Assistir a uma comédias romântica com temática LGBTQIA+ é praticamente uma raridade, mesmo estando na dita "Era da Diversidade", que apesar de parecer caminhando para a inclusão de todos, essa caminhada se mantem lenta, quase que a passos de tartaruga. 

O poucos filmes que abordam temáticas LGBTQIA+ sempre tem o um teor mais pesado, um drama mostrando sempre a comunidade em luta, e relembrando o quanto é difícil a sociedade tratar o tema com leveza e normalidade. Não que esse viés seja ruim, mas as vezes variar não seria tão complicado assim.

Todo mundo ama filmes simples e descomplicados que não te façam pensar e só o entretenham, bem ao estilo "Trilogia do Garoto bobo" e "Trilogia da Garota boba" de John Hughes, que faz sucesso até os dias atuais Caminhando por esse viés  a plataforma Hulu,  seu filme original "Crush", uma comédia romântica estranha, que estreou em 29 de abril.

O filme é centrado em torno de Paige (Rowan Blanchard) e seus dois potenciais interesses amorosos, AJ (Auli'i Cravalho) e Gabby (Isabella Ferreira). Seu foco em um triângulo amoroso adolescente LGBTQIA+ faz uma boa representação, com leveza e cuidado.

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A Trama

Crush é o típico filme de romance adolescente, mas é diferente, pois foca em um grupo de personagens quase que inteiramente LGBTQIA+. A historia gira em torno de Paige, uma aspirante a artista cuja paixão por um colega de classe acaba empurrando-a para se tornar um membro relutante da equipe de atletismo da escola. A decisão cria algumas complicações inesperadas quando seu relacionamento amigável com um companheiro de equipe se desenvolve em algo mais - algo diferente de qualquer coisa que ela já sentiu antes.

Embora a premissa básica do filme possa se emprestar ao tipo de giro manso e colorido sobre o amor jovem que você esperaria ver no Disney ChannelCrush não demora muito para se estabelecer no mundo do sexo casual, drogas recreativas e mídias sociais onipresentes que adolescentes do mundo real habitam. Em vez de ir pelo caminho desajeitado, no entanto, Crush oferece um elenco de personagens adolescentes transbordando com hormônios hiperativos e oportunidades sexuais, mas também equipados com uma espécie de autoconsciência contundente e maturidade seletiva que os mantém fora de muitos problemas.

Um Clichê Adorável

Na história, Paige é apaixonada por Gabriela desde muito nova, a garota popular do colégio, linda, estilosa e com metade da escola a seus pés, mas uma boa pessoa. Mas ao entrar para o time de atletismo, acaba se aproximando da irmã de Gabriela, A.J. Temos aqui então um triângulo amoroso e situações bem comuns em filmes de comédia romântica adolescente. Mas, novamente, é revigorante ver essas histórias clichês que geralmente são focadas em personagens heterossexuais serem focadas, dessa vez, na vivência de pessoas LGBTQIA+.

Além do principal triângulo amoroso do filme, uma das principais questões de Paige é o entrar na CalArts, cujo prompt pede aos candidatos que retraem seu momento mais feliz através da arte. A questão de seu "momento mais feliz" é usada principalmente como pano de fundo, enquanto o filme se concentra nos sentimentos de Paige por sua paixão de longa data Gabby e, eventualmente, o surgimento de novos sentimentos pela irmã gêmea de Gabby, AJ. O prompt serve como um dispositivo de enredo para a cena final de confissão de amor, onde Paige revela sua obra de arte para o aplicativo, que retrata muitos de seus momentos especiais com AJ. A cena foi memorável e definitivamente parte de um dos melhores do enredo do filme.

Outro ponto tocado é a polemica do que é arte? mas especificamente se grafite é arte. A razão para Paige, uma artista ir parar no atletismo é que ela é acusada de ser "King Pun", um "vândalo" da escola. À beira da suspensão, Paige não tem outra escolha a não ser se juntar à equipe de atletismo e assumir a missão de descobrir quem é o verdadeiro "Rei Pun". Sem surpresa, "King Pun" acaba por ser AJ.

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Diversidade Natural

A protagonista Paige é assumidamente lésbica e isso não é um problema na sua vida. Sua mãe decidiu ter a filha sozinha mesmo, pois desejava muito ser mãe. Ela é aquela típica mãe moderna que está por dentro de tudo e aceita a filha independente de sua sexualidade. Chega a ser engraçado em alguns momentos o quanto ela apoia a filha, dando dicas para a vida sexual dela. A comédia no filme, aliás, é bem colocada, mesmo que exagerada em alguns momentos, mas isso é bem comum em filmes de comédia romântica.

A normalização da diversidade no colégio aonde Paige estuda e nas famílias dos personagens é revigorante. Muitas vezes  filmes e séries LGBTQIA+ tendem a cair na premissa do sofrimento, onde os personagens sofrem por serem quem são e por amarem quem amam, mas isso não acontece aqui, isso é algo extremamente positivo.

 Exemplos como Crush da Hulu e a série Heartstopper da Netflix mostram que dá sim para tratar o tema de forma leve e real. Filmes e séries aonde vemos um lado mais otimista da vivência LGBTQIA+ aonde as histórias não são inteiramente focadas em dificuldades e “sair do armário”.

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Atuação

Blanchard carrega bem o papel principal, encontrando apenas a mistura certa de constrangimento doloroso, sabedoria precoce e confiança não merecida em qualquer plano que ela inventa - se envolve sua vida amorosa ou suas aspirações artísticas. Paige é fácil de torcer, mesmo quando ela está abraçando cada estereótipo de uma adolescente excessivamente dramática, e Blanchard vende os momentos engraçados com tanto comprometimento quanto as batidas mais emocionais do filme.

Auli'i Cravalho e Rowan Blanchard conversam com alguém em uma festa em uma cena de Crush.

Retratando A.J., a garota pela que Paige se apaixona, Auli'i Cravalho oferece um belo lembrete de que ela é muito mais do que uma bela voz. A estrela moana parece perfeitamente confortável saindo do molde da Disney e abraçando temas mais maduros, e sua química com Blanchard nunca se sente forçada ou artificial.

Embora Crush mantenha seu foco em seus personagens adolescentes, os adultos oferecem muitas performances divertidas, também. Megan Mullally (Will & Grace) é divertida de assistir em qualquer apresentação cômica, e o humor afiado de Crush joga para seus pontos fortes de todas as maneiras certas enquanto ela retrata a mãe de Paige compartilhando demais, mas eternamente apoiando.

Considerações Finais

Inteligente, comovente e maravilhosamente simples em uma época em que muitas comédias românticas tentam lançar uma rede muito grande ou espremer alguns tópicos de história que são demais do que eles  lidar, Crush é um filme tremendamente satisfatório que parece maior do que é por causa de seu elenco e cineasta talentosos, além de seu roteiro inteligente. Também é um bom lembrete de que mesmo quando um filme inicialmente parece que não é feito para você, ele ainda pode acabar falando com você de maneiras surpreendentes e gratificantes.

 Crush: Amor Colorido” fará sua estreia no Brasil através do Star+ no dia 17 de junho.