Sound of Metal 

Uma grata surpresa

Particularmente, a obra do estreante em longas, Darius Marder, se mostrou uma grande surpresa. Eu realmente não esperava isso — eu digo ISSO — da Amazon esse ano. O que temos diante de nossos olhos é uma obra que dialoga muito com contextos e cenários atuais, mesmo sem se esforçar para isso. Falar sobre mudança, aceitação da realidade e autodescoberta são sempre questões difíceis de se abordarem sem parecer que perderam sua profundidade e propriedades quase que únicas que carregamos pessoalmente durante a vida. Apesar disso — apesar dessa individualidade —, Sound of Metal é tocante e primordial para 2020 e 2020.2 (carinhoso 2021). Para mim, em um momento ímpar de minha vida, fui preconceituoso e crente de algo que não habilitaria minha admiração e, na realidade, voltei emocionado e com um novo filme preferido do ano. As emoções foram vividas e transportadas de maneira única para mim e, creio que, para alguns tantos por esse mundão sofrido a fora.

Contudo, saindo mais do âmbito pessoal, as primeiras impressões de O Som do Silêncio (Sound of Metal) são que, definitivamente, essa obra se trata de música — o nome, a sinopse e o início eletrizante dar a entender isso. E logo após o início estrondoso, entendemos mais sobre a química do casal. Novamente, vinculei a uma obra sobre música, Nasce uma Estrela, onde se conjuga amor, música, sonhos e drogas para se moldar a realidade se viver em um mundo que não te ouve do jeito que gostaríamos (entendeu o trocadilho do ouve? Desculpa, o louco dos trocadilhos aqui).

De fato, a química do casal é um pilar certeiro da obra. O amor que está ali carrega no roteiro a chama de viver do personagem interpretado por Riz Ahmed. Para Ruben, a música — a batera — se torna apenas um pretexto para viver sua aventura de amor com Lou, vivida brilhantemente pela britânica Olivia Cooke. Para o aprendiz de surdo, todas às aquelas mudanças acontecendo tão rapidamente e desestabilizando de forma tão repentina seu modo de vida fora o  suficiente para crises de entendimento dos fatos no mundo que o cerc. Para Ruben Stone, o ritmo já havia parado, só faltava ele deixar bater em cima e perceber no silêncio o que estava diante de seus olhos.

Contém breve spoilers


Antes de ser surdo

Acho que muito há de se falar sobre o antes dos personagens. Logo somos apresentados ao protagonista que, bom,  não é carismático. Perdemos o interesse logo nas cenas que ele se mostra incompreensível com a empatia dada pela sua namorada ao descobrir sua situação. Percebemos logo ali que a surdez de Stone está mais ligada a entender fatos do que propriamente a questão física do não ouvir. O desenrolar da obra dialogo com o público que há questões maiores do que a surdez do ouvido, traz desta forma a surdez da alma.

Em dados momentos, é perceptível a insensibilidade de Ruben, chegando a ser mais realista e palpável nos ver em Lou do que no baterista. Apesar desse desejo, é fácil também ver características totalmente reais nas ações dele. Ao se ver perdendo a audição que, após suas mãos, é o seu principal meio de vida, há o desespero explodindo em seu peito. A partir do diagnóstico da surdez física, dar-se o start para desdobramento da surdez psicológica que ele se encontrava.

O sound design do início da primeira cena é algo realmente único. Há tantas emoções ali que transpiram a paixão de Ruben de não só tocar bateria, mas, como veremos mas para frente, tocar bateria para e com a sua amada. A mensagem é passada de forma subjetiva: a música ao mesmo tempo que acalma a alma de Ruben, machuca seu físico. Ao assistir a cena com um volume bom, equivalente à uma sala de cinema, veremos que, apesar da ótima perfomance, incomoda aquele volume altíssimo estrondando os nossos tímpanos. E era exatamente esse sentimento que o diretor  fez questão de transparecer de forma totalmente sútil e necessária para o futuro entendimento da obra como um todo.

Sound of Metal fala sobre a jornada solitária e silenciosa de uma pessoa que assim como muita gente hoje em dia, vive em bolhas de realidade e não admitem ser tiradas dela. A jornada aqui é sobre aceitação, de si mesmo, como humano limitado; do próximo, na busca de enxergar os bons desejos em suas ações para si e para o coletivo; e de mundo, que como uma história não linear dotada de altos e baixos, às vezes com sentido e na maioria das vezes sem, tem seu início, meio e fim.

O que é o Silêncio?

Para alguns, estar surdo, para outros, a solidão. O primor da obra Original Amazon que concorre à algumas estatuetas é justamente esse: trazer de forma quase que uniforme e perfeita questionamentos sobre viver consigo mesmo e sua própria jornada. Há camadas expostas sobre adaptar-se às mudanças e compreender fatos, autoconhecimento, empatia com o próximo e outras questões menores que são perfeitamente encaixadas e perceptíveis. Apesar disso, o desenrolar da história nos leva a crer que apesar dos diálogos, há um roteiro clichê montado na base. Mais tarde, percebemos que, não, Sound é simples, mas foge (bem) do clichê se tornando memorável para quem assiste com bons olhos.

No desenvolver de Ruben, temos fé que haverá mudança naquela carrasca personalidade que só quer a uma coisa, fechando os olhos para outras portas que estão ali para serem abertas. Seu aprendizado para se tornar um surdo, como bem denota o personagem de Paul Raci, é leve no filme, deixando de lado aquela nuvem cinza que circunda a vida de Stone. Faz-se desta maneira uma clara absorção dos altos e baixos da vida. E isso realmente me agrada, sendo uma característica bem notada nas animações da Pixar. O filme retratar um recorte de só felicidade ou só amargura cria uma visão distorcida do que nos faz humanos. Afinal, são dos momentos ruins que surgem os bons. Sendo ambos inesquecíveis e servindo como sementes nas jornadas que há de vir.

O exercício do quarto, de estar lá com você mesmo e apenas, traz para Ruben justamente o contrário do que era pretendido por Joe. Enfim de uma jornada de aceitação, ele passa a se ver insatisfeito e comovido a buscar mudança. Contudo, a modificação que busca é justamente a que o traz de volta para sua zona de conforto anterior. Ao arriscar tudo que tinha, ou seja, seu trailer e equipamentos, Ruben não demonstra coragem, mas exibe um acovardamento fruto da falta de percepção do que é real no agora e o que pode ser momentâneo. Depois de operar, vimos mais nitidamente que o sentimento que Ruben tinha na Escola para Surdos era de pena e agonia de está vivendo aquilo — ser surdo. Joe, ao perceber isso, toma a decisão mais ponderada e correta constante a sua ideologia: pune Ruben com o peso de sua inconsequência e falta de empatia.

Nessa fase do filme, o carinho momentâneo que ganhamos por Ruben é ligeiramente perdido com a nossa indignação com os atos inconsequentes do protagonista. E aqui, por incrível que pareça, nos vemos mais próximos do personagem por nos encontrarmos, mutualmente, em momento de desolo por chegar tão perto de uma melhora e se jogado bruscamente ao contrario. Por um grande momento, nos vemos na pele de Ruben no ato de errar e decepcionar pessoas que acreditaram em você.

Novamente, a proeza do filme é tratar as questões da vida de forma realista e plausível, a entendendo como uma montanha-russa e um misto de situações não uma salada de sabor único. Diferente de roteiros mais superficiais, os quais se esforçam para o personagem agradar o público, criando dessa forma uma persona que não vive a mesma realidade que nós, visto que não passa os mesmos perrengues e felicidades. Com essa linha tênue de realidade e ficção, o protagonista vivido pelo britânico que já concorreu dois Globos, dois Emmys e a um Oscar traz no enredo de Sound of Metal o que é o silencio vivido pelo personagem. Mais que não poder ouvir, ele vive no silêncio de sua alma, que ecoa gritos de socorro na presente constância das mudanças da vida.

Ao fim, não importa o que faça, sempre haverá mudanças que serão definitivas, não importa o quanto tente não ser. Ruben já com a prótese percebe que o mundo não soava como antes. Os ruídos do mundo pareciam não mais se encaixar na trilha sonora da vida como antes. Agora pareciam justamente como dito: ruídos. Como agudos exacerbados para justamente ter maiores volumes no aparelho auditivo, as coisas pareciam gritar ao redor de Ruben ao invés de tentar dançar aquele ritmo da vida. O que era de uma forma, como cacos de vidros ao chão, não poderia ser reconstruído.

Em um ato final, Ruben entende que seu lugar não era mais com Lou, ao perceber, em minha visão, que as coisas belas, como o soar musical de sua amada, como o bater de seu percussão ou até como uma boa simples conversa, deveriam ser apreciados com ouvidos humanos, em sua natureza serena e real. Demorou para entender o que Joe havia dito, mas ao toque de sinos, ele renuncia a sua falsa audição à sua verdadeira e única realidade: a surdez. — porém, diferentemente do começo do filme, aqui há apenas a questão no fisico e não mais na alma. Isso é claro quando, na cena final, há o encarar de completo silêncio, destoando do envolto barulhento do início. Ao que parece, ali, no silêncio, sua alma havia finalmente encontrado a paz. Não havia para quem e com quem brigar, ali estava ele e apenas ele. E com a alma acalmada, Ruben pareceu finalmente conhecer o som do silêncio.

Considerações finais: Faltou. Pouco, mas faltou.

O que realmente não acompanha o filme é a cinematografia. Ela por vezes me pareceu preguiçosa, sem grandes esforços para aproveitar as situações propostas pelo roteiro. Diferentemente da mixagem de som, que simplesmente é deslumbrante e te joga para dentro do filme de um modo único, lembrando por vezes a experiência que se tem com BabyDriver (em sentidos iguais, mas com propostas diferentes). Eventualmente, senti falta de algo mais ousado e que me trouxesse as emoções de viver aquilo como um apreciador.

As poucas vezes que impressiona são as vezes que se brinca com a grande angular para mostrar o trailer ou local onde Ruben passará metade do filme. Se ousassem mais, poderiam usar esse tipo de lente aberta para mostrar a solidão do personagem dentro do quarto apenas com uma mesa e um caderno. Outras vezes, queria está mais perto dos personagens para olhar mais de perto o que se passava em seus olhos, como no encontro na cama de Lou e Ruben, que precisava de um enquadramento mais fechada e próximo dos sentimentos que permeavam.

Acompanhando a direção de fotografia, o colorgrading é aquela frase que meus avós gostam de dizer: nem fede, nem cheira. As cores tem suas personalidades nas cenas musicais, nos shows, com aspectos vintage, com sombras azul e realces amarelado puxando para o magenta. Além de um granulado bem agradável, a parte de cantoria de Lou e seu pai em francês que claramente teve um carinho maior ali. Esses aspectos técnicos torna o filme perto porém não efetivamente um filme cinco estrelas. Sim, chegou perto, com um ótimo roteiro, direção impecável e atuações brilhantes, mas os produtores deixaram de lado as grandes cenas que poderiam sair com uma estética a desejar comparado ao conjunto.

Sound of Metal é necessário para nós. Não sabia que era até ver e sentir. Temos aqui uma obra que necessita sensibilidade e um bom olhar para se notar e apreciar tudo que Darius tem a doar. Mais que música, o conteúdo fala sobre vida. Marcos são feitos com esses tipos de filme, pois trazem luz para algumas escuridões. Nos lembram, no macro, que tudo é passageiro, basta você mesmo aceitar isso. Basta compreendemos que realidades são constantes em suas inconstâncias. Com isso em mente, aprenderemos a apreciar o bonito e aprender com o feio, todavia nunca esquecer: vai mudar. Tudo vai mudar. Vai passar. Tudo é passageiro. Até nós, em toda falsa megalomania que vivemos, somos passageiros. E nisso que ele casa perfeitamente com o nosso momento atual, pois além da questão das mudanças e aceitação, entender e apreciar o agora, o presente, ou seja, viver o silêncio é o que está tão em falta na geração Z. Viveis o agora, com folga e paciência.

Para os impacientes  — como eu — peço, encarecidamente, uma paciência de 2 h e 10 min para criar dos dois um em sua cabeça: mais dúvidas ou resoluções. De qualquer maneira, Sound of Metal é memorável, mesmo que não leve nenhuma das seis estatuetas que estar a concorrer, apesar de merecer facilmente a de Melhor Filme (talvez sendo páreo a Nomadland e Minari), além de Melhor Ator a Riz Ahmed por Ruben Stone e, obviamente, além de Melhor Som, melhor roteiro original por Darius Marder e Abraham Marder,  obra amazonense (gostei, vou usar) é uma grande aposta de um filme bem lembrado e útil para futuras gerações para melhor nos representar neste período que nos encontramos, banhado de situações dramáticas e complexas de se encarar. Acho que temos algo que realmente marca uma era. Assista Sound of Metal, em suas mais de duas horas de filme, em silencio, pois com toda a certeza vale muito a pena. Minha aposta para melhor filme está feita.

Por mais Joe no mundo. Sério, deu muita vontade de aprender língua de sinais e fazer parte de uns projetos tipo  esse apresentado no filme. Incrível!