Após o fim da franquia Harry Potter em 2011, a escritora, e agora roteirista, JK Rowling, começou a criar novas histórias para o seu Universo Mágico. Animais Fantásticos deu à autora novas possibilidades, além de liberdade criativa para aprofundar ou mesmo transformar o universo que ela já tinha criado nos livros.

Embora o primeiro filme da nova pentalogia, em parceria com a Warner, tenha feito muito sucesso de crítica e bilheteria, o segundo longa da franquia começou cheio de controversas. A contratação do ator Johnny Deep para viver Gellert Grindelwald e o título do filme foram motivos para os fãs promoverem boicote à série. No entanto, Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald estreou com pouca aparição de Deep na promoção do longa, e fãs mais eufóricos com as novidades reveladas nos teasers e trailers.

"A magia floresce em pessoas raras, e elas não podem viver às sombras da humanidade como se fossem inferiores". O discurso proferido por Grindelwald e a ideia do "bem maior" é o que norteia o filme. O ano é 1927, seis meses após os eventos do primeiro filme. O grande vilão consegue fugir de forma maestral durante sua transferência dos EUA para a Europa. Ele está reunindo seguidores para espalharem sua mensagem e conseguir mais defensores do seu ideal. 

Baseado nisso, o roteiro de JK viaja entre Nova Iorque, Londres e Paris de forma frenética, interligando pontos entre as cidades e revelando personagens, ou completando a trajetória de outros. O grande trunfo do roteiro é o fato desse longa ser o segundo entre cinco filmes, o que de certa maneira relativiza qualquer "erro" que venha a pesar numa perspectiva geral, porquê ele precisa ter o tom mais lento e a carga mais dramática ao qual foi submetido, pois, sua proposta é amarrar as pontas deixadas no filme anterior e encaixar as várias semi-narrativas lingando-as para então formar o filme que assistimos. Isso significa que os erros de ritmo que o roteiro venha a ter podem ser justificados porquê a história precisa ser bem redonda e mais rica em detalhes para que os demais filmes tenham o que relatar.

Isso não quer dizer que é perfeito, ainda que quem assine como roteirista seja JK. Como ela não é uma roteirista experiente, alguns erros podem ser cometidos, e quando esquecemos o panorama geral e enxergamos a explanação da escritora de forma pontual, podemos identificar aspectos que de alguma maneira chegam a comprometer a experiência cinematográfica. O principal é que o filme é lento e tem muitas situações completamente desnecessárias, especialmente no primeiro ato. Em dado momento comecei a questionar se o filme iria entregar tudo o que prometeu no material de divulgação. Ainda assim, achei muito interessante a maneira como no início as coisas são bem explicadas para levar o telespectador, especialmente o novato nesse universo, a adentrar na ambientação e proposta do filme.

No entanto, é mais que justo explicar que o erro de ritmo não é puramente do roteiro, a direção tem sua porcentagem também. David Yates voltou para dirigir essa nova franquia, e trouxe consigo o ritmo um tanto apático dos filmes de Harry Potter. Não obstante, confesso que nesse filme especificamente ele mais acertou do que errou. Se desconsiderarmos o primeiro ato, a lentidão dos demais é quase uma obrigação, visto que a carga dramática, fundamental para escrever essa história, não poderia ser acompanhada por cenas de tirar o fôlego. Embora, essas cenas existam, e como existem!

Em vários momentos JK e David utilizam o flashback para elucidar o que determinado personagem está narrando. E como entram bem esses momentos! A movimentação da câmera, o close de intimidação nos personagens, a forma como ela dança nas cenas de magia, aliados aos melhores efeitos especiais e visuais de qualquer filme de Harry Potter, dão características ímpares a esse filme. Deu pra ver que o orçamento foi muito bem utilizado. A fotografia é linda em todas as línguas, assim como os efeitos refletem a fineza do ambiente em que está sendo registrado. Se em Nova Iorque moderno, se em Londres contido, em Paris cheio de classe, acompanhado de figurinos que são dignos de indicação ao Oscar. Além dos animais mais fantásticos (com trocadilho e tudo) de todos os tempos, que assim como a fotografia, cabelo e maquiagem, refletem nas características a origem de sua espécie e o lugar ao qual pertence. É um mundo verdadeiramente mágico!

Os animais são tão personagens quanto os humanos, isso é um fato! E assim como no filme anterior, eles têm papel fundamental para construir a trajetória desse longa e nortear alguns acontecimentos dos próximos filmes da franquia. Quanto aos personagens humanos, o quarteto composto Newt (Eddie Redmayne), Tina (Katherine Waterston), Jacob (Dan Fogler) e Queenie (Alison Sudol), passam por situações parecidas com as do filme anterior, só que com uma reviravolta interessante e um tanto peculiar, meio triste na verdade, com maior destaque para Newt que é peça fundamental para o desenrolar da trama. A inserção de Leta Lestrange (Zoe Kravitz) é muito boa, e quem diria que essa personagem teria tanta importância na trama?! O irmão de Newt, Teseus Scamander (Callun Turner) não acrescenta tanta coisa. Já Credence (Ezra Miller) e Nagini (Claudia Kim) são personagens extramente controversos, cheios de camadas e até têm atitudes inesperadas. JK pregou peça em todos os fãs com as decisões dessa dupla, além de fazer uma revelação sobre Credence que vai fazer você duvidar de tudo que achava que sabia sobre o mundo de Harry Potter.

Por último, e não menos importante, Dumbleodore (Jude Law) e Grindelwald (Johnny Deep). Esses foram os personagens que tiveram menos tempo de tela e os que mais brilharam, na minha opinião. Os personagens já são emblemáticos por si só, mas a atuação dos dois deu mais do que vida a eles. Jude Law conseguiu compreender seu personagem, especialmente no tempo em que o filme se passa, pois Dumbleodore era completamente diferente do que conhecemos 50 anos depois nos filmes de Harry Potter. Ele entendeu toda a carga de seu personagem e conseguiu segurar com muita dignidade, transparecendo todas as feições e jeitos dignos de Albus Dumbleodore. E Johnny Deep absorveu a ideia de Grindelwald e a passou com tanta naturalidade que pareceu concordar com tudo que seu personagem acreditava. Para mim, ele e Gellert são a mesma pessoa, sua atuação foi sensacional, e sua entrega mais do que nítida. A saga vai exigir muito mais deles, e eu tenho certeza que eles vão conseguir entregar personagens à altura do que os fãs esperam.

No mais, o filme é um tributo aos fãs de Harry Potter, cheio de easter eggs e muito fan service, além de menções aos personagens, locais e artefatos que ficaram famosos na série do bruxinho. É gostoso assistir a outra aula de transfiguração, ver professores amados em suas versões mais jovens, conhecer Flamel, e reconhecer pequenos objetos de personagens antigos, além de entender as 'piadas' que referenciam aspectos da primeira saga. É sempre válido ressaltar que não é só fã que pode assistir, essa saga está conquistando um novo público, e é acessível a todos. Ser fã de Harry Potter nunca foi tão bom!

O filme não é cheio de ação, mas tem personalidade no drama, na trama e nas revelações f*d@s, dignas da mente brilhante da rainha JK. E não tem final, o que me agradou bastante, visto que o final mesmo só vai ocorrer em 2024 com o filme de encerramento da franquia. Então o que me pareceu era que o episódio especial da minha série favorita chegou ao fim, mas na semana que vem outro episódio vai passar, e só faltam mais três pra terminar a temporada. Estamos ansiosos para o próximo!