Vem a famosa lavagem de roupa suja. Talvez o casal chegue a um acerto de contas, mesmo após tanto "sincericídio". Talvez as feridas sejam profundas demais pra cicatrizarem sozinhas. O que acontece, afinal, quando se deixa o diálogo sempre pra depois?

No mais novo filme da NETFLIX, o casal Malcolm e Marie nos conta sua história. Ele, um diretor de cinema que acaba de produzir sua obra prima. Ela, uma ex-atriz e viciada em drogas. Sentiu a familiaridade? Não por acaso. Afinal, Zendaya interpreta um papel bem parecido na série Euphoria (HBO). Mas as semelhanças não param por aí... Tanto série quanto filme possuem o mesmo roteirista e diretor: Sam Levinson. Quer dobradinha melhor que essa?

Graças ao roteiro repleto de diálogos intensos, assistimos Zendaya (ex Disney) e John David Washington (O Infiltrado na Klan) brilharem no palco. De fato, as atuações são o grande trunfo do filme! A fotografia granulada e em p&b também merece prestígio, bem como os enquadramentos e a relação de intimidade que criamos com o casal. A trilha sonora não fica por último, trazendo jazz e mais charme ainda à estética retrô do filme! 

Já nos primeiros minutos, descobrimos que é a noite de estréia do filme de Malcolm. O anseio pelas críticas é alto, bem como a certeza do cineasta de que atingiu o ápice em sua carreira. Mas o que deveria ser a melhor noite de sua vida, logo se transforma em um momento decisivo quando Marie, a esposa, diz o que realmente pensa da situação.

É então que o embate se inicia. Em primeira instância, é natural que busquemos um grande culpado para os conflitos do casal. Seriam Malcolm e sua personalidade megalomaníaca os causadores de tudo? Ou talvez Marie e suas emoções reprimidas, que mais parecem um vulcão adormecido? Torna-se impossível identificar o início deste ciclo de mágoas.

Até mesmo em cenas carinhosas, o casal trava uma eterna luta pelo poder. Ambos possuem uma imensa vontade de serem ouvidos, mesmo que isso signifique humilhar e ser injusto com o outro. Quando a raiva é alimentada ao longo de anos, é difícil lembrar o que de fato a originou.

Durante as duas horas de filme, viramos uma bolinha de ping pong, cada hora sendo arremessados para um lado da razão. Não que isso seja algo ruim, ainda que Malcolm e Marie possam causar irritação em algumas cenas - a falta de mais momentos de silêncio também pode gerar desconforto. Mas, no geral, o processo de desvendar os dois artistas é hipnotizante. Cada qual com sua verdade, eles transitam por todos os papéis que se pode ter em um relacionamento.

Temáticas como o vício em drogas e o ego do artista também são pontuadas. Malcolm, por exemplo, não consegue lidar com críticas. Lhe dói saber que, quando expõe sua arte ao mundo, está sujeitando-a à milhares de interpretações. Já para Marie, a sensação de ser esnobada enquanto atriz e esposa é o que a corrói profundamente, além de não crer no próprio potencial de superar seu passado.

Para os fãs de "Nasce Uma Estrela", "História de um Casamento" e "Euphoria", é bem provável que Malcolm & Marie seja a pedida certa! Produzido logo no começo da pandemia, com elenco e equipe reduzidos, este longa dramático merece sua atenção.