A mais nova aquisição da Netflix, “Você Nem Imagina” (Half of It) já chegou chamando atenção, primeiramente foi criado uma expectativa com relação à trama que foi anunciada como um romance para a comunidade LGBTQI, obviamente isso causou uma espécie de alvoroço. Sabemos que o serviço de streaming aposta bastante em romances adolescentes, o que faz bastante sucesso, basta ver a popularidade que tem “Para todos os garotos que já amei” e “Por lugares Incríveis”. 

Pois bem, já início essa crítica informando que estávamos errados, a comédia romântica avisa de imediato que “não é uma história de amor” e muito menos de um final feliz. Mas nem de longe isso tira a beleza da trama, ao contrário, mostra de forma bastante assertiva uma história real, sem muito mamão com açúcar ou coisas fantásticas, apenas situações que facilmente você se veria nela.

Obviamente a trama tem alguns clichês narrativos bem típico do gênero: tem narração em off, frases de efeito e personagens que vão se descobrindo ao longo de suas jornadas. O diferencial está justamente em como tudo isso é passado de forma realista, e por se tratar de um filme para adolescentes, a narrativa justamente se propõe a trabalhar para a juventude atual, com a dinâmica de assuntos reais para essa sociedade.

Ellie e Paul, Amizade e Aceitação!

A trama gira em torno do triangulo principal, Ellie Chu (Leah Lewis) uma garota de 17 anos, que está em um momento de auto descobrimento da sua sexualidade, além disso ela enfrenta o distanciamento do pai, que ao perder a esposa entra em depressão. A personagem a um primeiro momento é bastante solitária, chegando a ser alvo de bullying na escola devido ao fato de ser asiática. Devido a tudo isso ela se mostra bastante reclusa para demostrar seus sentimentos ou desejos. Na outra ponta temos o personagem Paul (Daniel Diemer) que é o completo oposto. Divertido, agitado e radiante, apesar de também ter seus conflitos, como impor sua vontade para a sua família, ou chegar na garota que eles gostam, mas tudo isso não afeta sua personalidade solar, o que causa bastante sintonia quando ambos estão juntos em cena, um completa o que falta no outro.

Aster tentando descobrir quem ela realmente é.
 

Como o centro desse triangulo, temos Aster Flores (Alexxis Lemire), descrita por todos como a mais bonita da escola, a garota perfeita, ela também tem conflitos sobre quem ela é e o que ela quer. Aster chega a ser uma das personagens mais conflitantes, pois tanto Chu como Paul sabem bem quem são, mas ela se encontra perdida em uma canoa deixando apenas ser levada pela correnteza.

Um fator bastante sagaz na história é o fato de tanto Ellie quando Aster serem imigrantes, a primeira sendo chinesa e a outra latina, porém a forma que é mostrado ao público é algo a se pensar. A asiática é motivo das piadas e do bullying e a latina é sinônimo de beleza, o ponto que nos faz observar a nossa realidade não? Essas sutilezas e críticas sociais são muito bem-vindas e não passam despercebidas.

Ainda há espaço para uma leve critica em relação à comunidade LGBTQI e a religião. O que é bem notado quando o personagem Paul descobre a que Ellie gosta da mesma garota que ele e o mesmo fala sobre como isso é pecado. Também vimos um pouco quando Aster afirma que já chegou a questionar a sexualidade, mas a questão não foi a frente devido a família extremamente religiosa. Apesar de toda a profundidade desses assuntos a trama trás tudo isso de forma bastante leve e sutil.

Muito mais que o romance o auto descobrimento.

Outro ponto positivo é como o “amor” é tratado, a maneira real como ele é falado. Estamos acostumados que romances terem amores de tirar o folego, de ir la e fazer acontecer, por que para o amor nada é impossível, o que na verdade sabemos que não é assim. Como dito pela filosofa Ellie Chu: “O amor é complicado, horroroso, egoísta e... ousado. Não é encontrar sua metade é tentar, se esforçar e falhar. O amor é estar disposto a estragar seu quadro bom, pela chance de um ótimo.”

O filme realmente não se trata de um romance e sim da jornada, de primeiro você se descobrir, se encontrar, se entender para depois, somente depois, se aventurar a aprender o real significado do amor.