Quem teve o prazer de assistir a "O Exorcismo de Emily Rose" e "A Entidade", sabe o marco que estes dois filmes deixaram no cinema de horror. Agora, com o "O Telefone Preto", o diretor Scott Derrickson tenta repetir o feito. De certa forma, conseguiu! O longa já é considerado um sucesso estrondoso de bilheteria, regado à inúmeras críticas positivas. E, de fato, são várias as qualidades da trama! 

Para começar, a história é baseada num conto de Joe Hill! "Quem?", você se pergunta. Ninguém menos que um dos filhos de Stephen King, o reizinho do terror - dificilmente, então, veríamos uma história de má qualidade. Em segundo lugar, a adaptação para as telonas acertou em cheio na ambientação! A trama se passa em Denver, capital do Colorado (EUA), no fim dos anos 1970, e a sensação de um ambiente quente, gasto e abandonado é perceptível desde o começo, o que ressalta ainda mais o perigo da época... um sequestrador de crianças! 

A mais recente vítima do maníaco é Finney, um adolescente de 13 anos que sofre de todos os males possíveis. Órfão de mãe e criado por um pai alcóolatra, o garoto é vítima de bullying na escola e a única pessoa em que pode confiar é mesmo sua irmã (a incrível Madeleine McGraw). A relação dos dois é, de longe, o maior acerto do longa, ao lado da belíssima fotografia sépia e da direção competente de Scott. A dupla transborda cumplicidade e afeto, num dos melhores relacionamentos fraternais do cinema. No entanto, esse elo é quebrado quando Finn é rapatado!

Medroso, porém esperto, o garoto tenta escapar do vilão de todas as formas, interpretado aqui pelo incrível Ethan Hawke! Para completar, ele recebe uma ajuda um tanto quanto... inusitada. Diferente de outros suspenses de cativeiro, as alternativas de fuga aqui não são descobertas pela vítima, e sim pelas outras vítimas (já mortas). Elas se comunicam com o garoto através de um telefone preto estragado, revelando detalhes importantes do cativeiro e do sequestrador. Ainda que o sobrenatural seja a proposta do filme desde o princípio, ainda creio que seria mais interessante ver Finn amadurecendo sozinho, experimentando os riscos por conta própria sem receber dicas a todo instante.

Meu incômodo infelizmente aumentou durante a 1h40 de filme, pois este não é o único método sobrenatural utilizado. Temos ainda Gwen, irmã de Finney, que sonha com detalhes importantes dos sequestros da cidade. Portanto, como se não bastasse se apoiar num recurso fácil (o qual, deixando claro, considero bem mais interessante que o do telefone preto), o longa ainda traz de volta os espíritos dos falecidos garotos.

A coisa torna-se ainda mais inverossímil quando não se vê Finn questionar o "absurdo" daquela situação toda. Por fim, tudo acaba por tornar a experiência do filme previsível pois, com tantas artimanhas e rampas de acesso, fica difícil crer em outro final que não seja o feliz. A última cena, por sinal, é completamente anticlimática, fugindo de toda a construção psicológica que o filme vinha traçando.

Por outro lado, o próprio vilão tem pouco tempo de tela, justamente pela quantidade de informações que Finn adquire para evitar confrontos diretos. Há quem pense que teremos um filme de origem em breve (o que é possível, dado em conta a áurea de mistério em torno do vilão), mas só o tempo dirá. 

Apesar do que considero alternativas fáceis de roteiro, o longa tem sim excelentes cenas! O suspense está sempre presente, tornando a trama enxuta e focada apenas no essencial. O protagonista dá conta do recado, mas o brilho fica mesmo por conta da Gwen (a irmã), que é o completo oposto do irmão. Corajosa, assertiva e voluntariosa, ela luta incansavelmente por respostas e não desistirá enquanto não encontrar o irmão. A exaustão, no entanto, à leva até mesmo a criticar a existência de Deus - em uma das cenas mais hilárias que já vi na vida. A dinâmica dos dois personagens e o entretenimento já valem a experiência, ainda que não eliminem a sensação de "poderia ser mais"...