Um livro best-seller, um elenco estelar e um premiado diretor (Destino de uma Nação, Anna Karenina, Orgulho e Preconceito). Com uma mistura dessas, é provável que o bolo saia impecável do forno. Mas sem um bom roteiro, não há possibilidade alguma de ocorrer fermentação. Os elementos permanecem ali, jogados, sem nada que os una fielmente. O que sobra, então, é um filme vazio, murcho e caótico.

O longa não é, de todo, ruim. A primeira metade é realmente interessante! Somos apresentados à Anna Fox, uma psicóloga divorciada, sem contato com o ex-marido e a filha pequena. Para completar, ela desenvolveu agorafobia: não consegue sair de casa, restringindo-se aos seus filmes antigos e boas taças de vinhos (sempre acompanhadas de deliciosos medicamentos). Há como piorar? Bem... como sempre, sim. Anna possui um hábito insaciável de espionar os vizinhos, e quando ela presencia um aparente crime, todos começam a questionar sua sanidade.

Como fã de thrillers psicológicos, vi o livro como um achado e tanto! Mesmo que lento, o romance é narrado em primeira pessoa, nos levando diretamente à perspectiva de Anna, uma protagonista deliciosa! Damos risadas de seus comentários irônicos (uma das suas maiores armas contra a solidão), entendemos o que a separou da família, e ainda a acompanhamos num grupo de apoio on-line (núcleo essencial no desenrolar da trama). Somando à galeria de personagens, temos o estranho Ethan, o filho adolescente dos vizinhos. Quando ela se torna confidente do jovem, um bizarra relação se inicia, repleta de camadas e segredos de família - os pais do garoto também são melhor aproveitados, ainda que mantidos à certa distância do leitor. As sessões com o terapeuta, bem como as ligações com marido e filha, também são uma constante na rotina de Anna.

Mas, afinal, de quê adianta tanto material de base? Tudo isso se torna inútil, do momento em que a intenção do roteirista parece ser exclusivamente esvaziar seus personagens. Gary Oldman e Juliane Moore, ainda que brilhem em suas raras cenas, mais parecem figurantes neste filme que, a todo momento, só parece querer dizer uma coisa: "não confie em Anna. Não confie em Anna. Não confie em Anna."

Durante a análise, é importante lembrar que estamos diante de uma refilmagem... Ao exibirem a primeira versão do filme para uma audiência menor, os produtores foram alertados quanto ao roteiro bagunçado e vazio. No entanto, parece que de nada adiantou trazer o elenco de volta ao set. A montagem continua confusa, os cortes nas cenas são irritantemente abruptos, os efeitos sonoros desnecessários e Anna Fox, a protagonista, é pouco aprofundada em meio a tantos traumas interessantes. Além disso, por vezes a fotografia remete ao trash, contando com efeitos especiais dos mais risíveis e toscos. Isso não seria necessariamente ruim, caso a proposta de A Mulher na Janela casasse com essa estética - o problema é quando direção e roteiro se levam tão a sério, que tentam passar uma grandiosidade que nunca esteve ali. A potência ficou na teoria.

Ao menos em meio à tanta dicotomia, a talentosa Amy Adams tenta arrancar as camadas de sua personagem, junto com o restante do belo elenco. E, para ser justo, algumas cenas transmitem sim boas doses de suspense (bem como as homenagens ao clássico Janela Indiscreta, de 1954) mas não espere nada além de puro entretenimento. Caso não tenha assistido ao filme e curta literatura, dê preferência ao livro! É um percurso que vale a pena, o melhor caminho para se deliciar com as reviravoltas da trama e entender a fundo a motivação de cada personagem. Já o longa, infelizmente, segue ladeira abaixo rumo ao esquecimento. Talvez seja para o melhor...