Grandes clássicos não atingem patamares assim a toa. Esse tipo de produção, intimamente tocante em uma geração de pessoas (e comumente ultrapassando essa barreira linear), tende a se solidificar de diferentes formas de acordo com os gêneros. Os filmes de ação, por exemplo, visam oferecer uma experiência cinematográfica completa e imersiva, mas sabemos que nem todos tem esse poder de conseguir.

Definitivamente não é o caso do segundo filme de Top Gun, um dos favoritos da década de 80. Lógico, temos um filme que foi o maior sucesso de bilheteria no ano de 1986, que ganhou prêmios importantes com sua trilha musical marcante, que possui um Tom Cruise novinho e belo aos olhos e um roteiro imersivo que é impossível não deixar de se envolver. O filme é cativante e tem lá o seu charme.

Poderíamos dizer que voltar com essa premissa quase 40 anos depois era um risco muito grande. Ora, o primeiro ponto era justamente o fato do galã não ter mais seus vinte e poucos anos e toda a tecnologia do cinema ter mudado muito daquela época pra cá. Seria difícil marcar tão fortemente como aquele primeiro filme que se tornou um clássico? De fato seria, mas o produto apresentado não decepciona nem um pouco.  

Esse, com toda a certeza, pode ser um case de como reviver um clássico da maneira certa. O retorno da franquia atualiza suas narrativas, traz referências ao filme antigo e conseguiu voar alto, principalmente em se tratando de produção. É necessário lembrar aqui que Cruise assumiu também essa função no longa e isso fica claro quando recebemos o recado dele antes da sessão começar informando que todas as cenas foram gravadas em motos e aviões de verdade. Em um mundo cinematográfico repleto de CGI essa era uma adição que deixava claro a qualidade do filme que ia se seguir.

A narrativa retoma a história do capitão Pete Mitchell (Tom Cruise), que continua na marinha fazendo todas as loucuras que já sabemos que é possível dele cometer. Por conta de seu comportamento, Maverick não sobe de patente na corporação, tendo sobrevivido até então pela sua forte amizade com Iceman (Val Kilmer) que se torna almirante.

O filme se apoia na construção que o programa ao qual Maverick estava envolvido será descontinuado e sua última missão na marinha seria retornar a academia Top Gun para ser instrutor de novos pilotos em uma missão que eles não sabem ser possível voltar com vida. O maior problema para Pete, além de lidar com sua personalidade forte, é reencontrar com fantasmas do passado na forma de Rooster (Miles Teller), filho do seu antigo parceiro de voo que morreu em um acidente durante os treinamentos na Top Gun.

Se no primeiro filme vimos bem como Maverick lidava com a culpa pela morte do melhor amigo, nesse os seus sentimentos são ainda mais explorados e descobrimos motivações paternais intensas do personagem com o filho de Goose. É interessante como essa ligação traz aspectos nostálgicos importantes para o filme se desenrolar, incluindo uma cena emocionante de Maverick com Iceman que, como bem sabemos, o ator sofre com a perda da voz depois de enfrentar um câncer de garganta.

E a nostalgia não para por aí. O filme começa exatamente da mesma forma que há 36 anos atrás, com imagens dos aviões se preparando para decolar em um céu amarelo de fundo e com a música tema de Top Gun, tão amplamente marcada na história das trilhas musicais. E o fato deles de alguma forma repetirem a história de Maverick e Iceman com Rooster e Hangman (os nomes parecidos também não são coincidência) é ainda mais legal de se assistir.

O longa também ainda mantém seus momentos engraçados e românticos. Ora, o romance não poderia deixar de ser exposto, principalmente após o sucesso de Take My Breath Away embalando as cenas de beijos de Tom Cruise no primeiro filme. Aqui um novo amor (ou não tão novo assim) retoma à vida de Maverick, que começa a ter mais cuidado com a própria vida pois tem para quem voltar. Quem assistiu recentemente o primeiro filme irá lembrar que a referência a Penny (Jennifer Connelly), nova namorada de Cruise, está lá. 

O roteiro consegue conciliar bem o conflito do herói com sua culpa e ainda assim enfrentar essa problemática missão, além de trazer um toque nostálgico incrível dos anos 80, sem abandonar o contexto atual em que se passa. Aliás, os efeitos especiais são tão incríveis que é maravilhoso ver o contraste das novas e mais tecnológicas máquinas perto das antiguidades, principalmente na primeira cena do filme onde Maverick consegue ir tão rápido que começa a se criar gelo no seu próprio rosto.

Com uma fotografia perfeita, com cenas lindíssimas como as do futebol americano jogado com um pôr do sol de tirar o fôlego na praia, uma trilha sonora potente, uma direção marcante e atuações maravilhosas de personagens carismáticos e muito bem trabalhados é impossível não se emocionar e não se agraciar com a experiência desse filme, que soube balancear bem o drama com ação, em cenas fortes e até mesmo tensas. Impossível também não reconhecer que esse pode ser facilmente o melhor filme do ano, se deleitando em referências e respeitando o próprio legado. E que venha a temporada de premiações!