme se mostra em contar sua história prejudica a participação do vilão, que mesmo sendo interpretado por um grande ator como Christian Bale, deixa muito a desejar pelo raso desenvolvimento em tela, transformando um vilão que poderia ser marcante em apenas mais um ser “do mal” que passou pelo MCU e dificilmente fará falta.

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E se tinha uma coisa que impulsionou as expectativas para o alto desde seu anúncio (e subiu ainda mais com os trailers e pôsteres) foi o retorno da sempre excelente Natalie Portman como a Drª. Jane Foster ao MCU, dessa vez assumindo o manto da Poderosa Thor.

O arco escrito por Jason Aaron (mesmo criador de Gorr) é sem sombra de dúvidas a melhor run de Thor em seus 60 anos de história. A história da personagem em sua luta contra o câncer e sua jornada como heroína é um dos arcos mais incríveis de toda a história da Marvel nos quadrinhos, e sua jornada no filme decide ir no caminho contrário de sua origem e tira todo o peso que a história poderia trazer não apenas para Jane, mas para o amadurecimento do próprio Thor Odinson.

Já sabemos que o MCU tem o costume de descaracterizar grandes histórias dos personagens dos quadrinhos com a fraca desculpa de quem estão fazendo isso em prol da narrativa do MCU (como é o caso da Ms. Marvel e muitos outros heróis que você pode ler aqui), mas modificar e reduzir uma história tão importante, bonita e com uma mensagem tão forte como a da Poderosa Thor mostra o pior do Marvel Studios nessa fase quatro, onde eles pensam que qualquer história com a profundidade de um pires pode ser facilmente engolida tanto pelos fãs como pelo público geral.

Natalie Portman é uma EXCELENTE atriz para o drama raso imposto no filme, mas sua participação no longa serve única e exclusivamente para justificar a venda de mais um boneco nos parques da Disney e para dar um fim ao contrato do estúdio com a atriz (até o próximo boleto bater em sua porta).

Thor 4' Easter egg sets up multiple major MCU cameos

As demais participações presentes no longa são igualmente sem sentido para o filme. Existe uma pressa para que todo o filme seja contado em menos de 2 horas que o roteiro e a direção esquecem de desenvolver qualquer outro personagem como a Valquíria de Tessa Thompson ou o próprio Gorr. Ambos não passam de uma ideia jogada que de nada serve para trama (de fato eles servem apenas para vender bonecos, como dito anteriormente).

E muito além desses personagens, qualquer outra participação especial pouco importa de fato para narrativa, seja ele um antigo aliado dos protagonistas ou uma participação que só fará sentido na cena pós-crédito, e nesse caso me refiro a participação do Zeus de Russell Crowe e de qualquer outra entidade divina presente junto a ele. Toda essa ideia dos deuses poderia ser muito bem escrita e traria uma grande conversa sobre fé e o papel dos deuses entre os mortais em todo o universo, mas tudo passa rapidamente como uma piada sobre ego frágil e bundas de fora.

Já há data para o início das filmagens de Thor: Love and Thunder

Comentei no parágrafo acima que a pressa limita grandes ideias do roteiro, e essa pressa é o grande inimigo não apenas do texto e da direção, mas também de todo o Universo Marvel.

Desde 2008 o estúdio veio construindo um arco narrativo que, mesmo com altos e baixos, culminou num épico desfecho nos cinemas em 2019, mas a Marvel pós Saga do Infinito e após a pausa de 2020 parece estar completamente perdida em questão narrativa e traz uma pressa enorme para contar suas histórias que servem apenas como pano de fundo para uma cena pós-crédito que pode ditar a próxima história, e isso é um erro enorme.

Trazer uma história mal montada, com efeitos fracos, trilha preguiçosa apenas para mostrar uma cena pós-crédito enfatiza o que disse anteriormente sobre como a Marvel atual está se auto sabotando pensando que o público não vai notar suas falhas.

Taika Waititi é um ótimo diretor, e ótimos diretores erram ao longo do caminho, e sinto que todo o desastre que esse filme foi ao meu ver não é 100% culpa dele, ou muito menos 50% de sua culpa, pois a produção executiva de Kevin Feige e os demais cabeças do Marvel Studios também são responsáveis por tragédias como essa e como muitas outras nessa fase 4, mas isso é história para outro dia.

Kevin Feige ('Thor: Love And Thunder') Anticipates New Versions Of Thor In  The UCM - Ecumia

Antes de finalizar esse texto, eu gostaria de dar destaque a UM ÚNICO ponto positivo presente nesse filme além da sequência inicial, que é justamente o final do longa, que em meio a tanto desequilíbrio entre gêneros consegue finalizar sua história fechando o arco de amadurecimento do protagonista de maneira decente, e deixa em aberto possíveis aventuras para o futuro, o que ao meu ver parece desnecessário, mas os momentos finais do filme prometem uma side quest para o deus do trovão fora desse Multiverso Marvel.

Thor: Amor e Trovão é um exemplo claro de quando a pressa é inimiga da perfeição, pois o filme tem a ideia de trazer uma bela aventura que mescla comédia e drama, mas que falha miseravelmente quando tenta tirá-la do papel. É um sinal de alerta para uma crise na criatividade da Marvel nos cinemas, e como um fã, espero que eles se corrijam o quanto antes.

Conheça a história da Poderosa Thor nos quadrinhos