A década de 60 foi umas eras mais conflituosas da humanidade. Ao redor do mundo conflitos surgiam, no final dos anos 1960, a américa latina lutava contra as ditaduras instaladas, em Paris, os estudantes saiam às ruas. Nos EUA, explodia a luta pelos direitos civis. E na Irlanda do Norte (que pertencia Reino Unido) a guerra entre católicos e protestantes começava a esquentar. E é nesse cenário que se passa a trama de Belfast.

Mais precisamente, em 1969, o novo filme de Kenneth Branagh é contado. Período esse explodem os conflitos de protestantes contra católicos, que iriam atingir seu auge em 1972, no massacre que ficou conhecido como ‘Domingo Sangrento’. Esse conflito inspirou a música da banda irlandesa U2, ‘Sunday, Bloody Sunday’.

Cena do filme Belfast

A Trama

Estamos em 1969 e historia é contada através dos olhos de Buddy (Judy Hill), um garoto brincalhão e sonhador, que vive no norte de Belfast, um distrito majoritariamente protestante, mas ainda com algumas famílias católicas. Ele vive de uma família de protestantes, na cidade de Belfast. Ele vive com sua Ma (Caitríona Balfe), seu irmão mais velho Will (Lewis McAskie) e seu Pa (Jamie Dornan) que se divide em morar com a família e trabalhar na Inglaterra.

O filme se inicia, mostrando a pacificidade do bairro, onde crianças brincam na rua juntas e vizinhos conversam, até que minutos após da retratação dessa paz, uma chuva de coquetéis Molotov inflama o bairro amigável onde católicos e protestantes vivem amigavelmente lado a lado. 

A violência explode quando os duros sindicalistas exigem que os católicos saiam fora de suas casas, queimando-as e atacando sem nenhum pudor. Nesse momento as famílias daquela rua se unem e montam barricadas para se proteger contra a retaliação republicana – um gangsterismo que exige pagamentos de famílias locais, impostos pelo durão Billy Clanton (Colin Morgan).

Nesse momento, o valentão Billy Clanton tenta atrair a família protestante de Buddy para sua campanha para "limpar a comunidade" de seus residentes católicos, o patriarca da família se recusa a participar daquela barbárie.

Porém os problemas impulsionam o conflito central do filme, já que os pais tem que tomar a decisão mais difícil de suas vidas: eles deixam Belfast e a única casa que já conheceram, ou arriscam a segurança de seus dois filhos pequenos? Eles são uma família protestante que vive em uma área protestante majoritária, mas coexiste pacificamente com seus vizinhos católicos. Mas, para alguns, não tomar um lado é o mesmo que tomar um lado. 

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Belfast é a biografia do diretor!

Apesar da trama parecer pesada, o historia se recusa a formar na militância ou em algo extremamente politico e profundo, em vez disso, vemos Buddy jogar bola com seus primos, conquistar uma colega de classe bonita, assistir "Star Trek" e westerns na televisão, e passar tempo com seus amados avós (Judi Dench e Ciarán Hinds). 

A partir de suas próprias experiências, Branagh muitas cenas nostálgicas e sentimentais sufocadas com algumas das canções mais quentes de Van Morrison, são criadas. Visitas familiares a filmes como "Chitty Chitty Bang Bang" (1968) adicionam fantasia à vida de Buddy e dá uma pista de sua futura carreira. Eles também oferecem uma fuga de um conflito que ele não entende e seu diretor se recusa a elucidar. Trechos do noticiário televisivo ficam em segundo plano, mas os crescentes problemas que destruiriam o país não são a história que Branagh (cuja família se mudou para a Inglaterra quando ele tinha nove anos) quer contar.

Então, Belfast é, em certo sentido, um conto profundamente pessoal, é também uma história mais universal de deslocamento e desprendimento.

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Fotografia

Belfast é um filme sobre Sentimentalismo, nostalgia e melancolia  e muito desta sensação é fundamental pela forma pelo qual o filme foi filmado. Sendo ele todo em preto e branco digitalizado (apenas as cenas dos filmes são coloridas, como que fazendo um contraste entre o colorido do mundo da fantasia e o duro mundo sem cor da realidade), somos guiados pela fortes interpretações e movimentações durante toda cena.

Quando Ma (Caitriona Balfe) se senta em sua porta para descascar batatas para o jantar, o que notamos é a luz suave da tarde dançando em sua pele luminosa e cachos morenos.  Quando Pa (Jamie Dornan), quadrado de mandíbula e ombro, caminha em direção a casa depois de um feitiço trabalhando na Inglaterra, a câmera atira nele como um herói que retorna. Ou quando em meio a chuva de coquetéis Molotov uma câmera giratória transmite a confusão e o terror de Buddy, podemos sentir que a filmagem e preto e branco é mais um personagem da trama.

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Aqueles que ficam, aqueles que vão embora e aqueles que se perdem

Uma questão que premeia o filme diz respeito à necessidade de encarar um processo de migração. Deslocamentos territoriais sempre fizeram parte da história da humanidade, principalmente quando envolvem perseguições étnicas ou religiosas, mas isso não faz ser menos doloroso. E é assim que vemos o sofrimento da Ma, ela pensa e deixar tudo para atrás, tudo que transmite um sentimento de segurança para ela.

Como esse filme é um auto biografia do diretor, que também migrou para Inglaterra aos 09 anos, temos presente dento do filme uma sensação de agradecimento por tudo que foi vivido naquela localidade. Branagh não tem intenção de se aprofundar na temática dos conflitos, mas o fantasma do êxodo ainda reflete nas ações dos personagens. 

Legenda

Veredito

Aqui está um calor e uma ternura terrível para o filme elegético e autobiográfico de Kenneth Branagh sobre o Belfast de sua infância: brilhantemente escrito, lindamente representado e filmado em um monocromático. Alguns podem achar que o filme é sentimental ou que não está suficientemente de acordo com o modelo de raiva política e desespero considerado apropriado para dramas sobre a Irlanda do Norte. Mas nada disso foi escolhido ao acaso, Branagh usa o ponto de vista da infância para avaliar o mundo dos adultos, e suavizar uma temática de dor e sofrimento.

Kenneth Branagh tem em mãos um de seus trabalhos mais íntimos, demonstrando um olhar sentimental a respeito do passado e como suas experiências anteriores moldam a subjetividade de cada individuo.