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Assista ao trailer: Dumplin' Trailer Legendado Português
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É um alívio que as novas produções destinadas ao grande público estejam cada vez mais concentrando-se em desenvolver obras conscientes socialmente e que tratem de assuntos delicados de maneira responsável e tentando (na maioria das vezes) ser atual e não dogmática, embora no caso dessa última característica, as produções as vezes meio que precisam ser um pouco, mesmo que de maneira indireta.

Dumplin', o novo original da Netflix, baseado no best seller de Julie Murphy e estrelado por Danielle McDonald e Jennifer Aniston, trata-se de uma produção que tem como premissa direta um discurso sobre aceitação e uma crítica a forma como certos tipos de corpos são venerados por tudo aquilo que envolve a nossa imagem.

O drama que introduz a personagem principal, Willowdean Dickson, é apresentado com a aparente tentativa de nos fazer entender toda a sua questão de ser contra a tudo aquilo que promove ao que se caracteriza como indústria da beleza padrão. Tudo isso é personificado em sua mãe, Rosie, vivida por Jennifer Aniston, a personagem é o recorte perfeito de alguém que viveu dessa indústria e por isso defende essa realidade, ainda que não seja apresentada como uma megera (o que seria muito esperado). O que já traz pontos iniciais para o filme em questão de construção de personagem, pois Rosie, apesar de representar tudo aquilo a qual o filme critica, é simplesmente uma mãe que se preocupa com sua filha no fim de tudo.

Por outro lado, a questão de Willowdean vai perdendo consistência ao longo do filme, não porque se perde a força sobre a questão a qual está sendo tratada (que mantém sua importância) mas na verdade o que incomoda é como a personagem lida com suas situações. Em um dos momentos, parece que estamos diante de uma cena que vai marcar o filme e que isso seria justificável devido a personalidade forte da protagonista, mas no fim, a própria personagem parece não concluir sua missão naquele momento tão importante e fica a dúvida se é ou porquê a atriz não conseguiu nos passar a emoção certa ou simplesmente o roteiro não captou a essência do personagem e do próprio filme em si. Isso não acontece apenas uma vez.

Apesar da sensação de que o roteiro não segue exatamente uma lógica concreta como parecia estar designado, precisamos falar da criação de universo ao que o filme se propõe.

É nesse ponto que a produção ganha destaque. A introdução de Dolly Parton que não só compõe a trilha sonora do filme, sendo inclusive indicada ao Globo de Ouro como Melhor Canção Original com "Girl in the Movies". A cantora serve como uma espécie de ícone que além de dar uma identidade extra a história é também uma figura onipresente que de certa forma ajuda a decidir o destino das personagens principais com suas canções e ensinamentos. Outro ponto forte são as atuações coadjuvantes, com grande destaque para Harold Perrineau que está irreconhecível como a Drag Queen, Rhea Ranged e consegue passar um apelo emocional um pouco mais forte a toda a motivação da protagonista, que talvez não se sustente sozinha.

Como produção voltada para um público forte e em sua boa parte, jovem, o filme cumpre sim um papel de trazer pautas importantes que tornam a história algo que dá para criar uma identificação. É sempre positivo quando um filme nessas proporções, trazendo atores tão reconhecidos e em uma plataforma tão difundida atualmente, resolve trabalhar temas humanos que fogem da perspectiva artificial e batida do que sempre apareceu em obras do gênero. Até mesmo o fato de Willowdean ser uma protagonista errática e muitas vezes até quase incompreendida pelo próprio espectador, revela um roteiro que, apesar de ser responsável e quase metódico em tratar de questões importantes, lembra também que não necessariamente sua protagonista precisa ser um modelo perfeito que personifica essa luta.

Com uma interessante construção de universo, um drama fortemente relacionável e alguns personagens certeiros, Dumplin é uma produção que traz temáticas importantes que geram reflexão em como a indústria de Hollywood enxerga os estereótipos para filmes do gênero e uma narrativa que, apesar de alguns momentos não reconhecer ser ingênua demais, consegue cativar em momentos cruciais para o desenvolvimento da trama.