O caso do aluno que traz bebida alcoólica à escola não é nada incomum. De certo, você se recorda de algum colega que o tenha feito durante seu ensino médio ou fundamental. Talvez você mesmo tenha sido o protagonista dessa história... Mas fato é: estamos acostumados à figura do jovem atrelada ao álcool; há essa constante inerência clichê. Séries como Baby, Elite, Euphoria e Skins são exemplos da exploração - e saturação - desta vertente do mundo teen.

Mas como seria se invertêssemos os papéis dessa trama? Se ao invés de alunos, fossem os professores que bebessem no expediente de trabalho? Assim como eu, você pode imaginar o resultado desastroso... E é pegando carona na perspectiva do professor alcoólico que Druk - Mais uma rodada  (2020) monta sua premissa.

O que leva, afinal, quatro professores da classe média alta dinamarquesa a se alcoolizarem? Empregos estáveis, casas próprias, famílias constituídas... Nada disso lhes falta. Ainda assim, um vazio abismático toma conta dos protagonistas. Os encontros entre eles já não são mais divertidos e intensos como antes, bem como suas próprias rotinas familiares. Tampouco sentem aquele velho prazer em dar aulas.

Tudo muda quando um deles, Martin(o eterno vilão da série Hannibal), é jogado contra a parede numa reunião de pais e alunos. Vendo-se intimidado, ele percebe que sua credibilidade está em cheque. Afinal, a própria turma tem medo de falhar em exames universitários, graças ao mau ensino do professor. Se outrora suas aulas de História eram expansivas e cativantes, agora ele se vê isento de carisma, lento e confuso ao ensinar. É então que entra em cena o grande motor do enredo: o álcool.

Sendo assim, Martin e os três professores decidem embarcar juntos naquilo que consideram ser um tremendo experimento sociológico. O objetivo é ingerir, diariamente, pequenas doses de álcool no intervalo das aulas. Ao longo dos dias, eles registram os efeitos gerados num arquivo do notebook. É claro que, de imediato, há benefícios! Martin está mais empolgado do que nunca durante as aulas, seus alunos o idolatram. Até sua esposa, de quem vinha afastado, surpreende-se com a mudança de comportamento do marido. Afinal, os homens relembram o quão bom é serem a melhor versão de si mesmos; o quão excitante é reviver a juventude, afastando todo a carga da vida adulta e repelindo as crises de meia-idade.

Mas a fachada de perfeição não demora a ruir. Como qualquer veículo que dependa de combustível, os professores agora demandam abastecimento - no caso, diariamente. O vazio existencial, que antes se manifestava somente em apatia, agora é um monstro indomável: eles perderam o controle das emoções e das pequenas ações. Para piorar, não demora até que o corpo docente encontre garrafas de bebida escondidas pela escola... 

Ainda que o filme proponha uma reflexão, um dos grandes destaques de Druk é a sua ausência de moralismo. Não espere por cenas clichês de superação, recheadas de discursos didáticos e reflexivos. Didatismo, por sinal, é uma palavra que definitivamente não cabe aqui. Ainda que cenas dramáticas estejam presentes, também vemos o quanto o destilado lhes entrega momentos incríveis, memoráveis e até mesmo inocentes. Afinal, enxergar o álcool como um remédio é um dos princípios primordiais de uma cultura global. No nosso caso, em específico, é o famoso"o Brasil nos obriga a beber".

Todos sabemos, é claro, que alguns cometerão excessos, sucumbindo ao vício. Uns farão o uso esporádico, apenas para enfatizar comemorações. Já outros, até consumirão com frequência, mas jamais serão apontados como dependentes. Cada um possui uma relação exclusiva com este remédio/droga socialmente aceito, de modo que o julgamento de seu consumo se torna algo extremamente complexo. Um fato bem explorado no filme é que, no geral, não fazemos ideia de quem sejamos sem o álcool - ou seja lá qual for sua válvula de escape. E, por mais que vejamos pessoas sucumbido, às vezes simplesmente não estamos dispostos a abrir mão do vício, apenas dosá-lo ao máximo. Druk - Mais uma rodada tem consciência disso, fato que o torna tão único!

Já em relação aos aspectos técnicos, há uma priorização do realismo. Todas as cenas são regidas por iluminação natural e estética de câmera na mão (recurso defendido ao extremo pelo diretor/roteirista Thomas Vinterberg). Os diálogos se convertem em ouro nas mãos dos atores, que entregam um belíssimo e crível trabalho.

Embarcando na beleza do filme, não há como negar que o longa também glorifica a vida. Afinal, concluí-lo foi uma verdadeira jornada para o renomado diretor... Sua filha - que servira de base para o roteiro original - interpretaria uma das adolescentes da trama, mas um acidente de trânsito lhe tirou a vida abruptamente (ainda no quarto dia de set). É claro que o esperado era a interrupção imediata das gravações, dado o choque traumático da situação. Porém, surpreendendo a todos, Thomas decidiu seguir em frente! Reestruturou o roteiro, dramatizando ainda mais o longa, e retomou as filmagens. Por fim, entregou uma bela obra sobre vícios, juventude e celebração da vida. Um belo destaque em meio à temporada de premiações!

E a cena final...

Ah, a cena final...

Daquelas que perduram na mente por dias e dias!

Obs: o filme recebeu indicação aos prêmios de Oscar de Melhor Diretor e Melhor Filme Estrangeiro.