Podemos falar com toda certeza que Mank, não é um filme para todos, sua complexidade, revelações e easter-eggs superam o imaginável. A obra foi originalmente idealizada e escrita Jack Fincher entre o final dos anos 80 e meados dos anos 90, mas só podemos usufruir de toda essa genialidade nos dias atuais e sobre a direção de nada menos, David Fincher (Garota Exemplar), Filho de Jack.

O filme não usa somente a fotografia em preto e branco, mas também técnicas de filmagem dos anos 30 e 40, incluindo arquitetura sonora e lentes da época, devido a essa complexidade, Hollywood fez de tudo para segurar sua visão que somente pode chegar sua construção total com a entrada disruptiva do Netflix no restrito clube dos grandes estúdios.

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Introdução

Se você não está familiarizado, o filme se passa nos meados dos anos 30/40, conhecida como a à chamada Era de Ouro de Hollywood sob a visão ácida e extremamente crítica do roteirista alcoólatra Herman J. Mankiewicz (Gary Oldman), durante seu processo de criação do roteiro de Cidadão Kane reconhecido quase que unanimemente como um dos melhores filmes da História do Cinema.

A própria sinopse do filme nos fala:  "Hollywood dos anos 1930 é reavaliada através dos olhos do sarcástico e roteirista alcoólatra Herman J. Mankiewicz enquanto ele corre para terminar 'Cidadão Kane'. "

Linhas de narração

Mank corre em duas linhas temporais paralelas, com tramas e subtramas próprias que, parece nem ter sentido, inicialmente falando. Uma em 1940, quando Herman Mank é hospedado em um rancho com o compromisso de escrever o roteiro de um filme.

Acamado após um acidente de carro, Mank é impedido de tomar bebida alcoólica pela assistente Rita (Lily Collins) e pelo editor John Houseman (Sam Troughton), seu tempo para escrever é encurtado em cima da hora e a presença de seu contratante paira no ar de forma misteriosa, onde somente sua voz era apresentada.

Este homem é Orson Welles (Tom Burke), um jovem e prodigioso em paralelo a Herman que está envelhecido e decadente. Welles será diretor, produtor, protagonista e roteirista do filme que Mank escreve em clausura.

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A outra linha temporal percorre vários episódios ao longo dos anos 1930 e retrata um outro Mank, desta vez, um Mank ativo, criativo e um tanto problemático.

Mank conduz o espectador numa verdadeira imersão no sistema de estúdio da Era de Ouro do cinema estadunidense. Nesses flashbacks, sua influência alcança o segurança, o figurante desempregado e o megaprodutor Louis B. Mayer (Arliss Howard).

Aos poucos, as linhas narrativas paralelas se tornam mais curtas. Isso as aproxima em termos de tempo e em termos de atmosfera; o passado pulsante vai se tornando melancólico como o presente. Até que essas tramas convergem como causa e consequência e explicam o paradoxo de Herman: a queda que o levou ao fundo do poço nos anos 1930 inspirou a obra de sua vida, Cidadão Kane, em 1940.

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Mank e Kane e a atualidade

"A narrativa é um grande círculo", diz o protagonista para justificar a não linearidade do roteiro de Cidadão Kane.

Fincher pai grita para o público que o roteiro de Mank espelha o roteiro de Mank. De forma bem evidente em termos de estrutura e com algumas alusões visuais claras a Cidadão Kane, e mais ousadamente o de comparar Willie Randolph Hearst com Orson Welles.

Proprietário de um conglomerado de mídia, Willie Randolph Hearst é o típico homem branco, anglo-saxão e protestante. Ele lidera a elite que, em plena ressaca da Grande Depressão de 1929, corta salários do operariado do cinema ("ralé" em que os roteiristas se encontram) e demoniza o candidato socialista que propõe taxar os ricos para suavizar a miséria dos mais pobres.

Para frear o político de esquerda, Hearst e Mayer usam a máquina de Hollywood com propagandas que manipulam o eleitorado. O que nos faz lembrar fortemente o nosso presente em 2020, onde as fake news dominaram massivamente a política, tanto nos EUA, quanto no Brasil.

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Outro ponto forte é sobre Mank nos fazer pensar sobre o antagonismo feito a Orson Welles, a acusação de que ele não teve participação no roteiro de Cidadão Kane e ganhou um Oscar injusto. É amplamente documentado que Welles fez bastantes mudanças no texto de Herman, o suficiente para conferir-lhe a coautoria do roteiro. Porém, no filme a ideia que nos passa é de que Welles não fez nada e levou os créditos.

Welles é ou não Roterista de Kane?

Sabemos que Cidadão Kane é uma obra prima do cinema, sendo considerado ícone hstorico até os dias atuais. O filme levou apenas uma estatueta do oscar, a de melhor roteiro. N qual foi dividida entre Welles e Mank, mas a duvida e a polemica ficará no ar, quem realmente roteirizou Cidadão Kane?

Embora os termos do contrato nunca sejam declarados, Mank recebe US$ 2.500 por semana para escrever o roteiro dentro de 60 dias, mas o crédito pela escrita iria para Orson Welles. Essa pratica de escrita fantasma, não é algo incomum, quer seja no cinema, na literatura ou até mesmo no jornalismo. Hoje em dia, os escritores normalmente têm que assinar um acordo de confidencialidade, coisa que não aconteceu na escrita de Kane, por isso Mank levou os créditos também.

O questionamento que paira do ar é, ate quando o que você escreve é seu?

Este é um negócio onde o comprador só ganha uma lembrança do que pagou. O que ele comprou ainda pertence a quem vendeu. Essa é a verdadeira magia dos filmes, e não deixe que digam o contrário.

– Meyer, Louis B.

Veredito

o problema sobre o conflito de créditos do roteiro é algo bem superficial dentro do filme, o longa se predispõe brilhantemente a resgatar uma história do autodestrutivo roteirista, tomando seu lado incondicionalmente, mas usando-o principalmente como veículo para caracterizar uma era e toda uma indústria, além de tensões políticas que ganham eco em nosso cotidiano quase 100 anos depois. Um verdadeiro deleite para todos os amantes ferrenhos da sétima arte.