A ignorância é uma benção. Essa é a analogia ideal que Josh Malerman prega no livro "Caixa de Pássaros", e o filme segue no mesmo caminho.

Uma epidemia de insanidade se espalha pelo mundo. Violência descontrolada, caos, suicídios; cometidos por pessoas normais e sem motivos aparentes. Mortes sangrentas e canibalismo. Mães matam seus filhos, amigos matam amigos. Muitos negam a existência de um problema, vendo todo o ocorrido como uma espécie de histeria coletiva derivada de crenças variadas. Cada qual com seus demônios, cada qual com seu apocalipse. É de fato o fim do mundo. 

Seja o que for a causa dessas mortes, age por meio da visão. Logo, não enxergar é de fato a salvação. Talvez seja uma alegoria da Caverna de Platão, onde a ignorância é sua proteção. 

O filme trabalha com o medo do desconhecido, do escuro. Um medo natural, instintivo. Terror da nossa mente, fruto de quem nós somos. A primordial forma de união entre os seres humanos. Não sabemos seu tamanho, nem sua cor, nem onde ele está, mas podemos sentir, ou pensamos que podemos, e a única forma de sobreviver é não abrir os olhos. 

Caixa de Pássaros nos traz um mundo pós-apocalíptico apresentado pelos olhos de Malorie, personagem de Sandra Bullock. A adaptação do roteiro é de Eric Heisserer, que decidiu trabalhar o longa através de duas linhas temporais que vão se intercalando. Enquanto uma dessas linhas apresenta a jornada de Malorie, junto de Garoto e Garota em busca de um lugar seguro, a outra explora o universo do filme e o caminho trilhado pela protagonista até aquele ponto, no rio. O uso de elipse enriquece o roteiro, que nos leva a construir determinados passos dos personagens ao longo de algumas cenas. Com isso, não perdemos tempo expondo fatos irrelevantes para o decorrer da história. 

A alternância entre as linhas temporais foi muito assertiva para dilatar o suspense que separa os dois blocos do filme, sem confundir o espectador. Sendo assim, um recurso simples e eficaz, que colabora com o andamento do filme. 

Susanne Bier, a diretora, conseguiu explorar muito bem a ameaça dessas tais criaturas, mantendo a essência do livro que trata justamente do medo do desconhecido. Era muito evidente o medo que os fãs do livro tinham em relação a essa adaptação, pois a Netflix poderia muito bem querer evidenciar essa ameaça, dando um rosto de fato ao inimigo. Optou-se então em uma identidade visual trazida na forma de folhas ao vento para mostrar sua proximidade, e isso acaba tirando um pouco do suspense que já é dado pelos sons, vozes de entes queridos ou de pássaros, que dão nome ao filme; mas nada que prejudique a experiência. É apenas uma escolha estética e que no fim se mostra eficaz.

Um dos pontos mais altos do filme é a trilha sonora, que soube muito bem lidar com esse suspense, e trabalha junto com o roteiro para tensionar o espectador e também enganá-lo em falsos alarmes de perigo. Além disso, a trilha como um todo é contida e funciona como uma unidade muito bem acertada, que não usa de trilhas mais comuns (vide canções famosas), e com isso mantém o alerta ligado em quem está assistindo. 

O elenco agrega muito valor ao roteiro. As atuações impecáveis e empolgantes, colaboram para a nossa ligação ao filme, e cada um dos personagens é relevante em alguma forma para fazer a trama seguir e se compor. 

O final do filme junta todos esses elementos em um tom máximo de suspense, e nos prende na poltrona sentindo o drama e a tensão que está na tela. É o momento final, de escolhas, do tudo ou nada, da redenção ou da morte.