"Não Olhe Para Cima" estreou há apenas três dias na NETFLIX e já causou um tremendo burburinho. Se você ainda não assistiu, aposto que não foi por falta de recomendações. Não era para menos: o vasto elenco de peso, inserido em uma história apocalítica, fisgou a curiosidade do público. Nem mesmo a cantora Ariana Grande e o lolito de Hollywood, Timothée Chalamet, ficaram de fora. Mas, além de belos rostos conhecidos, o longa tem algo a dizer. Infelizmente, é uma realidade a qual conhecemos intimamente...

Poderia ser apenas mais um episódio de Black Mirror, num futuro distópico que soa relativamente distante; mas não é. Em "Don't Look Up", dois cientistas (DiCaprio e Lawerence) fazem um alerta à humanidade: um cometa colidirá com a terra em seis meses - fazendo o meteoro que extinguiu os dinossauros parecer brincadeira de criança. No entanto, os negacionistas se mostram irredutíveis, promovendo suas campanhas de boicote. E mesmo os que acreditam no cometa, diminuem a notícia, criando memes da situação e tornando-a cômica, leve. Cada qual age com seu instinto de sobrevivência... Mas até que ponto conseguimos negar aquilo que está debaixo do nosso nariz?

Em tempos de COVID, não é absurdo fazer um paralelo com o filme. O absurdo é real. As verdades cientificamente comprovadas (revisadas por centenas de especialistas no mundo todo), são postas em cheque a todo instante - por pessoas que nada entendem do assunto, como quem debate religião numa mesa de bar. Aquelas informações mínimas e banais, que seriam óbvias para uma criança de oito anos, são distorcidas e propagadas com uma velocidade e alcance surreais. 

Nasce, então, a pós-verdade, onde tudo, absolutamente tudo, se torna questionável. Ao mesmo tempo, negacionistas são pessoas que, por pura ironia, não renegam a informação "exclusiva" que chega até eles. O importante mesmo é seguir o lema: "não consuma o conteúdo da grande mídia. Não acredite neles".

E é examente esse fio da meada que Não Olhe Para Cima puxa: os adolescentes, que estão mais interessados no relacionamento da diva pop do que no fim do mundo; os âncoras da tv aberta, que fazem piada em cima de qualquer notícia grotesca; a presidente dos Estados Unidos, que não toma providências devido às eleições legislativas, e por aí vai. Acompanhamos o caminho infernal que esses cientistas são obrigados a trilhar, na busca de iluminar uma população cada vez mais cega. Portanto, há um trabalho de imersão e a mensagem é transmitida, de maneira extremamente didática. 

As performances são um acerto em cheio, com personagens que transitam da comédia ao drama com destreza. Os coadjuvantes representam todos os arquétipos possíveis dentro de uma história apocalíptica. O destaque, porém, vai mesmo para J Law e Leo DiCaprio - mais uma vez, a dupla não decepciona. Enquanto ela viraliza como uma louca, profetizando o fim do mundo, ele se mostra submisso aos interesses da presidente e da mídia, montando uma pose de cientista sexy e gente boa.

No entanto, mesmo tratando-se de uma história necessária, os problemas insistem em cercá-la, como urubus em volta da carcaça. Afinal, havia a necessidade de 2h25 de filme? Afinal, o encaixe de cenas não é fluido, o que remove potencial e emoção de vários momentos. O roteiro, que só engrena na última meia hora, passa 120 minutos andando em círculos e reprisando diversas cenas, como as do noticiário ou da presidente e seu filho tosco (Jonah Hill).

O ator, por sinal, já foi entregue a comédias melhores. Para os que já conferiram filmes do tipo, várias piadas podem soar ultrapassadas e, a maioria, sem os diálogos afiados de A Grande Aposta e Vice (mesmo diretor, Adam McKay). Ao final, fica a sensação de que drama e humor poderiam ter sido misturados de forma mais orgânica. 

Se por um lado a montagem de cenas é irregular e prejudica o embalo da trama, a fotografia também tem lá seus deslizes. São inúmeros os desfoques de câmera e as tomadas completamente desnecessárias, suavizadas apenas pelo intenso corte de quadros. Quando descobrimos que trata-se do filme mais caro da NETFLIX, fica claro que o foco foi mesmo o cachê do elenco e os belos efeitos especiais. Mesmo com problemas técnicos e narrativos, Don't Look Up se afirma como uma experiência divertida, marcante e, além de tudo, pessoal. É impossível não assimilar o filme com alguma vivência sua durante a pandemia. Afinal, numa era de pós-verdades, tudo o que temos é mesmo a nossa verdade - e não, isso não necessariamente é algo bom...