CONTÉM SPOILERS

Aparecendo pela primeira vez no MCU em Capitão América: Guerra Civil, o Homem-Aranha foi um personagem mostrado como um adolescente que estava no início da sua jornada em ser um super-herói. Em Homem-Aranha: De Volta ao Lar, conseguimos ver um jovem Peter Parker que estava conhecendo um pouco mais das responsabilidades de ser mais um nesse vasto universo dos heróis mais poderosos da Terra, diferente do que foi visto nas duas outras versões do personagem que traziam o teioso como centro de todo o contexto. E agora, após o grande embate que nos foi apresentado em Vingadores: Ultimato, o novo filme solo do Cabeça de Teia (Homem-Aranha: Longe de Casa) chegou com a difícil tarefa de manter o nível de qualidade dos filmes do MCU no topo, ao mesmo tempo em que mostra o personagem protagonista lidando com todas as consequências anteriores junto a um peso que ele terá de carregar daqui em diante, mas sem perder a essência do que já foi mostrado do personagem em outros filmes.

Logo após o final de Ultimato, muitos fãs questionaram sobre como o próximo (e último) filme da Saga do Infinito lidaria com todas as consequências do estalo (ou blib, como eles chamam no filme) durante sua trama, mas o roteiro de Chris McKenna e Erik Sommers foi esperto em resolver todo esse assunto nos minutos iniciais do longa ao utilizar o artifício cômico na trama. Os acontecimentos fluem de uma forma que não desrespeita e muito menos irrita o público, pois sempre foi evidente a proposta de que o universo do Homem-Aranha tem esse ar mais bobo e cartunesco, deixando claro aos espectadores que todos os personagens já poderiam ter lidado com esses momentos. A partir desse ponto, o filme inicia a jornada de um Peter que não busca apenas se divertir com seus amigos e com a menina que gosta durante a excursão escolar, sem a pressão de andar por ai com seu traje para impedir o perigo pela Europa; e mesmo que a trama pareça ser boba de início, é dessa maneira que o filme ganha muitos pontos positivos, por ser um filme que gostaria de mostrar apenas adolescentes relaxando normalmente, mas como se trata de um filme do Universo Marvel, é de se esperar que uma ameaça daria as caras na vida do jovem aranha rapidamente, e a forma como as ações se coincidem é fenomenal graças ao excelente desenrolar do roteiro do filme. McKenna e Sommers souberam direitinho como desenvolver cada acontecimento naturalmente, sem perder todo o sentido que já foi mostrado no filme anterior do herói.

Como quase toda sequência de um filme, engrandecer as ameaças e seus ambientes são considerados comuns, principalmente no subgênero de super-heróis. Mas por se tratar de um tipo de filme que pode lidar com diversos gêneros, Longe de Casa busca entrelaçar sua típica formula de filme adolescente junto a um conceito sútil de comédia romântica com uma pitada de ação épica até onde seu roteiro permite.

Assim como em De Volta ao Lar, o novo longa busca se concentrar no momento em que Peter Parker está vivendo de maneira mais intimista, só que dessa vez o filme também se apresenta como um filme grandioso sempre que possível, e a direção de Jon Watts (diretor do primeiro longa do teioso) ajuda muito nesse quesito.

Todo esse trabalho consegue transitar muito bem pelos diversos gêneros e Watts demonstra mais uma vez o quanto conhece e quer inovar para enriquecer o personagem. Por um lado, quando mostra um pouco dos encontros e desencontros entre Peter e MJ, a direção nos ajuda a ver um pouco mais dos sentimentos que o protagonista tem durante cada um desses momentos e como isso mais a frente faz com que o espectador torça pelos personagens no final. Por outro lado, o excelente trabalho de Watts com as cenas de ação nos aproxima ainda mais da visão do Homem-Aranha diante de suas ameaças, e algumas dessas sequências são capazes de deixar o espetador vidrado na cadeira de tão impressionantes que elas são feitas, sendo incapazes de tirar nossa atenção do filme com qualquer outra coisa presente em tela no momento do show de ação. Até a direção de arte e os efeitos especiais do longa não decepcionam em momento algum, fluindo muito bem e enriquecendo os nossos olhos, principalmente quando o filme nas imersivas e mirabolantes cenas envolvendo as ilusões do vilão Mysterio.

Em relação ao Mysterio, ele é um dos grandes acertos do filme ao mesmo tempo em que traz alguns dos problemas do roteiro. Quando o personagem é apresentado pela primeira vez, conhecemos um personagem heroico e com uma história de origem bastante trágica e que entrega algumas das melhores cenas de ação do longa ao entrar em conflito com os Elementais e ao trabalhar em conjunto com o Homem-Aranha; mas para todos os fãs conhecedores do passado do personagem, o momento onde o filme o entrega como o grande vilão do filme chega a surpreender o total de zero pessoas, principalmente quando o roteiro entrega uma cena que deixa bem claro os planos do vilão muito antes da grande reviravolta ser revelada, perdendo todo o seu potencial de impacto para a audiência ao levar um grande momento tenso para uma pegada mais boba, que dessa vez foi direcionado para um bobo fraco que se diferencia do que já foi mostrado no começo do filme. Tanto em De Volta ao Lar como no mais recente filme do teioso, ambos os vilões são frutos de um ódio causados por ações passadas de Tony Stark e também causados pelos diversos deslizes juvenis de Peter Parker, que nesse filme ainda não conseguiu aprender a perder sua ingenuidade diante daqueles que aparecem em sua vida, deixando que a emoção tome conta da sua razão. Um diferencial entre esses dois filmes é que o Abutre de Michael Keaton tinha muito mais profundidade e motivação como vilão, ao ser mostrado como um homem que roubava apenas como forma de sustento, diferente de agora, onde o vilão é motivado muito mais pela ganância do que por acontecimentos mais profundos, e então ele começa a se perder em seu próprio ego antes de ser derrotado pelo Cabeça de Teia.

O que salva o personagem Mysterio de ser um vilão tosco em cena é a belíssima atuação de Jake Gyllenhaal, um excelente ator que rouba a cena sempre que aparece. Qualquer outro ator na pele do personagem provavelmente não saberia como se manter em tela, mas Jake entrega uma performance que mostra com exatidão o grande vigarista que o personagem sempre foi nos quadrinhos.

Mas não é só Gyllenhaal quem entrega uma ótima performance, pois o filme é recheado com belas atuações de todo o elenco, desde o principal até mesmo com os coadjuvantes (dando uma ênfase nas divertidas cenas com os professores vividos por Martin Starr e J.B. Smoove).
Tom Holland prova mais uma vez que ele é o Peter Parker definitivo dos cinemas, seja com sua desenvoltura acrobática ou ao entregar jeitos de um garoto de 16 anos com bastante naturalidade (levando em conta que o ator tem 23 anos) mas também ao mostrar em tela as verdades de um rapaz que está cansado do fardo de receber tanta responsabilidade. E em reflexo a isso, podemos ver que o ator tem uma química muito forte com a personagem de Zendaya, que entra com o papel de par romântico do protagonista e que consegue se distanciar dos clichês de tal papel ao mostrar pequenos trejeitos que fazem da personagem esperta e autêntica , dando assim o charme que a personagem precisa e que também chama a atenção de Peter no filme.
Outros personagens na trama como Ned Leeds (Jacob Batalon) e Betty Brant (Angourie Rice) servem como um dos alívios cômicos do filme que poderiam ser totalmente desnecessários, mas que ganha muitos pontos positivos graças ao carisma dos dois atores, e ao mesmo tempo em que isso acontece como uma piada no longa, isso também é visto por muitos como uma referência, pois o casal já teve um relacionamento duradouro nos quadrinhos passados do Homem-Aranha. A tia May (Marisa Tomei) aparece um pouco menos nesse filme do que anteriormente, servindo apenas como mais um gatilho para entregar cenas engraçadas ao lado de Happy Hoogan (Jon Favreau) que chega nesse filme não só como um novo interesse amoroso para a tia do teioso, mas também serve como uma grande lembrança do legado do Homem de Ferro nesse universo. 
As aparições de “Nick Fury e Maria Hill” (Samuel L. Jackson e Cobie Smulders) dão a entender que os personagens servem um pouco como antagonistas na trama, mas não de forma maléfica com planos de destruição, mas pelo fato de ambos os personagens chamarem a atenção de Parker com o intuito de estragar sua excursão em todo momento. E durante o tempo em tela, é possível estranhar um pouco ao vermos um Nick Fury tão diferente do habitual, mas isso é totalmente temporário quando descobrimos que essa versão do personagem era na verdade o um Skrull que estava infiltrado a pedido do próprio Fury, o que pode ser tratado como uma sátira a saga Invasão Secreta e também uma referência aos M.V.A’s (Modelos de Vida Artificiais dos quadrinhos) junto ao que pode se tornar a E.S.P.A.D.A. (uma agência parecida com a SHIELD que lida com os assuntos do espaço sideral).

Homem-Aranha: Longe de Casa é mais um grande acerto do Universo Marvel nos cinemas, que se torna revolucionário no gênero ao mostrar não só uma aventura intimista de seu personagem, mas também ao engrandecer todo o universo do herói, e esse encerramento para a Fase 3 da casa das ideias veio com uma das melhores cenas pós-créditos desse universo até o momento, empolgando a todos e nos deixando ansiosos para saber o que vem pela frente não só no mundo do teioso, mas em toda a Fase 4 que está por vir.