Histórias originais e criativas nem sempre são o forte dos filmes de romance, mas a dona Netflix resolveu nos presentear com um longa bem entusiasmante nos últimos dias. Foi o típico não prometeu nada e entregou tudo (e olha que prometeu nada mesmo, pois pouquíssimo divulgado). Ainda assim Continência ao Amor estreou e logo alcançou o número 1 em diversos países, inclusive no Brasil.

Se os filmes do tipo que foram lançados no canal de streaming recentemente usam de todos os tipos de clichês de forma pouco instigante ao público, nesse novo sucesso as obviedades são bem envolventes e até pouco convencionais. Isso porque o longa traz uma premissa do amor em tempos de polaridade (!!!) e junta um casal que não tem NADA a ver um com o outro em um romance muito gostoso de acompanhar.

E muito desse sucesso se traz pela crueza das interações entre os personagens principais Cassie (Sofia Carson) e Luke (Nicholas Galitzine). A narrativa pouco explora o quesito físico, e olha que são dois atores lindos, sendo o emocional muito mais importante para o desenrolar da história.

O filme é uma adaptação da obra de Tess Wakefield e alicerça a sua trama em uma premissa que envolve o feminismo e uma perspectiva masculina em um drama romântico inovador.  Cassie é uma filha de imigrante, feminista e que não aceita a tudo que lhe impõe, indo contra estereótipos culturais e que se descobre tendo diabetes tipo 1, já Luke é um ex-dependente químico  que se alista ao exército após causar problemas ao pai.

Assim, apesar do título bem piegas, a narrativa vai bem além do típico “de inimigos para amantes”, trabalhando as diferenças sociopolíticas dos dois e uma circunstância de um casamento forjado por conta de problemas financeiros. E logo vemos um amor surgir, não de belos gestos e momentos ultrarromânticos, mas sim de dor, sofrimentos e as diferenças entre os dois.

A produção ainda faz uma crítica ferrenha ao sistema de saúde dos Estados Unidos e os tratamentos a imigrantes, não perdendo tempo com diálogos e divagações desnecessárias. E apesar de trabalhar o amor em meio às diferenças, o filme é uma grande história de superação, recomeços e redenção. Uma grande jornada do herói, da maneira mais romântica possível.

O filme ainda faz uma homenagem às tropas norte-americanas que vivem sendo mandadas para missões de combate e traz o sofrimento das famílias com as partidas e as perdas. Além disso, traz um plus muito legal com toda a parte musical envolvendo Cassie e sua vontade de seguir carreira como cantora, musicista e compositora. Assim, toda a trilha sonora e músicas criadas especialmente para o filme seguem uma influência de Nasce Uma Estrela bem perceptível, mas são bem construídas e devem seguir indicadas pela próxima temporada de premiações. E é interessante como a personagem é amplamente anti-armamentista e contra as guerras, mas consegue alcançar sucesso com uma música feita para soldados americanos.

Por fim, visualmente o filme é muito bem construído e as cenas de romance possuem o tom ideal, explorando olhares e toques, fugindo do apelo sexual. Aliás, o filme inteiro só tem uma cena de sexo que é muito bem ambientada em cortes fofos, sem trazer a luxúria e o prazer, mas sim o carinho e o respeito. Os atores estão ótimos em seus papeis, principalmente Sofia Carson que sempre parece ser muito natural e interpreta muito bem. Uma virada interessante para Nicholas Galitzine que veio de críticas não tão boas por seu papel em Cinderella.

Mesmo sob clichês batidos ou alguns erros de roteiro, Continência ao Amor possui uma empolgante dinâmica entre os atores que são repassadas ao filme. Podemos ver eles se deixando levar pelos sentimentos e também surtando em momentos de tensão, ainda assim é possível ver uma química palpável que transformou o roteiro que era até um tanto previsível em algo interessante. Para quem valoriza as lições que a vida a dois nos dá, esse é um prato cheio e pode ser até mesmo considerado o melhor filme de romance do ano.