Se existe uma fórmula perfeita a ser seguida, para que um filme slasher seja considerado bem feito eu não posso te dizer com certeza. Para quem gosta desse estilo, talvez uma breve evocação de algumas das características marcantes já pode ser o suficiente para um prato cheio de diversão. Porém, pode ser ainda melhor quando a produção consegue fazer pensar de um jeito criativo e pertinente, por ter um toque de subversão relacionado ao que se conhecia deste mundo.

X é a nova produção da A24, não só dirigida como também roteirizada por Ti West (A Casa do Diabo) que aqui apresenta um trabalho refrescante, ao mesmo tempo, esquisito e cativante.

Se pudesse escolher alguns temas para o filme, diria que fala sobre hipocrisia, soberba e inveja. Ambos sentimentos permeiam os personagens principais e principalmente aqueles que entendemos como a representação do antagonismo nesta história.

 

O Sexo é o combustível da hipocrisia

Já na cena inicial somos apresentados a uma carnificina que contrasta a um ambiente completamente bucólico do campo, uma casa que está no meio do nada. Um discurso de um possível líder religioso ressoa em uma televisão, aparentemente ligada para ninguém, dizendo: 

Em um tempo sombrio como este, devemos todos lembrar de pedir orientação ao Senhor. E então nos submeter a Deus. Amém. Resista ao Diabo e ele irá fugir de você”.

Quem seria esse diabo? 

O sexo como um símbolo da perversão parece a mais provável das respostas dentro desse contexto.

Não é à toa que começamos a acompanhar a aventura de uma trupe de pessoas, relativamente jovens, na tentativa de produzir um filme pornô. Quando chegam ao ambiente da fazenda, o contraponto entre dois mundos diferentes começa a se montar. Neste momento o lugar ainda não está nos mesmos termos que o vimos pela primeira vez, pois na cena em questão ainda parece apenas ameno, embora misterioso e medonho.

Esse é um lugar que representa o antiquado e que ainda vive praticamente intocável mesmo naquele mundo moderno de 1979, algo que é deixado bem claro pela edição do filme quando somos introduzidos ao grupo em um ambiente tipicamente urbano, com um letreiro que cobre toda a tela e nos localiza temporalmente deixando claro que a história se passa naquele ano.

Enquanto somos introduzidos um a um do grupo, a música do grupo britânico, Mungo Jerry, “In the Summertime” nos diz: 

Não somos pessoas más, não somos indecentes, não somos malvados. Nós amamos todo mundo, mas fazemos o que queremos”.

Sinais como esses, vão criando muito bem a atmosfera que monta a possível índole desses personagens que são "jovens'' destemidos e inconsequentes mas que não deixam de se encaixar em um molde de vítimas previsíveis até o final do filme.

O fato da trupe estar precisamente gravando um filme pornô e chegar naquele lugar aparentemente calmo, tranquilo e tradicionalista é uma forma escancarada de contrapor esses dois mundos e mostrar que a perversão extrema pode estar justamente no que menos se auto considera perverso e mais acusa o próximo por esse se assemelhar ao que a sociedade costuma condenar. Isto é, a não ser que soubéssemos que esse é um filme de terror, na vida real ninguém esperaria que um casal de velhinhos indefesos fosse responsável por toda aquela carnificina, certo?

 

A perversão e o cinismo podem ser muito mais perigosos do que parecem

Quando Wayne Gilroy (Martin Henderson), o líder da trupe, bate na porta do velho Howard (Stephen Ure) e é recebido com extrema hostilidade e quase violência física, já dá pra entender de qual maneira o senhor recebe o que vem de fora daquele seu mundo e o que essa nova geração e suas características representam para ele. Esse é um prenúncio óbvio, para a gente como espectador, do que viria pela frente. O fato de não ser óbvio para os personagens, neste ponto, é completamente compreensível e, na verdade, até soma a trama do filme.

É na nossa protagonista, Maxine, vivida por Mia Goth, que vemos o primeiro lampejo de consciência, em algum daqueles jovens, de que algo poderia estar errado ali. 

Apesar de fazer parte de alguns clichês que identificam a produção dentro do estilo slasher, a personagem também vai de encontro a vários outros. Ela é a protagonista, mas foge aos termos clássicos de virgindade, pureza e inocência já em sua primeira cena. Essas são as conhecidas “armaduras de enredo” que geralmente são relacionadas a esse personagem dentro de filmes do gênero, fazendo com que seja a única a sobreviver no final. Maxine foge a todas essas.

Em uma cena, Goth fica nua e toma banho no lago das imediações, de forma livre e espontânea, ao mesmo tempo em que, somente nós, vemos um crocodilo à espreita que quase a assassina. Ao invés de sua morte aparentemente tão óbvia como uma punição narrativa do roteiro por não estar sendo inteligente ou recatada o suficiente, Maxine sai do lago segundos antes de ser abocanhada. A cena imediatamente corta para um take do filme pornográfico que eles estavam produzindo, quebrando o clima de tensão. 

Momentos depois, acompanhamos a personagem finalmente gravando suas cenas de sexo no filme que estavam produzindo. Além de parecer completamente à vontade, ela não se desculpa em nenhum momento por querer o que quer, a fama e pelo desejo de fazer sexo por prazer e não como uma questão a ter medo.

Alguns momentos antes disso, ela mais uma vez é colocada em uma situação de possível perigo sozinha, mas em um contexto completamente diferente.

Após se livrar, mesmo sem saber, de uma morte violenta no lago, exatamente na cena seguinte, ainda de cabelos molhados, Maxine vê a velha Pearl acenando de longe e finalmente entra na casa da fazenda, que não parecia nada convidativa. Mesmo com todos os sinais possíveis de que ali havia algo errado, senta e bebe uma limonada. Tudo bem que a gente pode inferir que não dava exatamente pra personagem entender e já esperar o tamanho do risco que estava correndo ao entrar ali, mas dá pra compreender, ao menos pelas suas expressões, que no mínimo, ela já estava apreensiva. Tanto que ao final da cena o seu medo se concretiza e ela corre de volta para os amigos.

É nesse ponto específico que o roteiro, mesmo ainda sem mostrar o real assassino, deixa mais do que claro onde o perigo maior reside. Nesse mesmo momento já dá pra inferir que o cinismo dos jovens existe, mas é mais inocente que qualquer outra coisa ali naquela fazenda. Isso porque está baseado no fato de que eles se acham subversivos e corajosos por estarem quebrando as regras do velho Howard, filmando uma produção pornô bem ali no seu “quintal”. No entanto, para eles, talvez não para a gente, a surpresa é que Pearl e Howard também são cínicos mas de uma forma extremamente pior.

 

A criatividade e o comprometimento como armas nada secretas de um suspense bem feito

O fato de Mia Goth interpretar as duas grandes personagens do filme, Maxine e a senhora Pearl, é uma soma enorme à produção e ao mesmo tempo consegue ser algo tão bem feito que, mesmo aos olhos dos mais atentos, não dá pra notar de primeira. A forma como isso foi usado é ainda melhor, pois parece simbolizar justamente que a senhora se via em Maxine quando jovem, porque além da semelhança física, ela também tinha um sonho artístico quando jovem. Sonhava em ser uma dançarina mas teve seus sonhos destruídos pelas circunstâncias de seu próprio tempo. No presente do filme, Maxine sonha em ser uma atriz conhecida pelo mundo inteiro.

Todo bom vilão precisa de uma boa motivação, é claro que como estamos falando de um slasher movie, o que importa muito mais é como a carnificina é reproduzida, mas nesse caso essa construção só adiciona mais um elemento fortíssimo a tensão e ao suspense que já estavam bem construídos até esse ponto da narrativa. A personagem Pearl parece ter inveja da juventude daquele grupo e ao mesmo tempo raiva e ressentimentos por não ser mais tão jovem como um dia foi e por isso, em sua cabeça, não mais poder aproveitar a vida da mesma maneira.

A música que fica a cargo de Tyler Bates (Guardiões da Galáxia) e Chelsea Wolfe (Lone) é um dos pontos mais fortes que ajudam a desenvolver e provocar o suspense desde o início do filme e ainda cria uma identidade forte. Se você ouvir de longe, já vai saber que tem alguém vendo X.

O destaque para a fotografia/cinematografia de Eliot Rocket (Hotel da Morte) está para a cena em que Pearl assassina RJ (Owen Campbell) em frente aos faróis ligados de seu próprio veículo e o reflexo da luz do carro no rosto dela vai mudando para um vermelho vivo e assustador à medida que o sangue do jovem espirra e a personagem parece sentir uma espécie de êxtase evocado de sua própria juventude como dançarina, agora longínqua. Ao final ela dança e sorri.

É nesses pequenos momentos do filme que a criatividade se sobressai e transforma o conjunto em algo de nível mais elevado.

 

Uma resposta ao moralismo do próprio gênero slasher?

O subtexto mais óbvio que o filme apresenta, talvez, é a hipocrisia de Pearl e Howard que sempre aparecem criticando a libertinagem relacionada ao sexo. No entanto, não demora para entendermos que a perversão que eles tanto colocam nesse tema está completamente neles mesmos. Ambos assediam e julgam a “perversão” do mundo, baseados em um moralismo religioso mas são muito mais perversos, pois atraem, sequestram, abusam e assassinam (não necessariamente nessa ordem) pessoas jovens para satisfazerem suas próprias vontades direta ou indiretamente. 

Outros pontos deixam mais evidente como o filme vai desmontando certas cartas marcadas que geralmente existem nesses filmes. O principal deles é o moralismo relacionado a ordem da morte dos personagens. Isto é, porque não só pela natureza do gênero slasher, desde o começo do filme a gente já sabe que uma galera vai morrer… Ao mesmo tempo sabemos que, no gênero, certos temas como: promiscuidade da mulher, sexo e nudez são puníveis com a morte.

Um dos traços importantes de subversão é que os homens são muito mais diretamente “penalizados” pelo roteiro com suas próprias mortes terríveis. Não exatamente por serem “imorais” do ponto de vista sexual, que é explicitado, afinal de contas eles estão produzindo/filmando/atuando em filmes pornográficos, mas sim por serem idiotas o suficiente por não enxergarem o perigo e agirem com estupidez, não percebendo o risco por presumirem conhecer o mundo e o limite das pessoas. Outra coisa é que, ao menos dois deles, geralmente são sexualizados e objetificados em suas cenas, o que poderia contar um ponto para a questão do “moralismo assassino” desses filmes, mas por serem homens acho que o melhor jeito de enxergar isso é a subversão do roteiro por não serem as mulheres nesse mesmo lugar. (que geralmente ocupam).

As três mortes se relacionam com isso. RJ, que se irrita porque sua namorada o contrariou em sua própria hipocrisia que também é moralista e decide ir embora no meio da noite sem avisar, Gilroy que foi apenas idiota o suficiente para sair caminhando no meio da noite, só de cueca, na fazenda de um velho insano que o recebeu com uma espingarda horas antes e por fim, Jackson (Kid Cudi) que dos três, talvez seja o mais consciente de um possível risco mas que também subestimou o perigo por presumir uma possível inofensividade de um homem que o tratou com hostilidade antes. 

É claro que outros clichês aparecem, como em Bobby-Lynnne que é a típica loira gostosa apresentada muito bem pela Brittany Show. Até mesmo o fim da personagem é clichê, mas funciona muito mais como uma reafirmação do gênero e suas origens. A trama e finalização da personagem principal, Maxine, consegue ser um bom contrapeso a isso. Ainda que, talvez, observando as três personagens mulheres incluindo Lorraine (Jenna Ortega), e deixando de lado Pearl, daria pra tentar imaginar um final de fato surpreendente por completo, mas isso acaba abocanhado pela própria identidade da trama, que parece precisar do final que realmente se dá para o filme se considerar como uma produção do gênero.

Ao final, Se X foi uma intenção de Ti West de tentar renovar ou não algumas “regras” do slasher movie respondendo ao moralismo desses filmes, talvez não importe tanto. O melhor aqui é que isso pareceu ser feito de forma orgânica e nunca forçada. Esse é um filme que cumpre o seu papel de divertir, assustar e deixar roendo as unhas na medida certa, além de saber brincar com a estranheza e o medo da melhor forma. Com o seu final acurado. e que faz jus a toda trama construída, é um fato que você provavelmente vai se divertir assistindo.