Em uma jogada quase perfeita para fazer uma crítica direta ao modelo sócio-econômico que vivemos atualmente, o filme traz o personagem Goreng, vivido pelo ator Ivan Massagué (incrível no papel), que por escolha decide entrar no poço com a intenção de parar de fumar. No local, ele conhece o senhor Trimagasi Zorion Eguileor, seu “companheiro de cela”, que também está ótimo em cena. 

Em um determinado momento, Goreng descobre Miharu Alexandra Masangkay uma mulher que segundo Trimagasi, descia todos o dias em cima da plataforma de comida para procurar sua filha desaparecida em outras celas e mata a quem for preciso para conseguir seu objetivo.

A partir deste ponto, já temos um dos primeiros elementos formando a grande reflexão do enredo que foca diretamente em uma questão de centenas de anos, “Será que os seres humanos nasceram para viver em civilização/comunidade ou isso só pode ser possível até o momento em que existe a mínima quantidade de recurso suficiente para todos?” e além disso, chega-se a constatação de que muitas pessoas acostumaram-se a viver com pouco ou quase nada enquanto outras poucas acostumaram-se a viver com muito e não querem passar ou voltar a viver com nada.

 

 

A crítica a nossa sociedade é sim o fio da meada que liga todo o filme, apesar de ser feita de uma maneira óbvia isso não significa que o roteiro fica clichê. Pelo contrário, somos apresentados a uma história com profundidade suficiente para fazer o espectador refletir sobre o que acontece ali e de certa forma conseguir relacionar a realidade. Não é como se o roteiro ficasse tentando o tempo todo sugar quem está assistindo para um pensamento crítico, na verdade ele consegue fazer isso já no início do filme. 

A relação com a comida e o seu significado por trás é o principal motivo de tudo que caracteriza a narrativa. O medo da fome e a má distribuição de renda é uma questão que ainda assola o mundo e a sociedade em que vivemos. Dentro do filme, a forma como o protagonista se assusta ao descobrir que precisa comer as sobras das outras pessoas para sobreviver, é exatamente a mesma que o espectador reage. O protagonismo de Goreng não só constrói a ponte entre quem está assistindo e a produção, como também serve para a interpretação de várias metáforas que o caracterizam no geral, como o Messias/Salvador de bom coração que vai tentar mudar aquela realidade.

Dessa maneira, o personagem gera no espectador a síndrome do protagonista herói que vai tentar mudar o mundo, não importa o que digam ou o que aconteça. Com isso a curiosidade gerada para saber como será o fim de tudo, torna o roteiro do filme ainda mais interessante. A força interior e convicções de Goreng são as coisas que mais importam em um mundo que está perdido e principalmente, onde a maioria das pessoas, não sabem o que estão fazendo ou simplesmente foram corrompidas. Sua coragem é o que o coloca na posição de destaque, pois ele não era o único ali que aparentava ser bem intencionado. Imoguiri Antonia San Juan, uma ex-funcionária que recebia as pessoas no Poço, também se preocupa em tentar mudar aquela realidade, porém, apesar da perseverança da personagem, as coisas só começam a funcionar quando ele intervém, com violência.

Com uma trilha sonora combinada a cortes secos e uma atmosfera pesada e ao mesmo tempo vazia, a todo momento somos indicados que não existe esperança ali. Em várias cenas, a câmera faz questão de focar em aspectos asquerosos, seja quando Trigamasi faz questão de cuspir e urinar naqueles que estão abaixo dele simplesmente por diversão ou quando a câmera foca nas larvas se alimentando da carne podre que Goreng também precisa comer, para não morrer de inanição, quando está em um nível muito baixo.

O poço, longa de estreia do diretor Galder Gaztelu-Urrutia é uma obra não apenas profunda como também instigante e que pode sim decepcionar ao final por querer deixar para uma possível interpretação livre, quando até aquele momento, o filme entregou todas as respostas possíveis. Contudo, apesar disso o significado não se perde e o roteiro consegue fechar as pontas suficientes para que o espectador entenda que não perdeu tempo.

 

O fim do filme:

 

 

Ao final, entende-se a mensagem que de fato, “Nenhuma mudança é espontânea”, ou seja, para ao menos tentar garantir alguma mudança naquela realidade, o herói precisou passar por todo um processo difícil de transformação pessoal, ao ver todos os horrores que habitavam o poço.

A analogia geral à nossa sociedade se encontra no ponto em que, não dá para querer mudar uma realidade sem que você a conheça de fato. Ainda que seja um processo doloroso e injusto, a vivência de uma situação diferente da habitual, permite (ou ao menos deveria permitir) que o ser humano tenha muito mais chances de ter empatia pelo próximo, ou seja, por aquele que vive uma realidade mais difícil que a sua.

Quando Goreng consegue a ajuda de Baharat Emilio Buale é que as coisas realmente começam a acontecer. Isso significa mais uma vez que perseverança sem força, apesar de muito importante, não vale de muita coisa para mudar todo um sistema, caso o poder de convencer outras pessoas não seja suficiente. Induzir as pessoas, ainda que de uma forma forçada se mostra como a chave para que as coisas mudem. Porém, ainda assim, eles aprendem que usando apenas força, não é a maneira correta de expandir o pensamento e o que eles realmente querem. O poder de convencer e espalhar a mensagem só aconteceria se eles se colocassem no lugar de cada pessoa, entendendo seus motivos e suas ações.

É claro que, a medida que a fome vai ficando mais forte, as coisas saem do controle, a selvageria toma conta de qualquer tentativa de consenso e a violência extrema acaba sendo a resposta.

 

A menina é a mensagem:

 

Apenas a garota sobe porque ela é a única criança pura que não precisou ver ou fazer nenhuma das atrocidades que aquelas que a salvaram, fizeram. Isso significa que a intenção inicial de Goreng apesar de ser boa e gerar todo o início da mudança naquela realidade, não encobre o fato de que ele precisou se igualar a aquelas pessoas que nós, como espectadores, enxergamos inicialmente como animalescas e sem nenhuma noção de como viver em sociedade da maneira correta. 

O protagonista como o significado do Messias ou salvador, precisou se assemelhar a quem tornava aquela sociedade tão horripilante, ao matar e comer carne humana para sobreviver, ou simplesmente pelo motivo mais banal de todos, lutar para comer um alimento que poderia servir para todos sem precisar de nenhuma violência.

A pureza da garota, que não precisou fazer nada daquilo seria equivalente às crianças da nossa sociedade, que são o futuro do que é construído hoje e por isso a única esperança real de mudança.

 

Um final pessimista? 

 

 

Apesar da possível mensagem bonitinha que o filme deixa ao final, tá rolando uma teoria de que na cena em que o cozinheiro briga com os ajudantes porque achou um cabelo na panna cotta, na verdade seria a prova de que Goreng e Baharat nunca conseguiram que o plano deles realmente funcionasse. 

Ou seja, de fato eles chegaram até o último vagão, conseguiram proteger a panna cotta e ela não foi comida porque a garotinha na verdade era uma alucinação que eles acabaram tendo porque estavam famintos e também feridos demais.

A panna cotta teria subido intocável, no entanto o cozinheiro principal compreendeu que ela não foi comida pelas pessoas do poço porque tinha um cabelo de alguém que estava cozinhando. Isso significa que nenhuma ideologia foi mudada, as coisas continuaram da mesma maneira de sempre, apesar de todo o esforço. 

Sendo ainda mais profundo, isso passa a mensagem de que, a preocupação com a excelência de um serviço injusto é maior que qualquer sentimento de humanidade.