Eu não consigo imaginar como deve ter sido ser negro e viver nos Estados Unidos durante a segregação racial. Já li sobre figuras importantes como Rosa Parks e Martin Luther King Jr. No entanto, mesmo sendo fã de música clássica e erudita, nunca fui apresentada a Don Shirley, algo extremamente curioso já que ele foi um dos pianistas e compositores de jazz mais interessantes dos anos 50-80. Não obstante, Green Book: O guia fez um serviço ímpar ao resgatar sua história, que foi traduzida numa trama inspirada e com atuações brilhantes. É o relato de uma amizade bem singular, mas cheia de carisma.

Em primeiro lugar, estamos falando da cinebiografia de um pianista negro dentro da lógica norte-americana de segregação racial. E, estou repetindo isso porque é de extrema importância compreendermos o contexto social da época para assim conseguirmos absorver o comportamento de algumas personagens ao longo do filme. Particularmente, achei-o um tanto previsível, mesmo não conhecendo a história real das pessoas retratadas. 

O roteiro é de Nick Vallelonga (baseado nas entrevistas de seu pai e de Doc, além das cartas de sua mãe), Brian Hayes Currie e Peter Farrelly. Mesmo concorrendo ao Oscar na categoria de Melhor Roteiro Original, em alguns momentos me pareceu um tanto caricato. Contudo, a história é bem redondinha e consegue transmitir as emoções necessárias de cada momento narrado. Gosto muito da maneira como vamos, aos poucos, conhecendo a personalidade de cada personagem, e acho louvável a forma como optaram em demonstrar a sexualidade do músico, sem destaque demais já que essa não era a intenção no longa, mas ao mesmo tempo deixando explícito, mesmo que rapidamente, como era difícil ser você, em todas as suas nuances, cor, sexualidade, personalidade, num país onde o preconceito e a aversão ao que não é "comum" sempre foi tão grande.

Preciso bater palmas de pé para as atuações. Sem dúvida, o que segura o filme inteiro é a desenvoltura de Viggo Mortensen como Frank "Tony Lip" Vallelonga e Mahershala Ali como "Doc" Don Shirley. Eles possuem uma química tão natural que é gostoso ver. Eles estão tão seguros de si e de seus personagens que não teria como dar errado. Cada expressão de piada e raiva de Tony Lip me deixavam entusiasmada, e cada olhar de tristeza e desdém de Doc me faziam sentir nojo da humanidade. Até na maneira como se vestem, Tony largadão e sem frescuras, enquanto Don é clássico e muito elegante, com tom refinado bem típico de sua profissão. É inacreditável como nós facilmente nos afeiçoamos a essa dupla, e entendemos a necessidade que um tem pelo outro, então brindamos a essa amizade que tinha tudo pra dar errado, mas só deu certo. A indicação de ambos ao Oscar é mais do que merecida.

A direção de Petter Farrelly é muito sutil, mas sua câmera consegue mostrar exatamente o close certo para nos deixar revoltados, chocados, ou emocionados. A cena mais linda do filme é quando o carro para próximo a uma plantação de milho onde só tem negros. E eles ficam confusos ao verem um homem branco servindo a um negro rico, que os olha como irmãos de cor, mas não o reconhecem como iguais, já que nesse caso, é o dinheiro que os separa. Nessa cena não há uma fala sequer, apenas troca de olhares e um piano espetacular, tocando as notas mais tristes para fazer o contraponto que a cena precisava. Toda essa diferenciação, pela cor ou pelo dinheiro, são tão odiosas que me faz entender o motivo de como espécie termos parado no tempo, embora nossa tecnologia só evolua.

Para mim, os problema do filme é dar vazão a esteriótipos. Porém, se tratando de uma cinebiografia, esses problemas são tolerados, já que muitas coisas realmente devem ter acontecido na vida do verdadeiro Don Shirley. Na verdade, de alguma maneira eles ajudam a contar a história, e nos fazem querer justiça diante das situações vexatórias as quais o personagem é submetido devido a cor de sua pele. Como o fato de servirem frango frito num jantar em sua homenagem porque "todo negro gosta de frango frito". Ao mesmo tempo, o longa desconstrói alguns "senso comum" quando explicita que doutor é a nomeação para quem tem doutorado, não para um médico qualquer. Sempre bom lembrar essas coisas!

No mais, Green Book: O guia é um filme de Oscar, com a temática ideal para levar a estatueta. Mas, para mim, é um trecho da história de uma nação que jamais deve ser esquecido. É uma luta sem viés ideológico; uma narrativa que desperta a sede de justiça até no menos interessado pela causa. É sobre uma amizade especial num tempo onde ser negro era resistir a cada segundo, já que ser gênio nunca é o bastante. Mais do que isso, é preciso coragem para mudar o coração das pessoas!