Como qualquer coisa óbvia na vida, somos levados a criar expectativas e a acreditar que estamos seguindo rumo a algo estabelecido quando determinadas coisas relacionadas a esse possível destino, mesmo ainda não concreto, começam a acontecer. No momento em que aquilo que esperávamos não se cumpre no “momento certo”, somos levados a refletir todo o caminho feito até ali e todo o quebra-cabeça que nos fez chegar a uma determinada conclusão antes mesmo dela chegar a acontecer. 

É mais ou menos assim que A Filha Perdida, o primeiro longa escrito e dirigido por Maggie Gyllenhaal, funciona. 

O filme é uma ótima maneira de quebrar aquilo que os espectadores podem vir a construir como certo e óbvio no roteiro. Ainda que isso tome boa parte da narrativa que se segue nas 2 horas e 1 minuto de filme, não é nisso exatamente que se prende o tempo inteiro. Para o espectador mais atento, isso pode ficar óbvio já no início do filme, mas a mensagem de qualquer maneira se autoesclarece até o final, ainda que não exatamente da maneira mais escancarada.

É possível dizer que o jogo de cenas, o roteiro e as atuações brincam com a obviedade presente no título do filme. Mais uma vez, ainda que como espectadores, somos levados a perder um pouco de tempo com isso, mas o subtexto consegue se sobressair quando refletimos sobre o todo.

 

A culpa por não sentir culpa

 

A tensão criada é muito bem desenvolvida e casa com a atuação de Olivia Colman, que interpreta a protagonista Leda. O clima criado pela atriz junto ao desenrolar dos pequenos acontecimentos nos parecem levar a crer, o tempo todo, que ela fez algo horrível em algum momento de sua vida e que por algum motivo parece sentir algo relacionado a culpa ou qualquer sentimento que a deixe negativamente carregada. 

Essa marca de uma possível sensação de remorso parece explícita em alguns momentos. 

Um deles é quando algo como uma cigarra aparece cantando de forma incessante justamente ao lado de seu travesseiro, atrapalhando o seu sono. Mesmo quando a personagem consegue se livrar do inseto, a sua marca fica no travesseiro, que antes era branco e límpido, fazendo-a sentir uma mistura de asco e medo e fugindo para os seus lençóis outra vez. Outros pequenos acontecimentos parecem deixar ainda mais claro a construção dessa sensação de que algo ruim a persegue de alguma maneira, como quando ela descobre que as frutas na fruteira que pareciam lindas e comestíveis, na verdade estavam apodrecidas provavelmente por conta do clima quente ou quando está caminhando pela trilha da praia e um pinheiro a atinge ferindo-a e deixando uma marca em suas costas.

É quase como um cliché de narrativas quando alguém sente culpa por ter feito algo terrível. Tudo e todos parecem saber o que o personagem fez de errado, até que ele se sinta paranoico o suficiente e ceda ao peso de seus pensamentos. Isso não significa que essas situações apresentadas tenham sido imaginações da cabeça de Leda e sim que a forma como ela parecia se sentir contaminava o ambiente ao seu redor de algum modo, dando a esses acontecimentos triviais um peso que não teriam normalmente em uma situação de férias e diversão.

Esse sentimento negativo que envolve a personagem às vezes fica tão forte que parecemos sermos levados a esquecer, junto a personagem, que estamos vendo um filme em que uma mulher de meia idade está tentando curtir essas férias em uma praia. O drama em que ela se envolve parece muito mais forte do que qualquer coisa que a possa distrair.

Suas lembranças parecem mais presentes e têm muito mais força do que qualquer sensação de alívio por estar finalmente em uma idade onde os filhos não são mais uma prioridade e preocupação, ou ao menos, não tão grande como um dia foram. Mas não se engane, esse não é um filme sobre uma mãe que se sente devastada pelo ninho vazio e sim, justamente o contrário. 

Leda parece estranhamente bem quando está sozinha e fazendo coisas não exatamente relacionadas à maternidade. Somos inclinados a pensar: Será que é daí que vem suas "estranhas" ações e reações?

Em todos os momentos em que é perturbada é essa mesma maternidade que a puxa de volta para a agonia. Seja quando observa Nina (Dakota Johnson) e sua pequena filha e lembra de seus momentos de inquietude e impaciência com a sua própria filha Bianca, quando aqueles estranhos e sua grande família cheia de crianças e adolescentes desordeiros atrapalham o seu momento na praia ou sua noite tranquila sozinha no cinema.

Nesse momento, a dúvida sobre algum possível acontecimento no passado da personagem ainda paira, mas já é possível compreender boa parte de sua identidade e as motivações por trás de suas ações aparentemente fora de contexto. É neste momento que o terceiro ato do filme, apesar de manter a sensação de inquietude e dúvida, conclui da melhor maneira o que o roteiro parece propor.

 

O não moralismo de uma história escrita sob uma boa perspectiva

Quando o filme começa a ficar mais evidente sobre estar falando da maternidade de uma maneira diferente do que parecia, as ações da personagem ficam mais claras, ainda que pareçam nebulosas e sem sentido.

Chega a ser engraçado como a personagem é incisiva nas suas vontades, indo de encontro a qualquer possível convenção social que a possa impedir. Desde o rápido momento em que nega sair do seu momento no sol porque alguns estranhos pediram, até quando decide viver uma vida longe de suas filhas e marido, quando era mais jovem.

Isso não significa que, emocionalmente, ela não sinta o poder dessas decisões sobre si mesma e o que isso a causa.  

De acordo com uma matéria de 2018 do Los angeles Times, Maggie Gyllenhaal escreveu uma carta para Elena Ferrante, a autora do livro: “The Lost Daughter” (no que o roteiro do filme se baseia) e a própria pediu para que Gyllenhaal dirigisse o filme, essa seria a única maneira da adaptação ser feita. “Você pode ter os direitos, mas você precisa dirigir”, disse Ferrante.

É neste ponto em que dá para compreender como a construção do filme consegue fugir dos julgamentos óbvios, aos quais, infelizmente, como espectadores podemos vir a esperar. Toda a brincadeira que o título e a narrativa parecem propor em contraste sobre o que o filme realmente fala, se transforma em quase uma metáfora e ironia. Em algum ponto pensamos, será que a sua negligência a fez perder a sua filha de alguma forma? O que será que ela fez? Por que ela age dessa maneira?

Assim como Olivia Colman e Dakota Johnson, Jessie Buckley (que interpreta a jovem Leda) consegue imprimir a palpálvel e ao mesmo tempo não falada agonia que acompanha a maternidade.

A resposta ao final parece explicar que as suas ações eram reflexos justamente desse anseio social que se tem da maternidade. A cobrança a que as mulheres são incubidas e como isso é aceito como algo normal e sensato pela sociedade.

Digamos que o título fosse mais literal do que é e esse fosse o filme sobre uma mulher de meia idade traumatizada pela perda da filha. Essa seria uma maneira claramente moralista de culpá-la por suas ações do passado… Ou seja, se uma mulher casada com duas filhas, por vontade própria escolhe “abandoná-las” e viver um romance fora do casamento, provavelmente ela merece isso… Certo?

A contravenção a essa lógica moralista é o que transforma, The Lost Daughter em um filme interessante e que dura na mente, cumprindo seu aparente papel de fazer refletir. Ainda que em alguns momentos pareça quase ingênuo em subestimar o espectador, mas ainda assim consegue se sobressair na astúcia de um roteiro bem pensado e executado.