Não há resposta simples para a pergunta do subtítulo. Afinal, diversas produções seriadas e fílmicas estão aí para afirmar que: "sim! Existem atores/atrizes que contrabalanceiam todo o desastre do filme com sua presença e atuação!" Você provavelmente se lembra de alguma série que, ao longo das temporadas, se tornou sinônimo de radiação, mas que te eternizou algum personagem na mente. E isso, apesar de tudo, é louvável; construir um personagem não é tarefa fácil. Infelizmente, mesmo que se tenha êxito ao construir o humano, um filme não sobrevive só disso...

Mesmo que Being the Ricardos chame atenção pela proposta biográfica, o roteiro segue um caminho mais torto que o da pandemia de COVID-19. O roteirista e diretor Aaron Sorkin tenta emular o que foram os bastidores de I Love Lucy, uma grande sitcom dos anos 1950 nos Estados Unidos. Ele se vale, sim, de um timing cômico que, quando funciona, é mais preciso que a maioria das comédias mainstream.

No entanto, o uso excessivo de diálogos expositivos soa irritante. Os personagens passam a maior parte do tempo replicando o que o outro acabou de dizer, reafirmando as mesmas ideias o tempo inteiro - em cenas desnecessariamente dilatas. Uma boa dose de texto implícito cairia bem nas mãos de Aaron.

Felizmente, há méritos: Nicole Kidman mergulha de cabeça no tom atrevido e inquieto de Lucy. A personagem é capaz de nos confundir em diversas cenas, sem que tenhamos certeza do que ela imagina ou vai dizer em seguida. No entanto, mais uma vez, a expositividade dos diálogos e a repetição de cenas desnecessárias mina qualquer chance de maior aprofundamento da atriz.

Seria injusto dizer que J.K. Simmons e Nina Arianda não entregam boas performances, visto que, inclusive, boa parte das melhores piadas do filme estão neles. É uma dinâmica que funciona e diverte do início ao fim. O mesmo não se pode dizer do caricato personagem de Javier Bardem, um ator espanhol preso no estereótipo do cubano caliente. São poucas as camadas que o homem recebeu para entregar um trabalho melhor.

Camadas, inclusive, não faltam na montagem do filme: quando finalmente estamos adentrando na época da trama (com a bela direção de arte emulando os anos 1950), a montagem faz o favor de inserir pessoas que participaram da sitcon na época. O recurso soa totalmente gratuito, visto que tampouco se tem uma frequência dessas passagens. Também não se justifica, já que conhecemos Lucy muito mais através de Nicole do que dos relatos.

Para piorar, o recurso de flashbacks consegue não apenas bagunça a linha temporal do filme, como também cortam a tensão da maioria dos eventos. A sensação é de que Adam quis ao máximo manter o suspense para o grande clímas que, infelizmente, não impacta tanto assim. Afinal, se já não sabemos o que diabos o roteiro quer (comédia, autobiografia, drama), como um clímax pode ser interessante? 

As indicações de Melhor Atriz para Nicole e Melhor Ator Coadjuvante para J.K. Simmons são válidas, apesar de eu revirar os olhos com a indicação de Javier a Melhor Ator... Apesar dos tropeços, Being the Ricardos vale para despertar algumas risadas. O segredo é não esperar nada além disso.